terça-feira, 28 de junho de 2016

plim

Há um momento
um exato momento
um instante
um segundo
um milésimo
um click
um plim
pequeno
minúsculo
quase invisível
imperceptível
assim desse tamanho.
Nesse momento, instante, segundo,
um olhar pode virar
a mesa.


El

Você não acredita em astrologia,
mas é exatamente como dizem as estrelas.



Sobremesa de morango

Eu não devia ter olhado para você,
quando você me olhava na hora do almoço
como se eu fosse a sobremesa de morango.

Talvez eu devesse ter olhado,
e esperado você falar comigo depois,
como você fez.

E se eu não tivesse percebido
que você me olhava,
sobre o que eu escreveria agora?

Eu nunca saberei

Quando eu decidi pela estrada de terra,
ninguém entendeu
que tanto faz:
se eu escolher um lado
- e não o outro,
não importa o que acontecer,
eu nunca saberei como seria
se eu tivesse escolhido
o outro lado.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Tarja preta

Era uma noite fria, mas não tinha nada para comer em casa então a Ana e o Lucas decidiram sair para comer. Até dava pra fritar um ovo e fazer um viradão com o arroz de ontem, mas eles iam precisar lavar as panelas e fazia muito frio para lidar com água. Lavar na máquina? Nem pensar, a Ana era muito cheia de frescura e dizia que a máquina não lavava direito. Pedir comida? Ia demorar muito. Os dois pegaram os casacos mais quentinhos, cachecóis, luvas e foram a pé. As ruas estavam quase vazias e todas as janelas das casas pareciam quentinhas por dentro. Os dois sentiam uma pontinha de arrependimento de terem saído de casa, mas precisavam comer. A fome só aumentava. Para a sorte deles, quando chegaram no restaurante não tinha mais ninguém e eles puderam sentar na mesa preferida deles: uma bem no cantinho de onde dava para ver a cozinha. Acharam estranho o silêncio e o vazio, mas faltava pouco para o restaurante fechar, então fizeram logo o pedido e esperaram. 
O cozinheiro, um homem depressivo de 42 anos, estava trabalhando desde às 9h da manhã sem parar porque toda a equipe do restaurante tinha pegado um vírus e faltado naquele dia. Era só ele e a garçonete, Maria. Antes de sair de casa ele deveria ter tomado o remédio tarja preta que lhe aliviaria a vontade de morrer, só que como ele foi pego no susto com a ligação da Maria, não tomou e saiu de casa correndo. Tudo deu certo até lá pelas três da tarde, quando a vontade que Marco, o cozinheiro, sentia de morrer começou a crescer e ficar maior que ele. O jeito era beber. Bebeu o suficiente para continuar fazendo o seu trabalho sem pensar. Ele conseguiu levar o dia, metade bêbado, metade concentrado no trabalho. Fez todos os pratos, errou uma coisa ou outra, eles não estavam tão caprichados como num dia normal, mas nenhum cliente reclamou por escrito, nada que prejudicasse o restaurante. O dono, quando voltasse de viagem, não ia notar nada diferente. Agora à noite, às vésperas de ir embora, a concentração era quase nenhuma, o cansaço era muito e faltava pouco para acabar. Então ele relaxou. Quando viu um rato atravessar a cozinha, ele já estava terminando o último prato e estava de saco cheio. Não teve dúvidas: com o facão de cortar carne foi em direção ao bicho e num golpe só dividiu o bichinho ao meio. Pegou um saco preto e tacou em cima do bicho pra não ter que ficar olhando para ele. Foi até a pia, deixou a faca na água corrente e pegou outra para continuar cozinhando. Quando ele virou para tirar o arroz do fogo, reparou no vidro que dá para o salão do restaurante e os seus olhos cruzaram com os olhos dos dois clientes boquiabertos. 

terça-feira, 7 de junho de 2016

Nada

Eu não sei por que eu respondo isso. Não sei mesmo. Já pensei que pudesse ser por insegurança, mas não pode ser. Já pensei em preguiça, em dúvida, em algum medo. Não, não, não. Nada disso. Sempre que o meu marido me diz: "amo você" (nunca "eu te amo" porque ele acha brega), eu digo: "ama nada". Por que diabos eu respondo isso? Eu acredito no amor dele, eu sei que ele está lá, eu não tenho medo ou qualquer coisa. Hoje, enquanto eu descia as escadas rolantes do shopping depois do almoço com meu pai, ele - o meu pai - me deu a resposta. Durante o almoço eu e ele havíamos conversado sobre o quanto somos parecidos e nossa conversa havia sido ótima, mas naquele momento, enquanto descíamos as escadas, eu disse a ele: "eu tava com saudades, pai." ele respondeu: "tava nada".

domingo, 5 de junho de 2016

Sem separar-se

Como se faz uma separação sem separar-se?
Porque existem vários tipos de separação. A separação física, a separação física e mental, a separação só de um lado, a separação dos dois lados e mais algumas outras separações.
Quero saber sobre a separação física apenas. Dois seres que queriam estar juntos. Acontece que o mar, o continente, o sonho, o tempo, o timing, a demora, a espera, o cansaço, a descoberta, a curiosidade, o Universo e mais algumas outras coisas entraram bem no meio do caminho. Como se faz uma separação dessa natureza? Sei que com cimento não é, com talco talvez? Ou então um pouco de mel? Como se nasce um abraço que antecede uma separação desse tipo? As lágrimas que vem conseguem ter tempo de se formar entre a despedida e o aperto? E quando não conseguem? Existe alívio depois do aperto? Quanto tempo demora? Como se sobrevive aos primeiros dez dias? Se sobrevive? Se morre? Uma separação sem separar-se, dessa natureza, é possível entre quaisquer seres humanos? Mesmo os mais felizes?

Desconhecido

Eu quero deixar claro ao mundo que eu não sou corajosa. Estou saindo de um lugar que ia acabar me matando, estou indo porque as circunstâncias me obrigaram a tomar decisões imediatas, estou indo porque o destino arrancou as minhas mãos do modo automático e me levou.

Escapatória

Talvez eu tenha um pouco de medo dessa minha casa à noite, sem você. Eu às vezes tenho medo de estar exposta demais ao mundo aqui nessa pequena casa, com essa escuridão que faz lá fora, no Universo à noite. Milhares de coisas podem acontecer, como um sonho invadir a minha casa armado, me obrigando a seguí-lo, como já aconteceu comigo antes. Eu posso gritar, espernear, mas eu vou seguí-lo, não importa quão tarde seja ou quão perigoso possa parecer.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Não estarei aqui

E se eu falhar,
se nada der certo,
se eu quase morrer,
de tanto sofrer
por um erro qualquer,
um erro de matar,
o que poderia acontecer?
Eu não vou morrer,
e se por acaso acontecer,
Não estarei aqui para ver.

Ana B. - Parte 1

Uma mulher de quarenta e poucos anos. Magra, altura mediana, boas roupas. Alguém a encontrou caída no chão de um apartamento, morta. Não tinha ninguém no mundo e morreu de câncer, aparentemente nunca diagnosticado. De acordo com as leis do meu trabalho, eu tinha setenta e duas horas para anotar absolutamente tudo que eu via ali dentro. Tapete de boas-vindas bem-humorado, flores mortas, peças de madeira. Maçaneta de porcelana. Casa com cheiro de flores e mofo. O primeiro porta-retratos que encontro é ela na foto. Com as costas nuas, de perfil, cabelo do rosto. A mulher mais linda que eu já tinha visto na vida. Livros, discos, quadros. Rede de balanço, geladeira, tapetes. Uma solidão infinita. Nem um sinal de namorado, amigo, parente. Comecei a pensar se era solitária porque era linda demais. Se era linda demais porque só dormia, ao estilo Bela Adormecida. Entrei no quarto. Luminárias, criado-mudo, comprimidos. Espelho, espelho, penteadeira. Jóias, bijuterias, presilhas de cabelo. Solidão. Batom, rímel, esmaltes. Quem seria ela? Quem seria a mulher mais bonita que eu já havia visto? Teria se apaixonado, namorado, trabalhado? Encontrei uma gaveta cheia de cadernos, lotada. Passei setenta e uma horas lendo a história de Ana B.

Global goodbye

I am sorry to let you down,
but I am going to let you go.
- Goodbye.
I do not love you anymore.
It has been a while, actually.
Thank you for letting me stay for so long
and you are welcome that I have worked so hard.
You have taught me many lessons,
and you made me used them with you.
Now I have to be somewhere else,
doing very silly things such as:
following dreams.

Segunda noite

Coloquei dois travesseiros no seu lugar da cama. 
Eles estão ocupando totalmente o seu espaço,
e você já nem faz falta. 
Esta é a segunda noite e eu já superei você. 

sexta-feira, 27 de maio de 2016

O postal

Em Paris existe um museu absolutamente encantador chamado Centre Pompideu. Sou fascinada por ele e pela loja dele também. Na loja eles vendem caderninhos de todos os tipos, invenções, coisas de madeira, postais, livros, pinturas, artes, bugigangas de todos os tipos, milhares de coisinhas. Mas é na sessão de postais que eu passo mais tempo. Quero comprar todos os postais e fazer quadrinhos com eles. Passo horas olhando para cada um e pensando para quem eu daria qual postal, nas histórias de cada artista que fez cada postal, na minha vida, na arte, em Deus, me perco em cada um deles. São infinitos. Um dia eu estava na parte dos postais de fotografia, quando eu fixei os olhos em um e me apaixonei completamente. Era uma fotografia em branco e preto de uma cama simples com um casal sentadinho na ponta. A garota vestia uma blusa preta, encarava a máquina com um sorriso quase imperceptível e abraçava o menino de costas. Ele vestia um terno e sorria profundamente. Na parte de baixo da borda da foto havia um texto à mão assinado por um rapaz dizendo: “Esta fotografia é minha prova. Teve aquela tarde quando as coisas ainda estavam bem entre nós, ela me abraçava e nós éramos tão felizes. Isso aconteceu. Ela me amou. Veja por você mesmo.” Meu coração disparou e eu comprei o postal imediatamente. Ele me emocionava tanto que de repente já fazia parte de mim. Uns meses depois era natal. Eu mandei fazer um quadrinho com o postal para dar para o meu namorado. Ele não era sensível, mas algumas coisas ele entendia bem e aquele quadrinho era doce demais para passar despercebido. Mostrei para minha mãe com a certeza de que ela ia gostar. Ela olhou para o postal, fez cara de susto e foi para o armário mexer com caixas antigas. Voltou um tempo depois e disse: “Veja filha, em 1981 o seu pai foi viajar para os Estados Unidos e mandou esse mesmo postal para mim.” Eu não pude acreditar. Peguei o postal na mão e atrás dizia “saudade” com a assinatura do meu pai.

Presos na nossa garganta

Hoje eu conversei com alguém sobre você, sobre te amar e estar perdida, sobre te amar e ter dúvidas e não saber, e te amar. Enquanto eu falava, tive vontade de chorar. Precisei levantar da mesa, engolir e fingir que queria beber água. Quando senti que minhas lágrimas não estavam mais presas na minha garganta, recuperei a fala e disse que tudo ficaria bem. A gente sempre fala para os outros que tudo ficará bem, os outros são outros, eles não estão presos na nossa garganta.

domingo, 22 de maio de 2016

Um instante

Era um dia muito quente. Meio de semana, horário de pico, ônibus lotado. Um pai de meia idade voltava para casa levando a filhinha de uns seis anos pela mão. Ele estava exausto. Tinha passado o dia procurando trabalho no centro da cidade, batendo em todas as portas com a filha ao lado ouvindo sempre "não". Os dois finalmente iam voltar para casa. Então, quando já estavam no terceiro e último ônibus, a menininha passou a puxar a camisa do pai. O pai limpava o suor na testa e não queria encarar a filha depois de tanta derrota, por isso ignorava os puxões. Quando a menininha gritou alto: "papai!", ele precisou olhar para ela. Ela então sorriu, apontou para o adesivo indicando para quem eram reservados os assentos preferenciais, e disse: "Qual desses quatro bonequinhos você quer ser? O sentado nessa cadeira com rodas, a mamãe com a filhinha, o velhinho de bengala ou a gordinha? Eu quero ser a mamãe com filhinha!"

Ele

Eu decidi partir num dia de calor qualquer do mês de março. Eu tinha voltado de férias e estava deslumbrada com a vida que existia lá fora. Então resolvi explorar melhor o resto do mundo. Ele também estava partindo, ia estudar fora. Ele parecia não se dar conta, ou não se importar, ou não perceber o que estava por vir. Eu percebia e pensava nisso a cada segundo, a cada milésimo de segundo da minha vida naquele momento. Não tinha outro assunto na minha cabeça. Eu, que sou uma pessoa que adora fazer uma faxina, não conseguia pensar em outra coisa nem na hora de fazer faxina. Como seria a vida sem ele? Como seria dormir, acordar, almoçar, ver tv, jantar sem ele por perto? Achava engraçado como todo mundo fingia que estava tudo bem naquela separação. "Tudo bem, vocês vão se reencontrar." Bom, eu fui, ele foi, e passamos a viver separados por um tempo. Eu morava em uma casinha modesta no sexto andar. Dividia a casa com outras pessoas que não entendiam por que eu havia me separado depois de tanto tempo namorando. Naquela época, naquele país, eu estudava cinema. Eu não tinha dinheiro para fazer muita coisa, então saia da escola e ia direto para casa. Um certo dia eu resolvi comer alguma coisa fora com a turma da sala. Um homem sentou-se do meu lado. Esse homem é o seu avô, querida.

terça-feira, 17 de maio de 2016

A Caixa


Meu pai levantou da mesa e sumiu no corredor.
Teria se entediado da conversa? Não sei. Esperei.
Papai voltou com um sorriso malicioso no rosto.
Ele segurava uma caixa.
Abriu a caixa e tirou de dentro uma arma pesada.
"É de chumbinho. Vamos brincar de atirar nas folhas?"


A notícia

Minha irmã parecia triste. Reclamava que estava gorda e que andava irritada e cansada demais. Minha mãe estava secretamente preocupada com ela. Sutilmente minha mãe, que também é médica, pediu uma pilha de exames para a minha irmã, alegando que fazia tempo que minha irmã não fazia exames, que ela só queria dar uma olhadinha mesmo. Pra mim era tudo muito óbvio: minha irmã tinha sido pedida em casamento há alguns dias e esse era o jeito dela de expressar o nervosismo extremo. Eu sabia que ela estava nervosa, ansiosa e que devia ser só isso. Minha mãe não. Ela pensava no cisto que uma vez um médico achou no ovário da minha irmã, mas que não era nada e que ficou por isso mesmo. Minha mãe sempre cismou com esse cisto. Ela sempre pedia exames, estava sempre de olho, sempre com medo do que aquilo poderia virar. O clima na casa estava ficando chato, porque a minha irmã só queria dormir o tempo todo e quando não dormia ficava reclamando das coisas. Ela só ficava melhor quando via o noivo. Eu estava um pouco cansada. E cansada também da minha mãe cega de preocupação, perguntando todos os dias se os exames tinham chegado. Meu pai ficava blasé na poltrona, ou fingia que estava blasé pra disfarçar que também estava preocupado com a minha irmã. Até o dia que o cara da portaria passou os exames por debaixo da porta, bem na hora do jantar. Meu pai foi o primeiro a perceber. Ele largou o garfo e olhou para minha mãe. Minha irmã nem se deu conta e continuou mexendo no celular, provavelmente falando com o noivo. Eu me levantei e fui buscar o envelope na porta. Minha mãe quase o arrancou da minha mão e já começou a rasgar o envelope. Ela ia lendo os resultados com os olhos e fazia um "ok" com a cabeça para o meu pai até que ela fixou o olho em certo ponto do papel. Ela fez cara de pânico, ficou branca e paralisada, olhando para um ponto fixo qualquer no chão. Nessa hora, num impulso, eu segurei a mão da minha irmã, que levantou os olhos para ver o que estava acontecendo. Quando ela viu o símbolo do laboratório no envelope e a cara da minha mãe, ela entendeu tudo. Meu pai também entendeu tudo. Os dois deixaram uma lágrima cair discretamente e tossiram quase juntos para disfarçar. Minha mãe de repente parece que voltou a realidade e disse, quase engolindo as palavras: "Eu... eu vou ser avó!" e deu uma risada pesada. Meu pai e minha irmã não entenderam nada. Nem eu.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Passei

Não consigo pensar em você sem uma pontinha de tristeza: sou a mulher que passou, e você deixou passar. Sei que ainda não passei, que estou aqui agora, mas às vezes me parece tarde demais. Às vezes eu sinto que você me deixou passar.
Eu desconsidero 
quando considero
tarde demais.

Sem sorriso

Quando eu te vi passando por mim, eu secretamente sabia que você era triste. Você estava saindo da livraria e eu entrando nela. Você me olhou sem saber quem eu era e eu também te olhei, mas eu sabia. Você, colunista de jornal, herdeiro de livraria, um homem triste. Pensei na mulher que te deixou alegando tristeza demais. Pensei se a sua tristeza seria interessante ou só triste. Se eu conseguiria fazer a minha tristeza se comunicar com a sua. Pensei se você, do seu jeito cabisbaixo, me ensinaria coisas fascinantes que você leu nos livros. Pensei em nós dois excluídos do mundo, lendo nossos livros e escrevendo poesia. Eu pensei em milhares de coisas naqueles segundos que eu te vi me olhando. Gosto de pessoas tristes.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Sobre um sonho

   Eu estava em um carro, o meu talvez, com alguma amiga minha. Estávamos indo para a casa dos meus pais, que talvez naquele sonho fosse a minha casa. Ao chegar na portaria, lembro dos guardas, e lembro de eu, de repente, me dar conta de que estava sem alguma coisa, algo me faltava. Então eu e a amiga fizemos a volta e, bem coisa de sonho, surgimos do nada dentro de um avião. Para onde aquele avião estaria indo, eu me perguntava. Minha amiga também não sabia. Era um avião diferente, eu não precisaria ficar sentada durante o vôo, tinham vários lugares para ir ali dentro. E nessa hora, com uma consciência estranha de alguém que sabe que aquilo é um sonho, eu fiquei tentando calcular aonde estava indo o avião, descartei os Estados Unidos – porque ainda não era hora de ir para os Estados Unidos, mas precisava ser algum lugar perto. Perguntei para a aeromoça para onde íamos e com a maior naturalidade ela respondeu: "Para o Canadá." Para o Canadá? Que diabos eu estava indo fazer no Canadá? Senti uma urgência em ligar para o meu namorado para avisá-lo de que eu tinha entrado por engano em um avião indo para o Canadá. Ele, com a maior naturalidade, disse: "Canadá? Bem sua cara mesmo isso de entrar no avião errado." Eu suspirei aliviada pensando que ele agora sabia que eu ficaria offline por onze horas até o Canadá. E pelo menos a gente estava no mesmo continente. Quando então eu começaria a relaxar no avião-cruzeiro, eu acordei.


quarta-feira, 20 de abril de 2016

Cálculos II

Um dois três,
vezes mil duzentos e oito,
menos nove dez doze mil:
nem sei que números você calcula.

Eu só sei calcular palavra.
Calculei que o meu nome não aparece
em nenhuma das suas tabelas
- nem daqui a cem anos.

Eu calculo bem as palavras agora:
acho que quero ir para casa,
acho que quero fazer planos,
eu acho que quero ser o plano de alguém.

De acordo com os meus cálculos,
acho que eu não posso mais ficar sozinha.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Escrevo seu nome num grão de arroz

Atravessamos a rua eu e ele bem depressa porque ele precisava levar a comida quente para a namorada. Assim que atravessamos, uma mulher surgiu na nossa frente dizendo para o Edu que escreveria o nome da namorada dele, apontando pra mim, em um grão de arroz e transformaria em um colar. Eu dei risada e disse que nós não namorávamos. Nós éramos apenas colegas de trabalho e que acidentalmente nos encontramos na saída do batente. A mulher não aceitou. Disse que o Edu claramente gostava de mim e eu claramente estava interessada. Nessa hora o Edu parece que acordou dos seus pensamentos. Gentilmente empurrou a mulher e disse que não, nós não nos gostávamos, ela estava absolutamente equivocada e que por favor nos desse licença. Ele parecia incomodado com aquela afirmação, como se gostar de mim fosse um absurdo. Talvez fosse mesmo, eu gorda, descabelada e sem nenhuma vaidade era um absurdo de alguém gostar. Ainda mais alguém como o Edu, um cara inteligente, atraente e totalmente fiel. A tristeza que era para mim gostar dele, aquela mulher não podia nem sonhar. Escrever meu nome num grão de arroz, que coisa linda, delicada, poética. Quer saber, moça? Eu quero que você escreva o meu nome no arroz. Quanto custa? A mulher finalmente relaxou. Deu o preço e disse para nós esperarmos meia hora que ela iria na loja da esquina preparar o arroz. E por favor, escreve o seu nome nesse papelzinho. O Edu arrancou o papel da mão dela e disse que escrevia pra mim porque eu estava cheia de sacolas. Ele era de fato um cara gentil. Eu falei pro Edu que ele não precisava me esperar porque ele precisava ir e a comida da namorada dele já devia estar fria. Ele riu, disse que esperava comigo e que a comida não era para a namorada. Eles tinham terminado semana passada. Ele disse que terminou porque estava confiante de outra decisão na vida dele e precisava seguir em frente. Como ele não disse nada, também não perguntei que decisão era aquela. A gente se conhecia há tanto tempo que eu já sabia que o Edu não estava afim de falar sobre aquilo. Fiquei totalmente constrangida de estar ali, de estar me derretendo por dentro e desejando aquele homem pra mim enquanto ele sofria com outras decisões. Quis que a mulher do arroz chegasse logo pra fugir correndo dali. O Edu também claramente estava constrangido. E também claramente nervoso, querendo ir embora. Desisti de esperar pelo arroz. Dei o dinheiro para o Edu pagá-la e saí correndo em direção ao ponto. Entrei no ônibus e no caminho eu fiquei pensando que eu precisava me cuidar mais porque do jeito que eu era ninguém ia gostar de mim mesmo, que eu precisava emagrecer, que nem eu gostaria de mim. Assim que eu desci na minha rua, um taxi parou na rua e o Edu desceu. Ele veio em minha direção e disse "aqui está o seu arroz." E me deu um pacotinho com o pingente de prata e o arrozinho. Agradeci e disse que ele não precisava ter vindo de taxi me entregar, que amanhã eu iria para o trabalho. Ele insistiu que eu visse como ficou o arroz, que meu nome estava escrito errado. Abri o pacotinho. Meu nome não estava escrito errado. "Casa comigo?" estava escrito no arroz.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Devagar, mas levante

Hoje eu acordei de um sonho triste:
sonhei que eu estava parada, vendo a minha vida passar.
Quando levantei assustada, bati a cabeça no encosto da cama.
Voltei a dormir, meio morta talvez por causa da paulada.

Naquele meu estado de alma,
me vi parada na minha cama,
na minha vida, naquele instante.
Respirei fundo e pensei:
"mais devagar, levante."

quinta-feira, 31 de março de 2016

Começos

A. passava a tarde toda vendo o dia passar: via as folhas caindo, pombas entrando e saindo do seu jardim, via seu pássaro a olhando de dentro da gaiola. Às vezes ela olhava para ele de dentro da gaiola dela e pensava qual dos dois era mais triste.

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Fazia tanto frio que ficar do lado de fora em pé doía. Na esquina de uma loja indicada em um panfleto, duas mulheres estavam tão ansiosas que para elas o frio não doía. As duas ficavam imaginando como seria o grupo de pessoas que também iam participar daquela tal de peregrinação de bares pela histórica cidade. 

segunda-feira, 14 de março de 2016

Rascunho

Escrevi sobre minha vontade 
de dançar até o amanhecer 
de todos os dias seguintes.
Ficou tão exato, 
tão completo, 
tão verdadeiro, 
que reverti para rascunho. 

Inverno

Será que você detesta todos os meus pijamas de inverno? Estou preocupada. O inverno está chegando e eu não quero comprar um pijama novo, mas eu sei que você não gosta muito dos que eu tenho. Será que você vai me amar, quando chegar em casa, e eu estiver com algum dos meus pijamas de inverno?

domingo, 6 de março de 2016

Terça-feira

Quando eu era pequena os domingos eram um dia à parte. Meu pai disfarçadamente sumia da sala e ninguém percebia: nem eu, nem minhas irmãs. A minha mãe percebia, mas disfarçava com uma tosse seca. Alguns minutos depois a campainha tocava, e um homem muito esquisito aparecia. Um homem que lembrava um pouco meu pai, mas usava um óculos-nariz-bigode bem esquisitão. Ele dizia que seu nome era Tio de Bigodes e que vinha de longe para nos trazer balinhas. Eu sempre fui muito ligada em recusar doces de estranhos, mas nesse homem minha mãe parecia confiar muito. Então, dele eu aceitava balinhas. Aceitava as histórias, aceitava o colo, aceitava a tarde toda. Eu amava o Tio de Bigodes com todas as minhas forças e o achava quase tão legal quanto o meu pai, era uma pena que os dois nunca estavam ao mesmo tempo no mesmo lugar.
Hoje, muitos anos depois de descobrir que o Tio de Bigodes era o meu pai, eu reservo todas as terças-feiras pra almoçar com ele. Quando eu acordo já fico pensando no que vamos conversar, no que vou contar pra ele. Nessa terça-feira ele atrasou. Eu fiquei esperando por ele pensando que preciso fazer alguma coisa para deixá-lo mais animado. Quando ele chegou, resolvi falar sobre o Tio de Bigodes e os outros personagens que ele fazia. Ele deu risada, ficou leve. No fim do almoço ele estava super animado e cheio de disposição. Voltei para o trabalho, fingi que trabalhei e fui pra casa, pensando que eu queria me transformar num personagem que pudesse fazê-lo tão feliz quanto ele me fez a vida toda.

O meu dia

O meu dia não tem muita coisa:
eu corro de manhã, canto com o meu passarinho,
faço café forte, digo adeus e vou trabalhar.

No meu trabalho eu edito o que eu acho demais,
confiro informações, dou palpite,
e ajudo a construir matérias de televisão.

A pausa pro almoço é sempre uma alegria.
Às vezes almoço numa cantina ao ar livre,
às vezes almoço com minhas colegas no shopping.

Nas terças-feiras não. Nas terças-feiras eu almoço com meu pai.
Conversamos sobre as nossas vidas, nossas questões,
comemos mamão-papaya, tomamos um cafézinho e pedimos a conta.

Quando eu volto pra casa, eu sempre quero conversar.
O meu marido às vezes não, mas nos abraçamos e ficamos no sofá.
O meu dia sempre acaba nesse abraço.



quarta-feira, 2 de março de 2016

Ernest, 1929 (da foto de André Kertész)


Tenho raiva dessa foto. Uma raiva imensa porque eu estava resolvendo um problema de matemática no quadro negro quando um fotógrafo atrevido entrou na sala de aula junto com o diretor. O diretor disse:
 - Crianças, este fotógrafo veio da Hungria só para fotografar vocês. Fiquem quietinhos e façam tudo que ele mandar.
O diretor saiu da sala e esse tal fotógrafo me mandou ficar ao lado da minha carteira, disse que iria começar as fotos comigo. Eu fiquei lá do lado da carteira, fazendo o maior bico é claro, porque o que eu queria era terminar de resolver o único problema de matemática que eu consegui resolver na vida. Mas o fotógrafo húngaro atrapalhou tudo. E ainda por cima não gostou da minha cara e pediu que eu sorrisse. Eu fiz esse sorriso dissimulado aí e pedi para voltar para o quadro. Ele deixou, mas já tinha estragado tudo, porque eu não consegui mais me concentrar e ninguém mais quis olhar pra mim ou para o quadro negro. Só queriam saber desse húngaro de mal gosto. Por que raios ele achou que seria bonito fotografar a minha sala? Com esse tanto de criança feia. Todas meninas da sala com esses cabelos horrorosos presos com essas fivelas caídas, igual a Beth ali no fundo. E a maioria das crianças tinha dente faltando bem na frente. E os meninos então? Só gordo ou viciado em bolinha de gude. Mas acho que de tudo, o que mais me deu raiva nesse fotógrafo amador é que ele ficou arrastando asinha pra todas as meninas da sala, contando histórias da Segunda Guerra, como se fosse super legal tirar foto de gente cheia de sangue.
A verdade é que eu não sei como essa foto veio parar no meu estojo e eu acabei de perceber que, por causa dela, perdi quase vinte minutos da prova pensando nesse dia. Se eu não passar na recuperação de matemática meus pais vão me mandar para um colégio interno. É a segunda vez que eu repito o último ano e tudo por causa desse fotógrafo. Depois que ele atrapalhou o meu problema no quadro negro aquele dia eu nunca mais consegui me concentrar na matemática. É melhor eu picotar essa foto antes que a professora ache que é cola.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Depois da primeira aula

Três versões de um dia perfeito

1.
Acordo num lago frio e silencioso,
me espreguiço como pede meu instinto,
fico parado, olhando para o nada,
contando moscas
cortando moscas
comendo moscas.

Esse é o meu dia perfeito
nesse meu corpo verde e gosmento,
nesse meu eu.

2.
Nem sei se eu saio da cama nesse dia
Se como purê de batatas
Se morro atropelada

Mas sei que nesse dia
eu não tenho nada pra fazer.

3.
Um dia perfeito:

(de forma que caiba
numa página
de uma folha
de papel)

Eu aprendo a escrever,
e
escrevo.





terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Toco de unha

Quando olho para esse toco de unha 
com esmalte preto 
eu imediatamente penso
 no que o fez chegar a aquele tamanho. 
E então eu sou torturada
 pela terceira vez. 

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

No fundo do barco

Será que sentar 
no fundo do barco e observar 
a terra ficar, 
a família acenar, o barco passar, 
só observar,
será que não se infiltrar 
é permitido nesse mundo?

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Diante daquele instante

Ontem à noite, enquanto olhávamos o céu, você encostou a sua mão na minha e assim ficamos por um tempo. Eu estava concentrada nas estrelas, num clichê: pensando no pedido que faria à estrela cadente que passasse e, quando senti a sua mão, me dei conta de que eu estava ali, e o mar fazia barulho, e eu não tinha mais nenhum pedido possível diante daquele instante.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Abandono

Muitas crianças, em determinadas situações, têm medo que os seus pais as abandonem. Uma vez eu e minhas irmãs fomos com nossos pais numa loja japonesa chamada "Sanrio" de bichinhos verdes, rosas, roxos e estojos e lapiseiras e papéis de carta e um mundo infinito de coisinhas de menina. Eu não lembro com quem ficamos, não lembro por quanto tempo, não lembro de muita coisa, só de ficar na porta da loja, sem entrar naquele mundo de coisinhas, com medo dos meus pais não voltarem nunca mais.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Redação

Um dos temas de uma das redações que você precisa escrever é: "O que é mais importante para você no mundo e por quê?". Vamos lá, eu te ajudo. É muito importante manter preservada a nossa imortalidade, diz o meu pai. Meu pai também diz que é importante ser humilde, ler bastante, ter tempo para nós mesmos. Minha mãe diz que é importantíssimo manter a doçura, ter compaixão, fazer sempre o bem. As minhas irmãs... uma diria que salvar o mundo é fundamental. A outra diria que poesia, mágica e energia boa salvarão o mundo e portanto são as coisas mais importantes. Acho que já ficou bem claro então pra mim qual é a coisa mais importante no mundo: família. Essa família.

Os meus cabelos compridos

Vejo meninas de cabelos curtos, lindas, e tenho vontade de cortar o meu. Acontece que eu gosto do meu cabelo longo me atrapalhando o dia todo, me dando calor. Gosto de poder prender, soltar, de pôr pro lado, de usar para chamar atenção. Gosto do meu cabelo, mas fico pensando o tempo todo se eu seria mais bonita com ele curto. Se eu fosse mais bonita, eu me sentiria menos sozinha?

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Geneve

Ouço, pelas ruas de Geneve, um carro acelerado e muita buzina.
Ninguém buzina em Geneve - reconheço minha irmã na esquina.
Pelas ruas de Geneve ouço gritos de alguém desesperado.
Antes que me desespere também, percebo: é minha irmã, bem ao meu lado.
As ruas de Geneve, em outubro, ficam molhadas, vazias, sem graça:
eis que surge minha irmã cruzando de trenzinho a praça.
O que aconteceu que Geneve em novembro ficou vazia?
É que todo mundo sente falta do barulho que a minha irmã fazia.


terça-feira, 24 de novembro de 2015

Obra de arte

Hoje eu tenho substrato para escrever poesia: dor, solidão e silêncio. O que me falta apenas é um pouco de inspiração. Um dia um amigo me disse que quando a gente tem substrato, a inspiração fica parada na porta, esperando para entrar a qualquer momento. Mas é preciso convidá-la. Ele disse que a gente convida a inspiração com muito trabalho. Ficar parado, esperando que ela entre não funciona. Esse meu amigo pinta quadros. Ele nunca espera a inspiração entrar, ele pinta cinquenta quadros e aí a inspiração vem e ele faz uma obra de arte.

(para Yusk)

sábado, 14 de novembro de 2015

Malandragem do Mickey

Meu pai devia ter uns quarenta e poucos anos. Eu devia ter uns 10, 11. Ele me deu um relógio de pulso do Mickey, ajustou a hora, me ensinou direitinho a entender o relógio em toda a sua complexidade e disse: "quero que você volte para casa às sete horas em ponto." Eu entendi bem e fui brincar. Mas eu me achava mais esperta que ele, então puxei o pininho e fiz com que o relógio parasse nas sete horas. E fiquei até as sete e meia, oito, oito e meia, nove. Quando deu nove horas e eu me cansei, voltei pra casa. E pus o relógio pra funcionar novamente. "Mas papai! Olha aqui! O relógio marca sete horas!" Meu pai estava furioso e nem quis papo. Eu nunca mais pude tentar aquele truque, porque meu pai tomou o relógio do Mickey de mim.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Urubus no telhado

A sua percepção do tempo anda te preocupando
e você faz poesias com urubus.
Diz que eles estão te esperando 
no telhado da sua casa.

Enquanto isso eles esperam ratos,
pássaros, só gambás que não -
gambás não sobem em telhados.

Urubus não esperam gente como você,
que inventa personagens para suas filhas:
tio de bigode, professor Tibúrcio,
Cordélia Brasil.

Urubus não esperam
gente que lê livros e mais livros,
que faz rir até perder a respiração,
que faz o melhor bacalhau do mundo,
que tem uma mulher como a mamãe. 

Você é do tipo de gente
que faz urubus saírem voando.



Carne

Nunca iremos admitir o nosso adeus.
Não era pra ser, foi tão disfarçado.
Ninguém sabia ao certo
que você ia embora.

Nunca iremos admitir o fracasso
de tentar te manter aqui.
Nesse fim de mundo,
nesse pedaço de mundo,
nesse mundo pequeno,
que era o nosso.

Não era pra ser, foi até engraçado.
Você nem disse tchau.
Tomamos café da manhã,
e num instante você partiu.

Ninguém sabia ao certo
que você não ia voltar logo.
Que ia ficar tão longe,
por tanto tempo, pra todo o sempre.

Que você ia embora um dia,
eu até podia imaginar:
como prender uma borboleta?
Mas eu achei que era um embora perto,
nunca, nunca, nunca tão embora assim.

sábado, 12 de setembro de 2015

Enterro

Que diferença vai fazer
quando eu morrer?
Deixarei filhos, netos,
livros?
Eu morta serei bela,
feia, velha?
Alguém vai anotar
que horas são,
se eu me jogar?
Vai ser tarde,
vai ser triste,
vai dar tempo?

O Ronco e a Culpa

Quando eu era pequena dormia num quarto com minhas duas irmãs. Teve um dia que uma delas roncava tão alto que eu achava que era mentira. Achava que ela estava fazendo barulho só pra sacanear, como eu mesma fazia de vez em quando. Desde pequena gostava de atuar. Às vezes minha atuação era roncar pra sacanear as minhas irmãs. Nessa noite uma das minhas irmãs dormia em sono profundo e roncava. Eu disse: "para já com esse ronco se não eu vou contar pra mamãe!" Ela continuou de biquinho aberto, roncando. Na segunda vez eu dei um berro tão alto de "para!" que acordou meu pai. Meu furioso pai que detesta ser acordado com barulho. Ele entrou no quarto espumando, quando eu disse: "Foi ela que começou! Ela tava fazendo barulho de propósito!" A pobrezinha da minha irmã acordou num susto por causa da luz acesa e gritou: "Desculpa! Desculpa!" E meu pai foi embora dormir. Assim que ele saiu do nosso quarto ouvi minha irmã virar na cama sonâmbula e começar a roncar tudo de novo.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Como explicar?

Tenho um órgão dentro de mim que pulsa tão forte que estufa meu peito. Quando eu estou deitada, posso ver o meu peito subir e descer por causa dele. Esse órgão é, estranhamente, o que faz tudo funcionar em mim: da fala ao pulo. Não faz muito sentido, como explicar? Eu mesma posso fazê-lo parar a qualquer momento se eu quiser. Acontece que, estranhamente, o meu objetivo é lutar o tempo todo para que ele não pare nunca.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

A essência de outro homem

Como explicar a um homem sobre a essência de outro homem?
Os homens são todos iguais
na estrutura, no esqueleto e na maioria dos medos
(de viver, de morrer, da solidão).
Há, entretanto, coisas que diferem os homens de forma absolutamente misteriosa.
Há homens que gostam de contar, de mandar, de poder, de inventar.
E há os homens que flutuam.
Como explicar a um homem que gosta de mandar
sobre os homens que flutuam?

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

O homem e o amor

Quando foi que
O homem percebeu o amor?
Foi sentado, indo embora, a dormir?
Foi distraído, foi bonito, foi algo?
Como foi?
Muito me pergunto
se foi olhando a janela, se foi a passear.
O amor explodiu no peito? 
O peito doeu?
Foi de dia? Foi no verão?
De madrugada, talvez, com um pincel e uma tela.
Ou ao som de um instrumento,
talvez só o coração, a pulsação e o vento.
Quando foi que o homem pensou:
"é isso."?
Esse homem - ou talvez mulher - 
chegou a duvidar que era isso?
E se foi uma criança? Como é que ela percebeu?
Ela estava brincando, correndo, parada?
Ela estava com o pai, um amigo, um irmão?
Quando foi, meu deus, que isso aconteceu?
Muito mais me pergunto:
quando foi que o amor percebeu o homem?
Ele já percebeu?

domingo, 16 de agosto de 2015

Briga

Hoje quando você não veio dormir
meu peito estufou cheio de suspiros.
Esperei ouvir, nos seus barulhos,
o som de você subindo as escadas.
Esperei, esperei, esperei.
Só ouvi um cuspe na pia,
como se cuspisse algo de dentro,
algo contra mim,
algo que talvez fosse eu inteira.
E depois você fechou a porta.
E depois, eu fechei a porta,
fechei os meus olhos, fechei o meu peito,
fechei-me inteira.

Não

Não vomite. Não é seguro vomitar. Não se estresse, não se desencante, não fuja, não se sinta perdido, não não não. Não seja assim tão cruel com seu corpo, não emagreça, não se deixe engordar, não coma isso. Não tome tantos remédios, não acredite em mentiras. Acredite em Deus, reze, tenha fé. Não não não, não perceba que quase tudo é mentira e nada vale mesmo a pena. Não se sacrifique, não perca tempo. O tempo é escasso, é rápido, é quase nada. Não fique sozinho. Fique com Deus. Deus te acompanhe, Deus te ouça. Não tenha medo, não seja destemido demais. Peça perdão, dê o outro lado a tapa, ajoelhe diante de uma cruz. Não sofra, não chore, não se sinta abandonado, não queira ir embora daqui. Não grite com os outros, não desrespeite os outros. Quem são os outros? Talvez os outros sejam Deus. Não pergunte.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Tico

Durante um mês e alguns dias você viveu conosco. Teve gente que passou dias mais felizes enquanto você esteve por aqui. Conheço um cara que queria agradecer a sua doce existência por ter feito a dele própria mais doce. Sei que você teve dias difíceis, eu mesma presenciei um. Você estava ferido e mesmo assim não deixava de se aproximar daquele cara, dava a mão pra ele todo feliz. Eu vi. Sua despedida foi muito repentina e levou um pouquinho de nós todos. Se fossemos da sua espécie, poderíamos dizer que algumas penas caíram quando você fechou os seus olhinhos para nós.

Eu já fui

Quando digo que preciso ir embora,
não quero dizer que não,
quero dizer que preciso ir embora.

Já não posso mais ficar:
algo aconteceu dentro de mim
e eu já fui.

Nas minhas malas magras,
eu me trouxe pra cá.
Te falo do futuro:
aqui, da minha viagem ao mundo.

E que mundo é esse, meu Deus?
E que viagem é essa em busca do seu mundo?
Te falo aqui do presente:
- Vá procurar saber.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

A vida certa

Eu sei que eu já dei de cara com a proposta da minha vida. A proposta para me fazer completa, me elevar o espírito, me deixar em paz com o mundo já veio. Sim, ela me chamou mas eu não percebi e saí andando. Acho que foi isso que me aconteceu. Hoje eu vivo uma vida paralela à que eu deveria viver. Vivo uma vida que, se eu tivesse feito a escolha certa, eu nem pensaria que poderia haver outra opção. Por isso penso que nada que eu possa fazer pode ser errado. Minha vida já é a errada, já não era para ser essa. A vida certa teria poesia, música e teatro. Teria horas para criar, para gastar. A vida certa teria gente na hora certa - e na hora errada só teria eu, porque sou de aquário e preciso ficar só de vez em quando. Na vida certa eu poderia escrever o que eu quero no meu expediente, porque o meu expediente seria meu - e não de uma empresa. Se eu vivesse essa vida acho que seria mais paciente. Seria mais calma, não roeria unhas. Eu poderia ser quem eu sou lá de dentro, não perderia tempo (e nem energia) com o que eu não gosto, com o que eu não sou. Não perderia tempo com tanto cansaço. Porque cansaço não é coisa de gente jovem e cheia de vontade como eu. Eu tenho dor nas costas, eu tenho dor na alma. Na vida certa não existe dor na alma.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Não ia dar certo

Eu tive um namorado autista. Ele mal falava comigo, ou pior: mal me abraçava. Eu gostava dele porque algo naquele mundo particular que ele vivia me fascinava. Era um mundo onde só a arte o atingia. Eu tentava, eu juro que tentava, mas só a arte conseguia. Kubrick, Machado de Assis, Radiohead. Com esse pessoal ele se comunicava bem. Eu assistia tudo morrendo de inveja. Ele vivia me doutrinando, dizendo o que eu devia escutar, ler, onde poderia ver arte de verdade. Eu jamais questionava, ele sabia bem do que tava falando. Mas não ia dar certo. Ele era muito calado comigo, justo eu que preciso tanto do peito do outro. Além do mais, eu tenho um segredo que ele nunca desconfiou. Eu sou como ele: só a arte me atinge, só a arte consegue se comunicar comigo de fato. Mas eu sou bem diferente dele: consigo fingir bem. Ninguém percebe que eu também sou autista. E fico pensando que a gente pode sempre trocar o "u" por "r", e fica tudo bem, a sociedade até aceita quem se diz artista.

Escrava

Tenho um armário cheio de coisas.
A dona da casa onde eu moro disse que são coisas demais.
- Algum dia você vai se livrar de tudo isso, ela disse.

Que coisas são essas?
Camisetas e vestidos feitos provavelmente
por uma costureira que trabalhou como escrava.

Comprei para me sentir melhor.
Mas é claro, é lógico, não adiantou nada.
E a escrava trabalhou, trabalhou, trabalhou.

Esse meu armário cheio de coisas iguais de cores diferentes
nunca me fez sentir bem com nada.
Ele parece eu, escrava de qualquer sistema.





terça-feira, 30 de junho de 2015

Ou minhocas de um vaso nosso

Vamos supor então que a alma é tipo um espírito que sobrevoa nosso corpo. É assim que eu a imagino. Então, se você me permitir, eu gostaria de propor um outro motivo para a alma. A alma é como a água. Há sei lá quantos bilhões de anos é a mesma água que banhou Napoleão e Aristóteles e Shakespeare e você e eu. A alma pode ser assim. Posso pertencer a mesma alma que um dia pertenceu a um escravo ou a um poeta. E nós esbarramos com almas que já foram nossas melhores amigas ou minhocas de um vaso nosso. E por isso às vezes pensamos em algumas pessoas e as almas as chamam para perto de nós e nós coincidentemente as encontramos. Sei lá. Quem foi que inventou essa história de almas? Isso nem deve existir de fato. Quem é que pode provar?

Pale Blue Dot

Tendo em vista que o tempo que passou até agora não foi absolutamente nada, e que a gente acabou de chegar num processo que dura tanto tempo que somos até mesmo incapazes de contar - e de entender e de perceber e de se espantar. Tendo isso em vista, por que conseguimos ser tão mesquinhos?
Infelizes,
Porcalhões,
Maldosos,
Assassinos,
Audaciosos,
Arrogantes,
Hipócritas,
Mentirosos,
Egocêntricos,
Egoístas,
Fundamentalistas,
Sozinhos, sozinhos,
Sozinhos, completamente sozinhos?

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Presa na garganta

Era uma vez uma história entalada em uma garganta. Uma história que não saia da garganta e fazia os olhos lagrimejarem e os dedos atrofiarem e o peito apertar. Uma história que doía como um filho de 12 meses preso no ventre pesado de uma velha mãe. Essa história nunca saiu da garganta. Dias e meses se passavam e ela mais se afixava nos ossos do meio da garganta. Parecia uma alga marinha, dessas verdes que se prendem no vidro do aquário. E aquário é o meu signo, mas mesmo se fosse câncer eu acho que essa história não sairia da garganta. Até porque não é pela garganta que ela há de sair. Talvez pelos dedos, talvez por um palco bem grande, talvez no ralo de um chuveiro, talvez numa linha telefônica enrolada num pescoço. Talvez em lugar nenhum. Talvez essa história seja uma poesia - que talvez já tenha sido escrita bem antes.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Janela

O cimento da parede da nossa casa separa o nosso corpo.
Seu corpo de cimento, o meu de parede - e a casa vazia.
A casa faz eco no meu peito de pedra.
A casa faz eco no seu peito sem nada.
Eu na sala, ele no quarto e a casa sem ninguém.
- Onde estão os moradores desta casa? - pergunta alguém.
- Não estão aqui. - respondem as paredes.
É que as paredes nem sabem mais dos moradores:
paredes, passos, camas, nada, ninguém.
Uma coisa na casa faz barulho,
uma coisa na casa parece ter vida:
a janela aberta cheia de vento.


Tem sim

O pouco que me restou foi isso:
rimar sim com fim.
Tem coisa mais clichê,
mais vazia,
mais infantil que rimar sim, mim, fim?
Tem, tem sim.
Não rimar nada e deixar a vida passar.


sexta-feira, 15 de maio de 2015

Auto-censura

Dentro de mim cabe tanta coisa, tanta gente, tanto desejo.
Dentro dessa casca aqui que alguém fez.
Ou será que não, ou será que ninguém fez?

Tenho dores nas costas,
rinites fortes,
fortes preguiças de dar bom dia.

Gosto de ser amada,
mais do que amar.
Mas isso não sou eu que digo,
é o meu psicanalista.

Tenho medo de viver,
mais do que de morrer
- e isso me derruba às vezes,
mas eu seguro firme.



Escrivaninha

Estou sentada na sua cadeira.
Eu me sento como se fosse você,
digito no computador do seu jeito
e ignoro completamente o resto do quarto
- como você faz quando senta nessa cadeira.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Ida

Assisti um filme que acho que você vai gostar. Apesar de ser em preto e branco, e ser polonês, e ser bem devagar e silencioso, e também ser cheio de enquadramentos diferentes, apesar disso ele é cheio de referências lineares hollywoodianas. Por exemplo: a história começa de um jeito, até que de repente um problema é apresentado. Então, a protagonista parte numa aventura (como em "O Mágico de Oz") para encontrar respostas, conhecer a si mesma e aprender um monte de lições. A protagonista então vive um ápice, (ou de alegria ou de tristeza. Neste caso, acho que foi uma alegria aquele rapaz moreno de cabelos curtos, saxofonista em uma banda de jazz.) e tem que tomar uma decisão. A tomada de decisão não é fácil e acompanha um rompimento. Mas existe uma pessoa que vai acompanhar essa jornada e ajudá-la por algum motivo. Foi assim também em "A Vida Secreta de Walter Mitty", que tanto agradou todo mundo - inclusive nós dois. Neste filme - Ida - tudo isso é feito de um jeito lindo, poético, doce. A protagonista parece um lindo retrato antigo. Os silêncios deste filme são mais importantes que qualquer palavra. E os silêncios aqui acabam vencendo por fim. Além disso tudo, esse filme ainda me apresentou muito bem apresentado a John Coltrane - e jazz não é um estilo de música que agrada todo mundo. Fico tão feliz que agrade você também. Acho que terei que assistir esse filme de novo com você. Tudo bem, com você eu assisto.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Para minha irmã

Eu te apoio porque em parte eu queria estar no seu lugar.
Viver um amor tão bom longe de casa,
longe do ninho, perto de você mesma. 
Longe é bom pra se conhecer.
Longe é bom para ver tudo de longe e dizer: "quero estar aqui."
E aqui pode ser lá - ou aqui. 

Essa casa

Eu e você
quanto tempo
há quanto tempo que somos
eu e você?

Nossa casa
toda nossa
há quanto tempo que é nossa
essa casa?

Não faz tanto tempo,
parece que foi ontem
- e quase foi 
pra quem ainda tem uma vida toda.



Mente mente

Eu tenho dúvidas se eu me conheço de verdade, se eu sou eu mesma. Quero coisas que eu, se pudesse escolher, não quereria. Seria mais em paz comigo mesma, teria outras neuroses. E como é que eu não posso ser como eu queria? Não sou eu mesma que mando em mim? Não sou eu mesma que digo pela mente: "mexam-se braços!" e eles se mexem? Por que não posso dizer pela mente: "seja assim! Goste disso!", por que não? Eu sendo assim, tão não eu - ou como eu gostaria de ser, eu me sinto distante, muito distante.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Derretendo a parafina

Não está fazendo sol hoje. O dia está meio seco e eu não estou ansiosa para ir trabalhar. Gostaria que o meu trabalho fosse esse: observar o céu pra ver se o sol vem. Hoje era esse emprego que eu gostaria de ter. Nem precisaria fazer as unhas porque seria só eu e o céu e ninguém para ver se eu tenho unhas. Eu ficaria criando poemas nos intervalos entre uma nuvem e outra e de repente poderia até ler um ou outro livro. De repente, eu até me daria conta de que o mês de agosto passou tão rápido... mas espera, já estamos na metade de setembro. Se eu continuar distraída assim, daqui a pouco já estamos no próximo ano. Será que prestando mais atenção na vida ela passa mais devagar? Ou talvez tomando remédios desses que trazem juventude? Afinal, nosso único sinal de que o tempo está passando é ver a gente e as pessoas à nossa volta envelhecendo. Não haveria outro modo de comprovar que os anos realmente passam se não fossem os sinais em nós. A gente veria aquela vela grande e gorda derretendo a parafina, a gente veria os nossos bichinhos de estimação morrendo, veria as pessoas mudando de casa, sentiria o cheiro de coisas apodrecendo, veria árvores mudando de cor, mas a gente se acostumaria tanto que nem perceberia que aqueles eram sinais dos anos passando. Aí poderíamos demorar mais anos - muitos anos - para ter filhos, para casar, para ficar rico, para viajar pelo mundo (e não deixar nenhum país de fora). Poderíamos não tomar decisões todos os dias, às vezes a gente deixava a decisão pro fim do mês. A gente poderia perder eventos imperdíveis porque eles se repetiriam em algum momento da eternidade que seria a vida. A primeira coisa que eu iria fazer era ser feliz. Feliz porque eu teria tempo - toda a eternidade - para correr atrás dos meus sonhos, para rever as minhas escolhas, para comprar um gatinho, para tocar piano, para aprender francês, para morar no Japão. Eu não me sentiria o tempo todo atrasada para o tempo da vida.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

O big bang de hoje

Ela mexia as mãozinhas e sofria, parecia um ursinho bem pequenininho. Chorava. Foi a primeira vez que vi um bebezinho tão pequeno, tão perto de mim. É uma sensação bem diferente, não sei se posso definir a sensação de ver uma vida começando. A minha começou há tanto tempo, já vi tanta coisa acontecer e de repente eu vejo com meus olhos, pela primeira vez, uma vida começando naquele segundinho. Eu tratei logo de segurar as lágrimas, porque ninguém ali chorava e eu era a parente mais distante. É uma daquelas poucas sensações da vida que transformam a gente num instante. Tinha uma mulher ali, um barrigão e muitos meses de espera. De repente tem uma mulher magrinha e uma vidinha que acabou de começar bem na minha frente. Foi emocionante.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Tento

Tento escrever uma poesia
Mas eu não sei o que é uma poesia,
Nem como é que se faz uma.
Eu tento mesmo assim
Porque eu acho que tudo,
Tudo, tudo, tudo nesse mundo
Fica um pouco melhor
Com um pouco de poesia.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Quem escolheu quem

Não sei
se eu escolhi essa vida
ou se essa vida me escolheu.
Não sei
mas em qualquer um dos casos
todo mundo sai perdendo.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Home-less

Desde que vim pra cá passei a ver mais mendigos. No parque, nas ruas. Tem alguns cujo cheiro é quase obsceno. Alguns que tem rituais como preencher o banco de papelão, colocar todos os pertences na ponta do banco e sentar virado de costas para quem passa. Fico criando histórias na minha cabeça: por que aquele crackudo está levando a mãe - ou a avó - para passear numa cadeira de rodas? Será que ele a espancou até que ela não pudesse mais andar, ou será que ele só quer fazê-la bem? Acho que o pior é olhá-los nos olhos - que tipo de trauma passou com você? O que te faltou? Te faltou tudo? Você já foi rico, já foi homem, já foi alguém? E aquele casal de mendigos que eu vi outro dia? Eles se sentavam juntos, esparramados no banco, trocando piolhos e dividindo o cheiro ruim. Quem passava na rua talvez nem via, mas com certeza sentia o cheiro. Uma vez eu voltava para casa no fim de um dia quente demais e dei de cara com um mendigão negro, pegando água do esgoto com um copinho e se banhando. Aquele dia eu chorei.

terça-feira, 31 de março de 2015

questão fundamental do dia

Por que diabos você se lembra o nome científico das árvores?

segunda-feira, 30 de março de 2015

Uma pinta no olho

Encontrei um cara outro dia no parque
ele tinha uma pinta em cima do olho direito
e talvez aquela pinta tenha afetado o ouvido direito
porque ele não conseguia colocar o fone de ouvido 
- só no ouvido esquerdo.

sexta-feira, 20 de março de 2015

rallenta

O psicólogo
o professor
o gastroenteorologista
A mulher
o pai
os irmãos
todos falam para desacelerar
até mesmo a religião: "desacelere"
Como é que se faz isso
ele não sabe - nunca aprendeu -
nem ninguém sabe dizer.

domingo, 15 de março de 2015

de para

De triste foi para tranquilo 
e de tranquilo para morto.
Depois de morto,
o que restou foi só para quem ficou
- mas pouca gente ficou, 
porque as pessoas esquecem
e superam
e fica tudo bem.
De bem vai para normal
e de normal para morto.

Pelo menos

Perdão
perdão
perdão
perder
pedra
pertinho, perdão
perdido
pelado
pescoço
perdão
penso
pensar
pesado
pêlo
pêndulo
pedir perdão

Perdão

[Que coisa mais evoluída essa
de pedir perdão.]
Se de repente os céus me chamassem,
e eu morresse bem agora - antes de você pedir perdão -
você perceberia, então, a falta que faz
para mim, para você, para a paz mundial
só um perdão? 

sexta-feira, 13 de março de 2015

Não sei o que posso fazer por mim. Se houver algo - mas algo que faça sentido - grite e me avise.

Deu até

Você demorou tanto que deu até para eu começar a me sentir só.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Você salvou a minha vida algumas vezes. 
Deixa eu salvar a sua desta vez? É o que eu mais quero.

Turquoise Hexagon Sun

Naquele videoclipe na internet, eu vi claramente o quanto somos forminguinhas audaciosas e prepotentes que achamos que vamos chegar a algum lugar, mas todo mundo quer chegar no mesmo lugar e não há lugar pra todo mundo. Vi também o quanto está tudo o tempo todo em movimento, nada pára nem por um segundo, nem quando dormimos, nem se entrarmos todos em coma. A Terra mexe, e os átomos mexem, e o ar mexe e o nosso organismo mexe e, mesmo se nada disso mexesse, a Terra está flutuando num infinito invisível de uma mini galáxia de um espaço que acho que nem Deus sabe o fim. Entende onde eu quero chegar? Sim? Que bom, então vá tomar o seu banho e ir trabalhar porque sábado e domingo você pode achar que descansa e voltar a fazer tudo de novo na segunda-feira.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Por aqui

Desta vez escrevo para vocês dois que me lêem. Ninguém além de vocês dois me lê então portanto isso que escrevo só pode ser para vocês. Quero contar como é viver por aqui. E pode ser sim que desta vez eu tenha misturado realidade e ficção (normalmente é só ficção). Aqui é assim: tudo é caro, só tem gente bonita no boteco (que nem é assim tão boteco) e podemos andar à pé. Estamos pertinho de tanta coisa! É muito doce pensar que a qualquer hora que eu chegar em casa quem eu quero vai estar aqui. Acho que isso é a maior vantagem desse lado de cá. Gosto também do ar e do silêncio. Eu sempre sou o mais barulhento de todos os sons por aqui. Aqui combina com jazz e combina com chá à tarde. Combina com muita leitura e filmes interessantes. Gosto de receber gente, de barulho na casa. Gosto de ficar sozinha aqui também - gosto mais ainda de ficar acompanhada. Eu gosto de achar as minhas coisas nos lugares onde eu deixei ontem, mas também sinto falta delas guardadinhas com cheiro de mãe.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Cartão

Quando chegou o dia do meu aniversário e você não me escreveu nenhum cartão eu me questionei se você me conhecia de verdade. A falta das suas palavras me deixou muito triste.

Uma parte do cérebro pensa nisso também

A rotina, o dia a dia, o cotidiano, o costumeiro, o de sempre, o comum, o diário. O aqui e agora, o neste instante, o momento, o hoje. Quem sou eu - a descoberta do eu - o que eu quero ser, por que estou aqui, o que estou fazendo aqui? Ser onde, estar o quê, fazer como? Amar, cair, ficar, pertencer, não pertencer. Estar e não estar. Pode estar e não estar? É preciso ser alguma coisa? Estar se tornando, voltar a ser, nunca se tornar. O passado não existe, não existe futuro também - só existe o exatamente agora. O tempo está passando para todo mundo igualmente, mas para alguns não dói.

Not interesting

Escrever faz parte da minha salvação - do meu mundo secreto, da minha vida paralela. Sou tipo uma agente dupla que trabalha para servir de espiã do mundo para mim mesma. Eu vivo para observar e escrever sobre o que eu observo. Só preciso achar um pseudônimo, um alterego, porque escrever sobre mim mesma não interessa a ninguém.

O cão da raça Boxer

Eu me lembrei de repente de um ano novo bem antigo na nossa casa de campo. Eu era bem pequena, mas já passava dos dez anos de idade. Lembro de caminharmos pelas ruas dos quarteirões vizinhos, eu e a minha irmã do meio, e talvez a família toda. Lembro que no meio do caminho um cão da raça Boxer de cor marrom clara começou a andar com a gente. Aí alguém como o Miguel talvez disse que aquela raça de cão era super boazinha e adorava pessoas e carinho. Nós adotamos o Boxer marrom e deixamos que ele nos seguisse até nossa casa. O ano novo foi se aproximando e ele ficou lá: fizemos a ceia, papai acendeu um rojão com o Miguel, mamãe ficou cuidando da cozinha com a Glades. A impressão era de uma casa cheia, animada. Lembro da figura do meu pai dando gargalhadas com o Miguel e uma cervejinha na mão. Eu fui obrigada a ficar com o filho mais novo do Miguel porque ele era exatamente da mesma idade que eu (e eu sempre pensava: "e daí?"), ele era um pouco devagar e nós nunca ficamos amigos. Então nós todos assistimos o especial da Globo e festejamos tomando coca-cola e esperando a hora de ir dormir, que nessas ocasiões era super tarde. De tempos em tempos eu ia até o cão da raça Boxer ver se ele queria mais pão, mais água ou mais carinho. Eu tinha uma esperança enorme de que o papai ou a mamãe iriam aceitar ficar com ele pra sempre. Ele ficou lá o tempo todo, até mesmo depois dos fogos. Acontece que no dia seguinte eu acordei e fui correndo lá fora, perto do pratinho de comida dele, e ele não estava mais lá.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

A (falta de) função da complexidade

Que deus é esse que criou um homem tão complexo? Que colocou no homem a saudade, a baixa auto-estima, a insegurança, o complexo de inferioridade, a indecisão, a vontade de ir quando tem que ficar, a vontade de sair voando, a coragem de coisas absolutamente insensatas, o tesão por maluquices, as taras, as imundícies, a vontade de morrer? Não faz o menor sentido sermos assim tão complexos. Tudo no nosso corpo foi absolutamente calculado e tudo funciona em função de nos manter funcionando. E isso significa que deve haver alguma função em nos fazer tão complexos.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Adeus

Você sabe reconhecer um adeus? Quando ele acontece, você sabe que ele está acontecendo? Você se dá conta que é ele? Eu acho que eu sim. Eu sinto ele soprar no meu pescoço o seu bafo insuportável. Me dá um pouco de melancolia sentir minha mão escorrendo no ar depois do adeus disfarçado de tchau. Espero que você perceba os adeus que lhe chegam. Quando a gente percebe a saudade fica menos pesada.

sábado, 24 de janeiro de 2015

O deus agora

Você disse para eu confiar no agora.
O agora, saiba,
foi naquele instante, naquele agora,
a minha religião.

sábado, 13 de dezembro de 2014

A sua casa

Essa é a sua casa e eu sou uma visitante. Vim visitá-lo para dizer que esse momento vai ficar registrado desse jeito: foi assim que nós não começamos uma vida juntos.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Espero que você leia depois do natal

1. Esse porquinho é a sua alforria. Quando comprei o porco, além de achá-lo cheio de significados, de sentimentalismo, de delicadeza e de graça, achei-o como um vale-o-seu-gosto. Por que vale o seu gosto? Porque ele custou caro, bem caro e, por ele ter custado caro, ele exige a sua felicidade. Isto é: se ele não te agradou, vá até a loja e seja feliz escolhendo qualquer item maravilhoso com aquele valor. Seja feliz porque me foi caro: goste dele, ache-o tão espontâneo e original quanto eu achei ou troque por alguma coisa linda que te agrade e te deixe muito feliz. Porque eu só quero que você seja feliz. A Monja Cohen inclusive diz que amar é querer que o outro seja feliz, com ou sem a gente. Eu quero que você seja feliz, meu amor, com ou sem o porquinho (mas de preferência comigo).

2. Por que diabos um porquinho teria tantos significados? Porque um porquinho foi o meu primeiro amor. Inclusive já dediquei um texto à ele, chama-se "Meu Primeiro Amor" é de 30/01/09:
Eu tinha um ursinho de pelúcia que era um porco. Eu devia ter uns 9, 10 anos. Ele era bem rosinha, vestia um suspensório marrom-escuro e uma camisa social branca de bolinhas pretas. Era pequeno e magrinho, o porquinho. As pernas e os bracinhos eram fininhos e o corpo bem cheinho. Tinha uma carinha simpática. Eu dormia abraçada nele, acordava e o levava para aonde eu fosse. Ele me dava paz, me protegia. Uma vez fui com a minha família para uma dessas viagens, devia ser a Disney, e eu levei meu companheiro porquinho. Ele não tinha nome, porque eu nunca precisava chamá-lo: ele não me abandonava. Fomos juntos em todos os brinquedos do parque, e na hora de voltar para São Paulo, eu o esqueci no banheiro do aeroporto. Ele me abandonou. Senti falta de tê-lo dado um nome, porque eu não pude chamá-lo. Me desesperei tanto, que pensei que minha vida não tinha mais sentido. Eu não queria voltar para casa, porque eu esperava que ele fosse voltar para mim. Mas ele não voltou. Ele nunca foi encontrado (ou se foi, foi por outra garotinha) e eu tive que voltar. Demorei muito tempo para superar a perda do porquinho de suspensório. Meu pai me deu outros bichos para tentar amenizar, tipo um tatuzinho cinza que usava lenço vermelho, mas nada substituiu o meu porquinho. Domingo eu faço aniversário. Completo 22 anos. E eu queria que o meu porquinho estivesse aqui para comemorar o meu aniversário comigo.
3. Eu acho que encontrei em você o meu porquinho de suspensórios.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Abra os olhos

Boa noite.
Fecha os seus olhos, amor.
Por que deixá-los abertos,
por que me olhar assim?
Meu amor, não se preocupe,
enquanto os seus olhos não abrem
os meus estão abertos por nós dois.
Eu observo o trem que passa,
o tempo que passa, o minuto que passa,
a vida passando.
Continua sem abrir os olhos,
eu observo por nós dois:
vejo o casal que passa,
vejo como eu poderia estar passando,
eu vejo muitas coisas - coisas demais
(e todas elas estão passando).

Caminho alterntivo

Algumas vezes o papai decidia que queria ir pelo caminho alternativo. A gente então entrava numa estradinha secundária de terra - um mundo mágico de pinheiros gigantes com um espaçamento perfeito entre cada pinheiro. Eu ficava observando pela janela e imaginando a quantidade de filmes que dava pra fazer naquela estradinha secundária. Eu sempre torcia para pegarmos aquele caminho.

Fotos

Não tenho apego a fotos antigas, quero abrir espaço na gaveta para as novas. Na verdade quero abrir um rombo na minha vida para uma vida nova.

domingo, 7 de dezembro de 2014

Virada (a la Arnaldo Antunes)

O bebê vira homem. A larva vira borboleta. A semente vira árvore. A cápsula vira café. O pó vira suco. A página vira livro. O livro vira biblioteca. O filho vira pai. A mãe vira avó. A tela vira quadro. A nota vira música. O milho vira pipoca. O pixel vira filme. O beijo vira sexo. O choro vira riso. A noite vira dia. O minuto vira hora. O hoje vira ontem. A palavra vira livro. A gota vira mar. A dor vira cócegas. Tudo nessa vida vira outra coisa e eu ando pensando se não é minha hora de já ter virado alguma coisa. 

continentes

Mesmo que estejamos no mesmo barco, que sejamos do mesmo time, que desejamos as mesmas coisas, mesmo assim eu ainda acho que estamos em barcos diferentes, em outros continentes.

Solidão

O que tem na solidão que é tão bom? Você disse que quer ir sozinho, pode ser melhor para mim também descobrir o que há na solidão que é tão bom. Só tenho receito de ir descobrindo aos poucos e ir amando e não querer mais juntar-me a ninguém.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

O que você vai fazer agora não vai ser mais importante - importante foi quando você não fez o que era importante.

um mais um e eles dois

E lá estavam eles, no meio da festa, trocando poemas.
Ela não lembrava de cor os seus próprios, então teve que ler uma cola.
Ele ficou bravo, até ofendido: "você tem que saber seus próprios poemas de cor!"
Então ele receitou no ouvido dela um poema da matemática da vida.
Muito bem feito.
E ela se calou.

Tem
po
tem-po tem-po tem-po
pode, tempo
sobrar tempo
em tempos
de pó?

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Cedo

Ainda é cedo, eu sei. Meu Deus como é cedo, é cedo demais. Tão cedo o sol nem raiou, ainda é noite, veja, é cedo demais. Eu sei, meu bem, eu sei que é cedo, mas eu também tenho um problema com o tempo - eu acho que estamos perdendo tempo. Acho que o cedo vai embora antes que você consiga abrir os olhos da piscada anterior. É cedo demais para fazer as coisas que estamos adiando, só para elas é cedo demais.  

Não sei

O meu desejo é por novidade - quero encher o cérebro de coisas novas. Quando eu morrer terei mais coisas para ver antes que me levem para a outra camada. E não só por isso, é pela magia que as coisas novas tem. Imagine você que outro dia conheci Cartola. Um amigo meu de longuíssima data me mostrou. Ele sabia que eu ia me emocionar. Ele entende o quanto o mundo guarda essas pessoas cheias de arte - e é a arte que salva nossas vidas todos os dias. Mais uma vez esse meu amigo me faz ficar acordada pra escrever. Dormir pouco é a minha solução - talvez até eu um dia escreva um livro aqui na madrugada, nessa mesma madrugada que se prolonga para a eternidade a partir do momento que está escrita aqui. Eu não sei se conseguirei ser feliz um dia sem um pouquinho de arte. Será que na minha vida futura, na minha vida que se aproxima eu vou ter arte todos os dias? É a mágica, não sei viver sem ela.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Três cores

Ultimamente tenho pensado em me desculpar
por ser sempre tão eu - esse rascunho de algo bom.
Você sabe como são rascunhos, 
ainda mais quando são feitos à lápis
e com tanta gente com borracha nas mãos.
Queria te dar uma única borracha, 
para que só você pudesse me apagar de vez em quando.
Entendo tão bem quando você reclama,
mas eu não consigo me consertar.
Fico pensando se esse meu rascunho vai poder lhe servir
talvez para a vida toda,
ou se ainda preciso mesmo ser passada a limpo.
Porque eu não sei se vai existir ainda uma versão melhor de mim
ou se serei sempre esse rascunho de três cores. 

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Oito para as onze

Dez para as onze. Na minha mesa: uma crítica ao filme que eu não quero ver, mas que eu me arrependi de ter desprezado na sua cara. Eu devia ter desprezado só internamente. Tem também um tubo de hidratante que já estava no fim, mas ainda tinha um pouco então eu cortei o tubo e descobri que ainda tinha muito. Ouço uma música de violão - achei que eu tinha enjoado de músicas de violão, mas não: elas é que tinham enjoado de mim. Oito para as onze, melhor eu começar a fazer alguma coisa útil. Vou desenhar um gatinho com as minhas canetas coloridas. Queria ter nascido com uma voz boa para cantar, músicas são bem mais vendáveis do que textos ou desenhos de gatinhos.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

我爱你

Ele me escreveu em chinês como se fosse para esconder de alguém. Mas esconder de quem? Traduzi. Entendi por que ele escreveu em chinês. Era preciso esconder do universo. Ele, comprometido até o fundo da alma, escreveu em chinês que me amava. Ele disse: "me diga sim - pode até ser em chinês - e eu me caso com você agora". Eu não disse nada e nunca mais nos vimos. 

Ressaca

Quando amanhecer,
e talvez ventar,
e talvez chover,
o que é dor vai doer,
o que é triste, entristecer.
Mas o que fazer
se o adeus só vai arder
quando o dia amanhecer?

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Fale com ela

Eu fui embora tão vazia, que tenho certeza não levei todo o meu ser comigo. Parte de mim ficou fincada na sua cama. Parte de mim continuou sentada do seu lado, pedindo que você parasse de olhar a TV e olhasse pra mim. Eu estou aqui: me veja, me ouça, fale comigo. A parte de mim que foi embora comigo mal soube o caminho de casa. Que casa, meu Deus, que casa?

Quando o amor partiu

O amor saiu de fininho, numa noite bem tranquila. Ele deixou tudo para trás para não fazer barulho e foi embora pela porta lateral da cozinha. Ninguém percebeu: nem a empregada, nem o cão, nem a própria noite. O amor pegou a estrada vestindo um peito transparente. E ao chegar no meio do caminho passou a doer - e doeu, doeu, doeu. Mas o que fazer? Voltar, seguir? O amor, já no meio da estrada, indeciso, doendo, cansado, resolveu: vou voltar. Acontece que o destino, tantas vezes inimigo do amor, preparou uma surpresa: antes mesmo de dar meia-volta o amor foi atropelado por um caminhão e morreu (sem poder voltar).

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Relacionamento

Enchi o tanque de gasolina, agradeci e segui para o trabalho. No terceiro semáforo eu olhei para o carinha que entrega panfletos e me dei conta que o meu lugar não é aqui. Que o mundo está acabando - pode ser que não tão já - mas eu preciso otimizar o meu tempo. Eu comecei a ver as coisas desmoronando como uma cena de filme de apocalipse. Eu desmoronei junto - tão insignificante que sou. Talvez, muito talvez, se eu fizesse alguma coisa que me desse algum sentido eu não desmoronasse com o mundo. Mas para isso eu precisaria terminar meu relacionamento com a vida e começar outro, com outra vida. O problema é que essa vida não quer terminar o relacionamento comigo e eu não tenho forças para dizer adeus. O semáforo abriu e eu preciso ir trabalhar.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Rasgue todas as cartas anteriores, é essa que vale:

Não sei mais, Oscar. Acho que você me deixou muito sozinha todo esse tempo e agora eu também não quero mais a sua companhia. Fiquei esperando uma notícia sua e conforme ela não chegava eu fui murchando, murchando e agora acho que eu não consigo mais ver a mágica. Ela sumiu. Eu sei que a culpa não é sua, mas eu nunca encontrei ninguém para me falar da mágica além de você. Eu suspeito que você encontrou alguém para levar para a outra camada da Terra, já que eu sempre insisti em ficar. É, acho que a culpa foi minha. Não precisa rasgar nada, só me deixe aqui que eu sei me adaptar como ninguém. Ana.  

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Caroço

O laudo médico não identificou, mas existe um caroço instalado no meu peito. Eu sei que ele está lá, porque o que sinto agora não é um sentimento, é um caroço.

O que você quer?

O que eu quero não deve estar em você, deve estar em mim. Não é uma resposta fácil, nem sei se consigo responder. O que eu quero é saber se estou no lugar certo. Achei que de repente você pudesse me ajudar a descobrir, já que você me fez pensar em tanta coisa. Você me disse coisas que eu gravei no bloco de notas e sempre que me dá branco da vida eu leio. O que eu quero é sentir alguma coisa. O que eu quero é aprender, é ouvir, é descobrir. Eu não sei o que eu quero. Eu quero sumir, mas não quero sumir sozinha e talvez nem queira sumir muito, só um pouquinho. O que eu quero? Não quero nada, desculpe incomodar.

domingo, 5 de outubro de 2014

Quinze minutos

Não troquei a roupa de cama, não estudei meu texto, não limpei a gaiola, não dormi 12 horas, não conversei com você, não terminei meu livro, não escrevi nada que preste, não assisti nada que preste, não fiz nada que queria e agora faltam quinze minutos para ser segunda-feira de novo.

Já saímos

Você pede vinho tinto
torradinhas
pede para baixar o ar condicionado
bis pro jazz
pede licença pra ir ao banheiro
volta, senta, dá um gole no vinho.
Qual o nome do garçom, vamos trocar de mesa?
Trocamos
Agora sim, dá pra ver melhor a banda
o cello, o piano, a mulher cantando
Você pede uma água gelada
mais gelo, mais pão
pula a entrada, pula assunto de trabalho
pula esse assunto também
"Passa logo eleição,
não aguento mais pesquisas"
Acho que vou pular a sobremesa
Café, palitos de dente
guardanapos com marcas de batom
Eu olho a mesa vazia:
nós já saímos.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Livro de flores

Toda sexta-feira (ou quase toda) era dia de brinquedo. Na verdade, acho que só uma sexta-feira por mês. É, devia ser uma por mês porque eu lembro de ser um dia especial, devia ser raro. Naquela vez eu tinha ganhado um livro do meu pai sobre flores, um livro duro com ilustrações em papel transparente mostrando as pétalas, as sementes, os bichinhos que ficam em flores. Eu tinha adorado o livro, mas eu gostava mesmo era de brincar de boneca. Fui pegar as bonecas na prateleira para levar para o dia do brinquedo quando o meu pai perguntou: "vai levar o seu livrinho novo?". Eu não ia levar, ia pegar minhas bonecas cor de rosa, mas algo me fez ficar com não sei que tipo de sentimento: pena, gratidão, carinho. Levei o livro. Ele sorriu, mas eu tenho certeza que nem se deu conta a importância daquele meu gesto. Cheguei na escola um pouco nervosa, as aulas foram todas meio difíceis, mas eu sobrevivi até a hora do recreio. E então, na hora do recreio, eu mergulhei em profunda tristeza: as meninas se juntaram todas numa rodinha com as suas bonecas e brincaram. Eu fiquei do outro lado, sentada na escada com meu livro de flores, só olhando.

Coraçõezinhos

Sempre penso naquele dia que a D foi a rainha soberana entre os colegas. Ela mandava e todos tinham que fazer o que quer que fosse, embora a ordem fosse basicamente para ficar bem ou mal com alguma pessoa. Era um código secreto que nós crianças fazíamos sem que nossos professores percebessem. Nesse dia a ordem era para ficar mal comigo, todo mundo obedeceu. Todo mundo menos o Arthur que, distraído como sempre, nem percebeu o que estava acontecendo. Ele sentou do meu lado e aceitou brincar de desenhar comigo. Eu lembro direitinho do desenho no papel: coraçõezinhos de ponta cabeça. Ele ficou tão vermelho quando reparou no papel que eu acho que ele - tão pequenininho - interpretou qualquer coisa no meu desenho.

D.

Muitas das minhas lembranças da infância levam D comigo. Acho tão doce esse pensamento de que quando eu era pequena brincava tanto de boneca, de faz de conta, de pequenas pessoinhas do tamanho de um grão de arroz. Mas o mais doce é pensar que o meu jeito de brincar era igual o jeito que D brincava. E a gente mais ria que brincava. A gente ria de absolutamente tudo. Lembro de nós duas descobrindo a adolescência juntas. Ficávamos espantadas com meninos olhando nossas saias. "Mas que diabos tem de tão legal nessa sainha de praia?". A gente era maior que tudo isso. Maiores que qualquer coisa. Porque a gente tinha aquela cumplicidade de quem brincava de Barbie juntas. Um dia eu tive uma despedida importante na minha vida e ela estava do meu lado. Ela chorou comigo. Mas acho que aquele dia foi nossa despedida também, nunca mais eu vi D.

Tento não

Tento não pensar muito nas coisas, nos tempos.
Tento não raciocinar, igual àquelas pessoas que frequentam igrejas, cegas.
Tento não me aproximar demais de certas pessoas, dessas que arrepiam
os nossos pelos da pele
Tento, tento, tento
E de tanto tentar
continuo tentando.



terça-feira, 23 de setembro de 2014

Beliscão

Eu tinha cinco anos. Era pequena, barriguda e modéstia parte, tinha cabelos lindos. Adorava brincar com massinha de modelar - me sentia uma artista plástica quando me davam massinha. Adorava também a caixinha de sapato com itens de higiene ou a "caixinha de higiene", como chamavam lá na escola. Dentro dela a gente guardava 1 escova de dente, 1 pasta, 1 toalhinha, 1 sabonete e 1 pente ou escova de cabelo. Eu gostava de colocar o casaco verde do uniforme pendurado em um dos ganchinhos na parede lateral da sala. 
Nesse dia específico eu estava voltando do banheiro a caminho da sala de aula, quando uma aluna bem menor do que eu se aproximou. Era loirinha, tinha cara de atrevida e devia ter uns 3 ou 4 anos. Bem, esse projeto de gente se aproximou de mim e ficou me olhando curiosa. De repente, me deu um beliscão no braço. Peste danada! Eu lembro de ficar confusa, nervosa (porque doeu!) e de pensar um pouco antes de tomar uma atitude. Então eu fiz exatamente o que me pareceu mais apropriado: dei um beliscão de volta na safada. "Pronto, agora estamos quites" eu pensei. Mas não! A miseravelzinha soltou um berro e começou a chorar escandalosamente. Ai meu Deus, e agora? Veio a professora, a diretora e mais um monte de curiosos. 
- O que houve? - Perguntaram. 
A menorzinha não esperou um minuto sequer e respondeu toda chorosa: 
- Ela me deu um beliscão! 
Ah, que atrevida! 
- Ora, mas ela fez isso em mim primeiro. - Eu logo disse. 
Sabe o que a diretora da escola me respondeu? 
- Mas ela é bem menor que você, você não pode fazer isso! Vai ficar de castigo. 
E esse foi o dia que eu, aos cinco anos de idade, descobri a miserável injustiça que assola os seres humanos desde o começo da vida.   

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Bobagens guardadas no iphone

Desde as tragédias gregas, Roma, Cristo, os homens das cavernas, a época que quiser, desde lá atrás o drama humano sempre foi o mesmo. Concordo com Helio Schwartsman que diz que a moral é historicamente determinada. Então, o pensamento é o seguinte: o homem sempre foi deprimido, homossexual, transsexual, drogado, pervertido, inconstante, mal caráter, frágil, enfim, todas essas coisas que ele é hoje. A diferença é a moral, que depende de cada época. Somos prisioneiros de nosso tempo (essa frase também é do Helio). Se antes era normal escravizar, hoje não é mais. Se antes era um escândalo divorciar, hoje não é mais. Acho que os tempos atuais estão mais caretas em muita coisa - não se pode nem mais ser triste em paz. Existe agora esse insuportável do politicamente correto, fumar virou quase um crime. Claro, lógico que é muito mais fácil listar as coisas que ficaram mais liberais e por isso nem vou perder tempo. Eu só fiquei pensando que oras bolas, já se passou tanto tempo desde o tempo das cavernas, por que é que o homem não evoluiu? Por que não adaptamos as questões morais, as filosofias, as discussões, as leis, as normas que regem o mundo para que a gente se tornasse seres melhores? Por que é que a gente não deixou de ser inseguro, frágil, depressivo, mal caráter, assassino, todas as características ruins, por que diabos elas ainda não foram eliminadas? O homem é tão gênio a ponto de criar uma coisa tão, mas tão revolucionária quanto um Smartphone, mas para as questões tão primárias de comportamento e sentimento não existe genialidade no mundo que possa transformar todos os homens em Dalai Lamas.

domingo, 14 de setembro de 2014

O Ganso

Eu tinha nove anos, talvez menos. O trabalho era de ciências e a gente precisava formar dupla e escrever sobre algum animal. Eu me juntei a uma menina tímida, boazinha, quietinha chamada Fernanda. Por onde anda a Fernanda? Será que já se casou? Será que continua tímida e boazinha? Decidimos escrever sobre o ganso. Fomos espertas, porque a avó da Fernanda tinha um ganso em casa e por isso seria mais fácil desenhá-lo, falar sobre sua alimentação, etc. [Lembrando que naquela época as pesquisas eram feitas nas enormes enciclopédias que pesavam nas estantes das casas.] Fomos até a casa da avó da Fernanda e passamos o dia atrás do ganso. A parte triste é que descobrimos que o ganso é um animal bravo, que está sempre a postos para se defender, por isso não podíamos nem sonhar em chegar perto para sentir suas penas. Eu me lembro do meu desenho com setas indicando onde ficavam as penas, o bico, as patas. Mas me lembro mais ainda de ficar durante muito tempo da minha vida ressentida com os gansos por serem tão bravos.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Conto (quase) infantil

Esse é o caso de uma raposa fêmea e um besouro macho. Dois bichos muito próximos que sempre que podiam ficavam juntos.
- Mas juntos como? - Você poderia perguntar.
Juntos, bem juntos, parecido com a mamãe e o papai quando voltam do supermercado. Eles ficavam rindo ou conversando ou só dizendo coisas sem sentido, juntos. Um dia a raposa, que lembre-se: era fêmea, e o besouro (macho) combinaram de fazer um passeio juntos no dia seguinte. A raposa então passou a se preparar. Nem esperou o dia seguinte e já foi logo escolher a roupa que usaria, o casaquinho que combinaria com a camisa e os sapatinhos de raposa. Preparou tudo e foi dormir. No dia seguinte a raposa ficou ansiosa, como sempre ficava quando o besouro anunciava uma visita. Ela tomou café cheia de bom-humor, fez a ginástica matinal e foi ajeitar os seus bigodes de raposa. Depois, ainda passou uma pitada extra de perfume e deu uma lustrada extra nos seus sapatinhos, só para deixá-los mais bonitos para o besouro. Ela então sentou-se na cadeira e passou a observar o relógio, preocupada.
- Ora, a essas horas o besouro já estaria aqui, esticando as asinhas e mexendo as patas lentamente como fazem os besouros. - Pensou a raposa.  
A raposa não entendia por que o besouro não vinha, mas decidiu tirar os sapatinhos que apertavam tanto as suas patas. Em seguida deicidiu tirar também o casaquinho já que ele era só um detalhe para combinar com a camisa cheia de florzinhas azuis. O tempo passou e a raposa achou que não teria mais importância se de repente seus bigodes não estivessem ajeitados e coçou o focinho com a pata direita. O bigode ficou mais bagunçado do que a hora do recreio na escola. Olha, para falar bem a verdade a raposa acabou se bagunçando toda. Ela enfim esticou as patinhas e deu um cochilo na cadeira. O besouro nunca apareceu. Mas também se tivesse aparecido talvez eu não estaria contando essa história, eu estaria mexendo nas asas do besouro com as minhas patas de raposa.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Minhas pálpebras quase encobrem todo o meu rosto e eu mal enxergo a letra "e" no teclado.

Quem

E me pergunto também se um psicólogo vai me dizer quem sou eu. 
E depois que eu descobrir, o que eu faço com isso? 
"Sê dono do seu barco", ele me diria. 
E quem disse que eu quero ser dona de alguma coisa? 
Eu quero é sair andando.

Se é

Eu vivo em tempos estranhos. De comunicação ao extremo, mas muita muita muita falta de olho no olho. Muita pele e pouco papo. São tempos tristes. Isso, tristes, muito tristes e solitários. Como uma música do Chet Baker, exatamente assim, com aquela voz de tristeza pura. Tempos de querer aparecer, se mostrar, tempos de mostrar felicidade. Tempos de Rivotril, porque a tristeza não é bem-vinda. A tristeza é perigosa na verdade. Ela tem matado pessoas com cintos no pescoço. Pessoas engraçadas, pessoas que eram felizes. Mas hoje quem é feliz? Não sabemos nem direito o que é isso, confundimos com dinheiro. Confundimos com amor, com drogas, com espelho, com televisão. Eu não sei também, não olhem pra mim. Eu tanto não sei que às vezes chego a pensar que é Pink Floyd. Aquela música que ela grita, grita: The great gig in the sky. Eu tenho vontade de gritar como ela. Tenho vontade de me jogar dum penhasco pra ver como é - e depois sair andando. Ser feliz, que coisa imbecil. Ser vivo, ser o que se é, ser. Ser, coisa difícil. Como é que se é?

Interessante

Que diabos você queria dizer quando dizia que as músicas que eu ouvia eram óbvias? Algum deslocamento você me provocou e eu estou com mania dessa palavra: deslocamento. Acho que é o que eu busco na minha vida. Mas sabe, eu aprendi que quando a gente universaliza o que a gente escreve as pessoas acham mais interessante o que temos para escrever, mas eu nunca fui interessante. Eu sei disso. Quando alguém me diz o contrário eu não acredito, acho tão improvável.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Ao meu filho

Filho,

Olá. Escrevo de um tempo muito antigo. Escrevo de 2014, quando eu ainda não tinha você. Escrevo para dizer que estou vivendo o estopim de uma Guerra Mundial. Ou uma Catástrofe Mundial, não sei bem. Quero te contar o que vejo, como é que eu vejo e o que eu sinto. Hoje o Jornal Nacional começou com uma matéria sobre a trégua na Faixa de Gaza. O Rodrigo Alvarez e o Jeremy Portnoy mostraram as pessoas andando no meio das ruínas, as crianças nos parques, as mães nas feiras. Porque em dias de guerra, só se vê tiros e bombas e homens do exército e homens mortos e crianças mortas e hospitais bombardeados. Mas não. Hoje foi um dia atípico, as crianças foram surgindo da fumaça como anjos. Os homens e mulheres sorriam um sorriso medroso. Todos podiam ver o sol e respirar o ar. Essa guerra foi horrorosa, foi triste, foi suja, mas acho que parou desta vez. Sabemos que haverá uma próxima, só espero que não seja muito em breve. A segunda matéria do JN de hoje foi sobre o vírus da Ebola que infectou duas pessoas da Europa e 1600 africanas. É gente à beça morrendo, sofrendo e se contaminando. É claro que só as duas pessoas da europa receberam um tratamento digno. Eu vi uma moça gritando ao repórter que o irmão ou marido dela não era europeu e não tinha dinheiro pra ir se tratar lá fora. "Não é justo!" - ela gritava. E não é mesmo, filho. Nunca vai ser. O Templo de Salomão, que eu espero que hoje seja só uma lembrança do passado, é um exemplo da injustiça tanta que é esse mundo, meu amor. Milhões e milhões de dinheiros que pessoas pobres deram para que se construísse esse exemplo de riqueza e ostentação. Esse templo imenso, frio de pedra. Esse templo triste, esse templo vazio, esse templo de ninguém. O templo que envergonharia Jesus, tão pobrezinho. Envergonharia o nosso São Francisco, envergonha a mim. Pelo menos essa Copa do Mundo, meu filho, foi memorável (acho que sou a última pessoa da minha geração a usar essa palavra: memorável). Foi lindo, foi maravilhoso, foi especial. Eu estava tão cética, com medo de que acabasse a luz, que acabasse a energia, que acabasse o Brasil. Estava pessimista com tudo, desde a infra-estrutura até os jogos. De repente veio a Copa (e que viesse de novo!). A Copa das Copas no Brasil. Buzinas, bandeiras, cervejas, cornetas, festas, gringos e mais gringos, manchetes sobre o Brasil no mundo todo. E as nossas meninas, e as nossas praias e as nossas festas e o Leonardo Dicaprio numa lancha e Jennifer Lopes deslumbrante e tanta coisa legal! Sabe, eu hoje agradeço. Ainda bem que veio a Copa pra alegrar nosso povo! Obrigada David Luis, você alegrou muito o seu povo! Ah, filho, vamos parar essa carta por aqui, porque aí acaba bem. Você acaba sorrindo e lembrando que eu vi de perto o 7X1.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Segunda ou terça-feira

Sempre penso em câncer. Penso em gravidez, em solidão, em catástrofe e em milagre. Penso na loteria, na fama, na decadência e na morte. Eu sempre penso nessas coisas. Passo debaixo de um viaduto e imagino ele caindo sobre mim, passo perto de um hospital e imagino minha mãe carregando o netinho que saiu de mim. Esses pensamentos me mantém em outra camada: a camada do mistério, da possibilidade, da hipótese. Eu fico rindo e chorando de dor. Fico criando histórias que podem ou não acontecer - mas dentro da minha cabeça eu vivo um milhão de vidas ao longo de um dia normal de trabalho.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

1053 bloco A

Naquela sexta-feira eu tinha um casamento. Ou talvez uma festa chique, não sei exatamente. Quis fazer meu cabelo, minhas unhas, maquiagem. Pensei na roupa que eu iria usar, pensei se meus brincos novos combinariam. Fiquei pensando nisso e quando saí do cabeleireiro fui direto pra casa, direto, sem antes passar em lugar nenhum. Sem passar, por exemplo, no hospital. Sem passar em nenhum quarto onde meu pai estaria deitadinho esperando a minha visita. Sem passar pra ouvir como foi a cirurgia, pra ouvir que ele estava bem, que nem sentia dor. No dia seguinte me dei conta de coisas que ninguém precisa falar pra gente: coisas que a gente sente. Eu senti e doeu, doeu lá no fundo. Quis tatuar no meu braço 1053 bloco A. Escrevi de caneta no meu antebraço 1053 bloco A e sai atrás de um dia que já tinha passado, porque aquele já era o dia seguinte.

Tom crítico

Não gosto de ouvir há tantos anos que nós não conversamos direito. Conversamos sim, mas eu acho que você deve talvez não se dar conta. Porque mesmo pessoas experientes e vividas e tão (tão!) inteligentes como você às vezes não se dão conta de coisas assim. Sento ali no cantinho da cama e fico ali, horas. Conto minhas dúvidas, meus medos no trabalho, quando não estou feliz e quando estou. Você já me disse uma vez que conversar sobre livros não é abrir a alma. Engana-se e engana-se tanto. "Mas você achou que ele escreve num tom crítico? Porque, sabe, minha chefe fala muitas coisas num tom crítico e eu me sinto tão mal." Já faz tanto tempo que isso acontece. E alguns dias eu não quero falar sobre nada porque eu ainda estou aprendendo como é que se vive e às vezes eu erro tudo. Nesses dias eu quero ir direto pro quarto, pra cozinha, pro armário. E você vai se esquecendo que eu às vezes fico assim, porque eu sou assim mesmo. E você vai ficando triste, e vai se afastando mais e quando vejo, vários livros novos se acumularam no criado-mudo e eu não sei nada sobre eles, mas eu sempre sempre sempre quero saber tudo sobre eles.

Recolhida

Você tem razão: Etta James é doce. A dream that I can call my own... You smile, you smile, oh and then the spell was casted... Eu não entendi o contexto no qual ela tinha sido evocada, por isso fiquei muda. Agora que entendo, agora que entendi, estou recolhida aqui, acuada. Não sei o que dizer, o que fazer. Sei que algo se transformou dentro de mim, algo que era bom em algo que não sei, mas me parece ruim.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Vigiada

Não soará falso a você se eu passar a escrever pensando em quem irá ler? Haverá uma faixa de preocupação tomando o espaço da minha alma. Não tente me fazer voltar a escrever, eu não vou mais. Perdeu a graça pensar que a minha alma está sendo vigiada.

terça-feira, 17 de junho de 2014

de tudo isso

Estou arrependida
de ter saído do útero da minha mãe
de ter dito o que eu disse
de ter ido aonde eu fui
de ser assim como eu sou
de não ser como eu poderia ser
e eu não vou mais parar de me arrepender
não hoje, não por enquanto
não aqui
não tem como.

siamo felice insieme




Ficção

Desde quando vc me falou que tudo que eu escrevia estava me expondo demais eu não parei de pensar nisso. Mas ninguém lê isso aqui e se lê, nunca vai saber quando é realidade e quando é ficção. Eu misturo tudo 

"And I am not frightened of dying
Any time will do, I don't mind
Why should I be frightened of dying?
There's no reason for it
You've gotta go sometime.
I never say I was frightened of dying"