terça-feira, 17 de julho de 2018

Resposta

Achei bonito você correr atrás de aula disso e daquilo e consertos e largar o cigarro e tentar colocar as coisas no lugar. Tão bom pra você. Não sei se são tão bons os motivos que você criou para eu ter me encantado com você. Coisas que você poderia ser, coisas que você não é. Eu me encantei por você porque era uma segunda fora da rotina e você tocou uma música que mexeu comigo. Depois vieram sebos e casamentos e fins de semana. E risadas. E nada disso tem nada a ver com o que você poderia ser ou tenha sido. Eu não dou a mínima para nada disso. A gente teve muito a ver nesse tempo que a gente teve a ver. E eu gostei de você exatamente desse jeito que você é agora. Você nunca mentiu pra mim sobre o que você é e nem nunca prometeu que nada mudaria. Eu quis ir embora por essas mesmas razões que o amor tem e a gente desconhece. A despedida também às vezes tem razões desconhecidas. Passou. O nosso amor foi uma brisa gostosa que me fez um bem danado e acho que sacudiu um pouco a sua poeira. Que bom que eu te fiz bem também. Eu estou indo embora aos poucos porque eu não tenho pressa, mas eu não quero ficar mais porque a minha hora passou. Só isso. Mas por favor, continue nessa busca pela sua melhor versão porque você já é um cara incrível e não deveria nunca se acomodar.

domingo, 15 de julho de 2018

Meu último sonho

Eu entrei num barco antigo igual ao que aparece no filme do Peter Pan e fui navegar sozinha pelo oceano noite adentro. O tempo naquele barco era outro, passava mais devagar. Eu tinha uma profunda sensação de liberdade naquele mar silencioso, calmo e noturno. Eu estava sozinha, mas me sentia tão bem. Vi umas baleias mergulhando bem perto de mim, quase esbarrei nelas com meu barco, mas eu não senti medo. Eu tinha certeza de algo. A água brilhava forte refletindo a luz da lua. Aquilo era uma espécie de paraíso. Meu passeio foi intenso mas curto, porque eu senti que precisava voltar para casa. Quando eu voltei, meus pais estavam um pouco mais velhos e me disseram que eu havia passado um ano e meio longe de casa.

Dig

I dig my chest so deeply
to find so little of you
there's hardly any smile from you in my memory
or laughs or touch
I can't remember much of your kiss or smell
I have to create your shades in my head
so far from what I actually saw in you
your tone of voice sometimes comes to me though
with a careful speech
but that's it
I've been mistaken so many times
I could be wrong
but you got me thinking
I don't have to dig my chest anymore
I've already got in me
so much of you

segunda-feira, 9 de julho de 2018

bi polar

pode entrar
se sentar
se entregar
quer dizer 
eu não sei 
venha aqui 
ou melhor
por ali 
fique à vontade
mas nem tanto
quase nada
me dá a mão
uma só
melhor não
pode partir 
me deixa aqui
pode ir




segunda-feira, 2 de julho de 2018

Cuidado

Enquanto você me explica a diferença entre peçonhenta e venenosa, eu me distraio reparando na quantidade de vezes que você ajeita os óculos no nariz. Você é cuidadoso na escolha das palavras e eu sinto que esse cuidado todo é de certa forma para mim. Esse é o tipo de coisa que faz eu me interessar por um homem. O cuidado. Penso que, se naqueles segundos de conversa com som alto e milhares de pessoas em volta, você teve um pequeno cuidado com a minha compreensão, ele nunca irá faltar. Enquanto você explica a diferença entre as cobras, reparo na sua paciência ao me fazer compreender as coisas do seu universo. Não sei dizer se entendi alguma coisa sobre as cobras e os seus venenos, mas eu gostei de você.

domingo, 1 de julho de 2018

quando vidro

quando vidro se quebra no chão 
e ninguém recolhe os cacos 
os dias os transformam em pó
misturado com outras sujeiras
quando vidro se quebra no chão
é melhor recolher logo os cacos
que é pra ninguém pisar e sangrar
vidro dói quando quebrado 
ou quando pontudo e afiado
quando vidro se quebra no chão 
não adianta consertar
não há nada que se possa fazer 
a não ser lamentar
coisas de vidro se quebram o tempo todo
pessoas pisam nos cacos e sangram os pés
vidro sempre machuca quando quebrado 
ou coração


quinta-feira, 28 de junho de 2018

Verso seu

Uma covinha 
que não era minha
te levou pra longe

Alguém te deu nó
beliscão
fiz dele pó
te dei a mão

se você consertar o chão
não mais envenenar 
o pulmão

nosso amor já venceu
e eu 
nem preciso de um verso seu

de novo

Não consigo evitar
o medo de cair
de novo
com a cara arrebentada
levantei da última vez
também perdi os dentes
as unhas, a vontade de sair
da cama
enfaixei meu peito
tomei remédio
dormi na uti
acordei ontem
aqui
com medo
muito medo
tanto medo
de cair
de novo



quinta-feira, 14 de junho de 2018

seu peito

seu aperto
no meu corpo
seu cheiro
de cigarro
suas poesias 
repetidas
seu repertório
de canções
suas piadas
praça é nossa
seu beijo 
de manhã
seu carinho
nunca raro
seu Clarita
no ouvido
suas pautas
de mendigo
sei que assim
não vou embora
e se me vou
quero voltar
sempre
pro seu peito








sábado, 26 de maio de 2018

no sofá

fizemos amor no seu sofá 
e o amor que eu sentia
ficou por lá
foi de repente sem querer
que eu deixei de te amar




quarta-feira, 23 de maio de 2018

Insônia em quatro tempos

I
mesmo quando a sua boca
tem gosto de cigarro
eu gosto do seu gosto
às quatro da manhã

II
é tanto amaciante
que as flores do campo
querem cheirar sua cama

III
sua tosse me acorda
no meio da noite
seu abraço me pede desculpas
sempre desculpo

IV
mesmo que eu não durma direito
é impossível sair
da armadilha proposta
pelos nossos corpos





sábado, 19 de maio de 2018

Tom

Não é que eu goste do que você escreve
mas eu gosto que escreva
não sei se gosto do seu gosto
musical
gosto é de te ver dançando
desajeitado
parecendo um menino frágil
Nem sei se gosto de você
a ponto de largar tudo que existe
pra deitar no seu colo
mas eu gosto de deitar no seu colo às vezes
ouvir algo que você escreveu
pensar em como ficaria melhor se tudo mudasse
eu acho que gosto mesmo
é do seu tom de voz
manso.

sábado, 12 de maio de 2018

Um conto

Ele acha que pipoca é comida
cogumelo também
mal mastiga pra engolir

ela come doce
com gosto de papel
de sobremesa

às seis da manhã ele acorda
sem nem ter dormido
às onze desperta
ela de ponta-cabeça

ele acha que pipoca é café da manhã
perdeu os óculos

ela sai de fininho
um livro de contos na bolsa
perdeu o sutiã

ele sem óculos
não pode ler as novas fábulas

ela na praça percebe
virou um conto do livro





quarta-feira, 9 de maio de 2018

tudo bem

Ela diz que está tudo bem
mas de hora em hora olha o relógio
esperando o momento que vai estar
tudo bem, e tudo bem
alguma hora ela vai parar
Ela sabe muito bem
que esperar não leva a nada
só andando que dá pra chegar




Fragmentos de um ex

Ele morou naquele apartamento por uns dois anos. Quando eu fui visitá-lo, o banheiro de visitas continuava com goteiras e o chão da sala ainda tinha uma pequena mancha. Achei estranho porque ele era aquele tipo de gente que deixa tudo impecável. Mas eu acho que ele ficou deprimido, que a vida o deprimiu. Ele era muito metódico, não conseguia mudar de emprego, não achava graça de muita coisa, não conseguia nenhuma namorada para deitar nas pernas no fim do dia. Eu não sei o que emperrou a vida dele, era um cara inteligente. Quando o conheci eu jurava que ele seria presidente de alguma coisa. Nunca achei que me casaria com ele, imaginava que ele fosse casar com uma mulher magra, alta e super culta que nem ele. Tipo a mulher do George Clooney. Só que eu acho que ele deprimia todas as mulheres que ficavam com ele. Acho isso porque ele quase conseguiu me deprimir. Ele dizia que eu deveria arrumar um emprego sério, que eu deveria parar de sair tanto, parar de fazer bananeira na parede da sala, que eu era quase uma criança. Ele não era romântico e nem doce. Nos poucos meses que ficamos juntos, ele me deu um livro chato de presente, tentou mudar meu gosto musical drasticamente e me disse que o meu filme preferido era uma compilação de tudo que havia de imbecil na cultura moderna. Eu acho que ele está deprimido até hoje. Só consigo imaginar aquela barba que ele foi deixando e aquele óculos de armação grossa na mesa da sala. Ele se recusava a ficar de óculos dentro de casa e ficava me perguntando onde estavam as coisas que estavam do lado dele.

domingo, 6 de maio de 2018

Poeta

você lê poesia
no pé da árvore
e eu no teu colo
quero te levar
dentro do meu bolso
nem sei mais o gosto
da solidão
me dá um pouco
da sua poesia
farei companhia
quando escuridão
me dá sua mão
te levo junto
nessa caminhada
não peço mais nada
entrego meu peito
me faço disposta
você leva jeito
de ser meu poeta







Telefone

O telefone não tocou
mais um dia
esperei suspirando
com choro nos olhos
cansados
sem saber o que eu fiz
dessa vez
o telefone em silêncio
e de novo eu quis
nunca ter visto
você

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Os nós

Os nós que nós damos
nos outros
se finos demais
escapam nas mãos
os fortes demais
é capaz
que desatem
não note esse nó
mal feito
fraco, sem jeito
é assim que aprendi
a dar nó
tenha dó, coitado
rejeitado
nunca foi apertado
será desatado
por falta de uso
recluso
o meu nó
me desculpe
desfez.

pelo correio

Um dia chegou pelo correio
num envelope do Sedex
um coração desenhado
num pedaço de papel
a borda direita do coração
logo ficou azul borrada
cor de lágrima.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

adeus menino

menino distante
nada nunca
é o bastante
pra você voltar
menino indeciso
sua cama ocupada
é um aviso
para eu te deixar
menino sem voz
e sem volta
me deixa solta 
pra eu voar
menino ansioso
essa ansiedade 
não é saudade
da sua cidade?
adeus menino
fiorentino
seria divino
te encontrar
adeus que eu vou
sair de fininho
pra não me machucar

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Crise de ansiedade

Ninguém percebe
meu coração disparado
a tensão
dentro de mim
alguma dor me invade
um desespero
tão invisível quanto Deus
finjo estar presente, converso
olho no olho
só que estou em outro lugar
presa
nos meus pensamentos ruins
De repente
você fala de Deus
do universo, das coisas que não vemos
e tudo
fica
bem.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Peixes

Eu nem ligo
se você se parece tanto comigo
e há um mar no meio de nós
cheio de peixes
sei que você também não liga
somos tão parecidos
mas pode ser que um dia desses
um outro aquário apareça
e me encha de peixes
eu nem ligo
mas você se parece tanto comigo.

domingo, 15 de abril de 2018

nos sonhos

Eu não vou te esperar
você sabe
estarei por aqui
aquariana
no mundo da lua
nos sonhos
(nos meus e nos seus)
estarei por aqui
sendo eu
sem saber quem é você
se gosta de poesia
se pega na mão
se abraça
se tem a voz do Anderson Silva
nem mesmo se cortou o cabelo
você aí longe
talvez venha
sem saber quem sou eu
se sou barulhenta
se choro às vezes
se vou ou se fico
estarei por aqui
por ali
em todo lugar
esperando sem querer

domingo, 8 de abril de 2018

Remédio

Se existe remédio para tudo 

eu quero dois 

um para mim mesma

outro para quem penso que sou

um remédio que 

ligue

e outro que

desligue

contragosto

não gosto de rimar
acho bobo
fazer palavra combinar


coca-cola

descobri que coca-cola
dispara meu coração
acendi uma vela
anotei num papel
pedi para os santos
até promessa eu fiz
nada adianta
só coca-cola
dispara meu coração



quinta-feira, 5 de abril de 2018

Viagem de ida

Você disse que vem
e quero que venha
mas não chegue tão perto
que eu tenho medo
Venha, mas devagar
que é pra não assustar
o meu coração
Pode chegar, ocupar espaço
dizer o que quiser
e até ir embora
mas se for demorar
e a cabeça apoiar
no meu ombro
por favor não se vá
fique
me deixe sentir
as batidas de dentro
o calor do seu peito
segurar sua mão
fique
me deixe ter coragem
de não ser personagem
numa viagem de ida
uma vez na vida
fique




quarta-feira, 4 de abril de 2018

D(eu)s

Agora que eu finalmente
te achei
me ajuda então
a sair daqui
dividir com alguém
o que eu tiver
juro que divido
o que você me der
me dê uma mão
um sinal
qualquer coisa que me faça manter
a força de procurar
você em todo lugar

fundo

ninguém tem inveja 
do fundo do poço
raiva também não
nem olho gordo
não há interesse fingido
conversa pra boi dormir
ninguém aparece 
nem mesmo pra dizer um oi
do fundo do poço tudo parece tão alto
dá vontade de nem sair mais
dói o pescoço de olhar pro céu 
pra procurar o sol 
é tão silencioso
pacífico
e triste
e solitário
não tem sofá no fundo do poço 
janela, jardim ou comida
não há nada aqui
e eu não sei mais sair 



domingo, 1 de abril de 2018

entendo

sempre faço escolhas erradas
e acho que ninguém vai notar
mas saio perdendo
num jogo que nem começou

pelo menos eu tento
e entendo por que perco

a vida é assim.

trinta e um

Os anos estão passando
e eu não sei se essa sempre fui eu
desse jeito, com essas olheiras
se esse peso sempre esteve nas minhas costas
disfarçado de outra coisa
parece que de repente
todo machucado demora mais pra cicatrizar
às vezes nem cicatriza
fica ali, exposto
antes eu nem sentia
hoje eu tenho vontade de entrar num casulo
e só sair depois de pronta
dizem que o tempo nem existe
deve existir pros sentimentos
que mudam tanto
deixam nossa cara tão marcada
os anos estão passando e eu não estou nem perto
da borda da piscina.







Assim

É sempre assim:
nada acontece
e eu me pergunto
por que tudo me esquece
o telefone não toca
de jeito nenhum
a campainha não soa
lá fora
nada me chama
seu olhar nem por acaso
vem parar em mim
é sempre assim
e eu me pergunto
o que eu fiz assim
que se fizesse assado
você se prenderia em mim







quinta-feira, 29 de março de 2018

Eu já tive

Eu já tive tanta coisa
da última temporada
e mil amigos
que se importavam com isso

Eu já tive coisas que brilhavam
coisas que combinavam
coisas (à toa)

Não tenho mais
e nem sei mais
para quê deveria ter

O que eu tenho agora
dúvidas
certezas e clarezas

Tenho pensamentos bons
e pensamentos maus
e reflito sobre todos eles

Tenho raiva, medo
tristeza e ansiedade
mas agora
eu sei como chamá-los
e principalmente
como transformá-los
em paz.



segunda-feira, 26 de março de 2018

Um garoto

Eu gosto do seu entusiasmo
você parece um garoto
entusiasmado com uma bola
e tudo parece uma bola pra você
assim rindo de tanta coisa
me fazendo rir também
nesse sofá, cheio de espaço do meu lado
senta aqui mais perto
hoje eu quero ser a sua bola

na nossa rua

Ontem eu caminhei na nossa rua
como se nada estivesse acontecendo
como se eu não estivesse com outro homem
comprando cerveja no posto que era nosso
eu paguei com dinheiro, peguei o troco
foi tudo normal, como se eu não fosse uma atriz
que um dia largou tudo
como se meus sonhos não estivessem se realizando
nos bastidores da minha vida
ontem eu caminhei na nossa rua
ao lado de outro homem
ele não segurou na minha mão
porque talvez seja cedo
mas eu quis segurar a mão dele quando atravessei a rua
só para sentir que era mesmo verdade

ela pode te levar

Você me fez uma pessoa melhor
tudo que aprendi com você
tudo que aprendemos juntos
você me transformou
me melhorou
me colocou num lugar melhor
hoje eu te vejo com ela
sorrindo, em paz
você me transformou em tudo que eu sou
e gosto de ser
eu te vejo com ela
te agradeço em pensamento
quero tanto te ver feliz
eu tenho um pouco de você
você um pouco de mim
um dia eu quero te encontrar
te abraçar, te dizer
você me fez tão bem
ela pode te levar
eu só quero te ver feliz


segunda-feira, 19 de março de 2018

cais

levantei a âncora, pronta para partir
deixei tanta coisa
um pouco de mim
te vejo no cais acenando
tentando entender se chego ou se vou
não sei dizer como ou por quê
eu preciso ir
não vejo os seus olhos
mas sinto eles marejados
sou viajante, venho e fico
depois parto 
sozinha
triste 
cansada e sem nada
não sei dizer como ou por quê
adeus.

domingo, 18 de março de 2018

mesmo que não rime

me deixe escrever poesia
antes que o dia chegue
e me atropele
e me empurre pro abismo
me deixe escrever uma estrofe
preciso tirá-la de dentro
me empresta um guardanapo
um papel
um trapo
antes que o dia venha
e eu me esqueça
ou a poesia apodreça


quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Aula

Ela passou parte da tarde lendo os livros para entender o que tinha que dar na aula do dia seguinte. Não era difícil, mas ela era caprichosa e preparava tudo com antecedência. Depois que terminou, foi fazer as outras tarefas do dia e foi dormir tarde como sempre. No dia seguinte, acordou no horário, tomou o café preto revigorante e foi para a escola. Chegou uma hora antes como sempre fazia, preparou os livros, separou os cds e foi para a sala de aula. Quando chegou, seus oito alunos bagunçavam como sempre, mas ela conseguiu, com muito esforço, passar tudo que precisava para eles. Assim que terminou, percebeu que estava até meio ofegante de tanto entusiasmo que tinha ao explicar. Pediu para os alunos então dizerem o que tinham achado do conteúdo. O mais inteligente dos meninos foi o primeiro a levantar a mão. Quando ela perguntou o que ele tinha a dizer, ele falou: "professora, ontem eu vomitei todo o almoço."

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Vida de artista

Quero cortar os meus cabelos
arrancar meu ego de mim
descolar da minha alma
inventar outra pessoa
para ser alguma eu
faço tudo que vier
quero criar
com a força que tiver
me dou inteira
serei a outra que for
entro em tudo de cabeça
revivo um passado pesado
pra tirar algo de mim
brinco com a mente
aprendo a mentir
se você quer saber
essa vida de artista
é tudo que eu queria ter


Dois sóis lá fora

Se o segundo sol de fato chegasse
o seu telefone não tocaria
eu não te ligaria
Não perguntaria onde você está
nem me importaria
Eu estaria sentada
na varanda de casa
com a cabeça no seu ombro
com bambus fazendo sombra
a vida poderia arder
lá fora
eu nem ia saber
embora
com você
pode arder.

Um estranho

É estranho passar a vida com alguém
e depois nunca mais ver o outro?
alguém me perguntou.
Estranho é passar a vida com alguém
sem nunca ter visto o outro de fato.

Casa com jardim

Eu morava com você
numa casa com jardim
você se foi
tentou me levar
no som do avião
você me esqueceu
eu deixei-me ir
por aqui
meu bem, quer saber
minha casa sempre terá jardim.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Linda

Que menina linda, eles dizem
eles acham e olham e querem e pedem
linda, eu? leva um pouco,
quem sou eu para guardar tudo isso pra mim?
Que sorte a minha
nascer magra, simétrica, 
com o nariz no lugar
Que linda, eles dizem e levam um pouco
e mais um pouco
e a menina linda é tão sozinha
Que azar nascer assim
dando tanto trabalho
eles vem, brincam, tocam
depois vão embora
com metade de mim

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

poetinha

poetinha desligado 
lê poesia pra mim
tira soneca na rede
anda descalço
o que vai ter pra comer
no café da manhã
poetinha, lê pra mim
os seus escritos sagrados
vem sempre de dentro 
dá pra ver de fora
deixo te contar
que você adora ouvir
olha só essa árvore 
vamos morar nela
plantar mais vinte
poetinha me fala
de onde você veio
pra onde você vai
quero ir com você



terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Cálculo

Um café e um chá de hortelã.
Uma carta em cima da mesa?
Não. Um texto do teatro.
Um bolo pequeno no prato,
só pego um pedaço.
Te pergunto: então não?
Você pensa no sim,
mas calcula melhor que não.
Te conto do meu encontro.
Fiquei completa, inteira, achada.
Agora posso sair pra rua,
deixar a cerveja, ser eu mesma,
eu já posso me acalmar.
Te conto tão feliz do meu encontro
e agora que sei olhar pra dentro,
quero olhar para você.
Seu olhar marejado mostrou,
que você comovido ficou,
quis dizer algo que não saiu.
Tudo bem meu amor,
não precisa dizer.
Garçom, traz a conta,
ele calculou melhor que não.



Às vezes parece que eu te conheço

Às vezes parece que eu te conheço tão bem. Quando você me mostra as particularidades de cada planta no jardim, os fios das folhas que parecem cabelos, as folhas que parecem bordadas à mão. Me sinto curiosamente protegida do seu lado, mesmo que você não seja alto ou forte. Você me olha com um carinho protetor e me procura com o olhar como quem procura o lar. Às vezes você fica parado e eu fico imaginando se você está fazendo poesia na sua cabeça como eu. Deve estar. Quero te mostrar tanta coisa, sei que você vai saber do que eu estou falando. Você sempre sabe. Às vezes parece que eu te conheço há tanto tempo. O seu rosto me faz sorrir. Quando eu encosto no seu peito, me sinto em casa.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

guerra

Escapei ilesa
do primeiro beijo
no portão da casa
No segundo eu vacilei
te levei 
comigo
O resto eu nem sei
me apaixonei
me entreguei 
me rendi
mas não perdi:
você ainda
está aqui.


domingo, 7 de janeiro de 2018

A sua falta

A falta que me faz 
a sua falta
é leve
não chega a doer
mas deixa um vazio
uma fisgada
um sussurro 
eu aqui
sentindo falta
deixo ser 
não falo nada
mas quero mais

sábado, 6 de janeiro de 2018

Entre eu e a lua

Naquela noite
entre eu e a lua
havia você

Sentei do seu lado 
sem querer
mas querendo 
talvez

Acidentalmente
o meu pé encostou
no seu
(sem acidente
nenhum)

Naquela noite de lua cheia
sentei-me do seu lado
encostei meu pé no seu 
mas era tarde
demais.






quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Distraída

Dizer que eu sou sua
que você é meu
é tão definitivo
e eu não quero dar motivo
para minha aflição
Tenho medo do futuro
o presente já é duro
quero apenas caminhar
distraída, sem notar
o meu entregue coração
pulsando na sua mão






domingo, 26 de novembro de 2017

Sonho

Me peguei sonhando
com os braços da sereia
que nada no braço
de um certo homem.

Domingo

É domingo, abro a janela,
busco uma caneta azul
(acho preto triste)
pego um caderno no chão
e escrevo.
É sempre domingo quando
escrevo sobre solidão.
Escrever me salva da tristeza,
do medo da semana que vem
(vem mesmo com medo),
da vida que anda passando,
como sempre com pressa.
Fico descalça, desnuda, sem nada no rosto
e na boca só o gosto
do bafo matinal.
Domingo eu me faço de morta, de tonta
não saio do quarto,
não vejo ninguém - se vejo não ouço.
Não gosto nem do espelho:
das marcas de noites passadas
em claro e às vezes com sorte
no peito de alguém.
No dia de hoje ninguém vem
o que fazia Deus no sétimo dia?
Eu no domingo
só quero morrer
e renascer
quando der.


quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Poeta

Cabelos pretos grossos
cheios de fios brancos
um dente torto bem na frente
vinte e cinco tatuagens
ou talvez dezesseis
rugas ao lado dos olhos
que fazem o olhar sorrir
uma barba perfeitamente desenhada
com caneta de ponta fina
para detalhar melhor a alma
de menino curioso
de cozinheiro talentoso
de homem cheio de vontade
me dá saudade
ei poeta
você consegue se reconhecer
nessa poesia
feita para você?

domingo, 19 de novembro de 2017

Um homem partido ao meio

Você é agora feito de esforço
para se manter firme
cansado mas forte
com o som de pratos, talheres
cheiro de alecrim
sua presença tem dificuldade
de seguir sem o que tinha
e talvez não seja pouco
e talvez eu exija muito
de um homem partido ao meio.

Pressa

Me disseram que tenho pressa,
quero apressar o curso do rio.
Eu deveria esperar, ser mais calma,
deixá-lo passar no seu ritmo.

Não entendo que tipo de amor
esperam de mim.

Um amor calmo, que espera
sem nenhuma pressa de amar?

desconheço.

Desejo todo segundo de beijo
a cada segundo junto
- por que perder um segundo?

desperdício.

No pouco tempo
aqui que temos
eu quero amar
com pressa,
urgência,
falta de fôlego,
suor.
Se a dor vier
(ela sempre vem)
venha
e me pinte de preto
inteira.


sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Janela

Quando eu acordo, abro a janela
árvores, pássaros, fonte de água
um jardim emoldurado pra mim.

Tem gente que abre a janela
postes, prédios, muros
toda tristeza do mundo. 

Se há mesmo Deus,
peço que ele chegue também
à janela dos outros. 




domingo, 5 de novembro de 2017

ninguém

Quem sou eu
nesse mundo
que não é meu
O que eu faço
com tão pouco
que me foi dado
Para onde vou
se devo chegar
a lugar nenhum
Como vai ser
quando eu estiver
sozinho
Quando vai ser
meu dia de ser
alguém
Quem levo comigo
se todo mundo
já está ocupado
Por que, meu deus
somos todos assim:
ninguém

melhor

Eu tento todo dia
ser o que eu sei que é
o melhor de mim
com você aquele dia
enquanto eu era eu
e você me ouvia
eu nem me esforcei



segunda-feira, 30 de outubro de 2017

À noite

Sou muito mais da noite do que do dia.
De dia eu sofro pra fingir que gosto
do que não gosto,

Temos que nos enquadrar.

À noite é um silêncio:
só cigarras e grilos
e as teclas do meu computador,

Eu consigo me escutar.


terça-feira, 24 de outubro de 2017

Eu não lembrava de você

Eu não lembrava de você,
eu não queria lembrar de você,
mas você insistiu.
Algo no meu inconsciente,
algo que depois eu entendi o quê,
não me deixou registrar o nosso primeiro encontro.
Mas você insistiu.
Me fez convites que recusei,
fez piadas que eu ri
e uma hora eu finalmente cedi.
Subi na garupa da moto,
acendi a luz do teatro,
acendi o isqueiro no terraço,
e algo em mim se acendeu.
Numa noite de chuva eu quis dizer não.
Você insistiu, disse que éramos adultos,
que estava tudo bem.
Uma hora eu finalmente cedi.
Abri a porta do carro,
compramos um vinho,
contei-lhe um conto,
e como dois ímãs nos unimos.
Agora que tudo mudou,
que não somos mais ímãs,
que a cortina fechou,
agora eu me lembro de você.


domingo, 22 de outubro de 2017

solução

Hoje eu perdi o dia porque fiquei dançando no quarto.
Eu sofro por dentro e meu quarto está uma bagunça,
achei 
melhor 
dançar.

Unha

Vejo a minha unha roída
pequena, machucada.
Do conforto para esse abismo:
Eu aqui, atrás de sonhos,
distraidamente me ferindo.



Insane

why do I insist
isn't it insane to repeat
the same action
over
and over
and expect
a different result?

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Cigarra

Um dia eu vi meu pai caído no meio da sala. Eu logo percebi que era um corpo morto, a gente percebe quando um corpo não tem mais nada dentro. O meu tio disse que era para eu ficar quietinha e esperar. Eu fiquei quietinha atrás da escada, espiando os caras do IML jogarem o corpo do meu pai numa gaveta gigante. Foi assustador. Naquele instante eu tive uma visão. Eu vi o quanto o nosso corpo não é nada. Meu pai não estava mais ali, meu pai não era aquele corpo naquela gaveta. Meu pai já tinha ido embora, estava em outro lugar, em outra dimensão. Aquele corpo na gaveta era só mais uma casca sendo jogada fora. Lembrei de como as cigarras trocam de pele e largam uma casca pregada na árvore, como se fosse um fantasma de cigarra.

sábado, 23 de setembro de 2017

A depressão é uma forma meio misteriosa que a morte encontrou de se infiltrar em nós

não vem

Eu queria escrever sobre você
mas você não me deixa
você não vem me ver






Trilha de pedrinhas

Estou ouvindo um passarinho cantando lá fora. Esse som me lembra a minha infância, a minha casa de campo da infância. Eu andava descalça numa trilha de pedrinhas de um bosque que tinha lá. Meus pés doíam, mas eu me recusava a calçar qualquer coisa, queria que eles ficassem calejados para eu poder pisar em paz. Lembro de achar que aquele bosque era um mundo paralelo, o mundo paralelo de milhares de bichos misteriosos. Eu queria encontrá-los todos, ver como eles viviam. Era sempre assim: eu estava prestes a descobrir o segredo irrevelável dos pulgões, quando surgia uma voz do além: "Clarinha, vem comer!"

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Pedaço

Se agora escrevo sobre você
é porque o pedaço seu que você me deixou
involuntariamente
infiltrou-se nos meus poros
transbordou no meu peito
transformou-se em palavras.
Se você nunca quis deixar nada pra mim,
peço desculpas.
Queria poder devolvê-lo,
mas agora é tarde demais:

ele está aqui.

Algo

Tantos anos se passaram e eu continuo não sendo nada.
Mas também, o que eu gostaria de ser?

Para o nada que eu sou,
até que tenho algo dentro de mim.


sábado, 26 de agosto de 2017

Fazia sol em Camburi

Fazia sol em Camburi e o céu estava completamente azul. Marcos era surfista e queria passar na casa da namorada de manhã para poder pegar umas ondas ainda antes do almoço. Ele estava cansado da namorada e queria terminar o namoro para poder surfar em paz. Estava numa época da vida em que tudo era uma descoberta: o surf, as garotas, as drogas, as festas e o céu azul de Camburi. Ele estudava, mas não muito. Queria crescer e ser alguém na vida, mas não muito. Ana odiava os "não muito" de Marcos e o namoro já estava péssimo há algum tempo. Ele estava decidido a terminar de forma rápida e indolor. Apesar de não acompanhá-lo nessa fase da vida, Ana era uma garota legal e iria entender, eles poderiam até se tornar amigos. Ele tocou a campainha daquela conhecida porta azul e ela abriu vestindo uma camisola escondida sob um roupão curto de seda - pela cara dela dava pra ver que já pressentia o término. Marcos respirou aliviado em pensar que tudo poderia ser até mais rápido do que ele planejava. Ele abriu a boca para dizer as primeiras palavras quando Ana disse: "estou grávida."

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Viela, montanha, isolamento

Por que desviei?
Por que não observei,
por que não ouvi o seu chamado?

Em que viela, montanha, isolamento
eu estava?

Quando você aparecia (do nada),
quando você me alimentava (de poesia),
onde é que eu estava?

Por outro lado,
se vivemos num eterno retorno,
em que viela, montanha, isolamento
está você agora?


sexta-feira, 28 de julho de 2017

O assalto

Ontem eu vi um assalto, ou segundos depois de um assalto numa praça. Eram dez horas da noite e a praça me parecia bem iluminada. De um lado eu vi a vítima, um rapaz gordinho com uma camiseta amarela de ginástica colada no corpo e uma menina que não consegui perceber bem. O rapaz era moreno e tinha um cavanhaque. O bigode me chamou mais atenção do que a rala barba. Ele usava óculos de grau e capacete. Segurava a bicicleta com a mão direita e tinha o braço esquerdo jogado do lado do corpo no maior ar de derrota que eu já vi na frente. Ele fitava fixamente o assaltante indo embora e enfiando a carteira roubada no bolso. Do outro lado da minha visão tinha o assaltante. Ele passou perto do meu carro e eu achei que tinha visto uma arma no seu bolso. Tinha o corpo de no máximo vinte anos. Era magro, negro e vestia um moletom branco de gorrinho, com o gorrinho escondendo o rosto. Vestia um boné de aba reta também. Acho que estava de bermuda e chinelo, mas isso eu não tenho certeza se inventei, em todo caso a bermuda era preta. Aquela cena formou um quadro na minha memória cujo ponto central é a cara de impotência e fracasso do gordinho de bicicleta.

O Homem e Os Cachorros

(Baseado na pintura do Diógenes de Jean-León Gerome)

Aconteceu tão rápido e de forma tão misteriosa que eu nunca consegui entender direito aquele dia. Nós estávamos fugindo de um homem gordo que nos perseguia porque a gente tinha roubado carne do açougue dele. Corríamos apavorados, quase sem fôlego. De repente, eu tropecei numa estranha lamparina reluzente que estava no chão e machuquei a minha pata traseira. Todos os meus amigos viram o que aconteceu e pararam para latir. O homem gordo já tinha ficado quilômetros para trás. Com a pata sangrando, eu dei um coice na lamparina e reparei que ela se movia por conta própria. Dentro dela saiu uma faísca luminosa que em segundos entrou pela minha boca e me tomou por inteiro. Senti um fogo tomando conta de mim e uma sensação estranha misturada com enjôo, estafa e vontade de vomitar. Foi então que meu corpo começou a se transformar. Comecei a ficar cada vez maior, sem pelos, com pele de gente, braços, pernas. Meus amigos ficaram boquiabertos, sem conseguir nem uivar. Foi assim que no meio da praça, sem que nenhum ser humano notasse, eu, um pulguento cão vira-lata, me vi transformado num homem musculoso e barbudo. Sem nunca conseguir me adaptar a dieta humana e sentindo sempre vontade de cheirar o traseiro dos outros, passei o resto da vida tentando consertar a lamparina e desfazer aquele maldito feitiço.

sábado, 22 de julho de 2017

Cadáver

Hoje eu sou apenas um cadáver
com órgãos funcionando bem.
Quero encostar num banco de praça
e me deixar morrer.
Só que até isso exige uma força,
um adeus, alguma coisa
e eu não tenho mais nada.



sexta-feira, 7 de julho de 2017

terça-feira, 4 de julho de 2017

Quem sou 2.doc

Eu viro os olhos.
É a décima vez que escuto hoje:
- Claro, Clara.
As pessoas dizem isso e dão risada.

Para algumas pessoas
só à clara de ovo.
Para mim, Clara remete a luz,
a brilho, ao sol.

Sou clara de pele e de nome.
Estou sempre atrasada,
rôo as unhas e as tampas das canetas.

Ando depressa demais,
às vezes mais do que a mente:
não sou clara de pensamento.

Meu nome é Clara,
mas eu não sei dizer bem
clara de quê.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Lixo

As pessoas acham poesia uma coisa tão babaca
sem propósito
lixo

Eu faço poesia na minha cabeça
enquanto observo as pessoas

Enfio a mão no lixo
e encontro consolo
para minha solidão.


Eu sei

Você me colocou em cima de uma prancha
e me empurrou para o mar
com um sorriso no rosto, desses de foto 
caminhamos na areia
falamos de riqueza, de vida, de amor
todas as nossas coisas
cheiravam a mexerica
você fez poucas piadas 
mas em todas eu ri
eu gostava de olhar para você
e você olhava pra mim 
como se eu soubesse de alguma coisa
(talvez eu saiba)



terça-feira, 13 de junho de 2017

Ar

Eu li um poema sobre as partículas de ar que nos cercam e não consigo parar de pensar nelas. O poema falava sobre como coloridas e lindas e esquisitas elas podem ser. Trafegam por esse ar seres totalmente desconhecidos, quase como as criaturas que habitam a maior das profundezas do mais longínquo dos oceanos. Eu penso nisso o tempo todo agora. Fico imaginando como podem ser essas partículas de ar, o que fazem, se precisaria de uma luz super especial para vê-las. Agora eu também penso que elas talvez reagiram de alguma forma, talvez fizeram um desenho estranho no ar, quando nós dois nos conhecemos.

Trauma de infância

Ela chamava Lia. Era bem pequena e loira, tinha pernas compridas cor-de-rosa e um corpo todo mole. Eu adorava bater papo com ela - e ficar esticando o seu corpo. Falávamos de vários assuntos como, por exemplo, os garotos da escola. Eu ficava super decepcionada que ela nunca me respondia. Um dia eu cansei de falar sozinha e decidi que ia apelar para feitiçaria. Algo ia fazer a minha boneca misteriosamente falar. A primeira coisa que eu resolvi tentar foi pedir para a lua. À noite eu deixei a Lia do lado de fora da varanda, para que a lua tivesse privacidade ao fazer o encanto, e pedi sem muita conversa nem reza. Disse: "Lua, quebra esse galho pra mim, faz a Lia falar comigo, eu quero tanto!" e fui dormir. Quando eu acordei, a Lia estava sentada na janela me olhando de uma forma atrevida. Achei graça e fui buscá-la na janela. Perguntei alto pra mim mesma: "E aí, Lia, vai ou não vai falar?" Ela continuou muda e ficou me encarando até soltar: "Olha, querida, eu só falo com você se você parar de falar desse tal de Fabinho, não me interessa o que ele levou de lanche no recreio, porra!"

quinta-feira, 8 de junho de 2017

ímãs

Por que Deus não fez mais fácil:
pessoas como ímãs - uma para outra?

Isso assim é muito errado.

Se uma pessoa é um pedaço de ímã
a outra é um pedaço de madeira
imóvel, inalterado pelo ímã insistente
que acaba caído no chão.

domingo, 4 de junho de 2017

Ser o que é

Queria tanto que você viesse
e sentasse do meu lado
e fizesse o que quisesse.
Cada um ser o que é,
um do lado do outro.
- Pra mim o amor
é simples assim.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Alguém

Alguém me apresente logo para mim!
Tenho pressa de me conhecer
tenho pressa de saber quem sou.
Sempre fui tão outra
me negligenciei
sempre me desconheci.
Preciso me decifrar
me entender
me decodificar.
Me tire desse alguém
que não sou eu.
Alguém ande logo:
eu tenho pressa!
Alguém me acorde já:
eu preciso ser eu.

O não

Você disse que eu tive pressa.

Eu me apresso porque tenho medo,
me apresso porque fujo,
apresso porque não quero sentir nada.

Quero estar em movimento,
de partida,
adiantada:
antecipando o não.

Cílios

Seus cílios enormes e os seus dentes meio errados.
Você vai embora muito em breve e por isso eu te deixei entrar,
mas não se engane: eu gostei de você.

Eu quis que os seus cílios encostassem nos meus.

As pessoas

As pessoas me chamam de corajosa o tempo todo e eu só sinto medo.

domingo, 28 de maio de 2017

Em vão

Naquela noite eu decidi vestir minha camiseta branca com bolso, só que ela estava toda amassada. Eu nem cheguei a provar pra ver se ficava bem, já fui logo pegando o ferro. Me deu preguiça de procurar a tábua então eu passei a camiseta rapidinho na cama mesmo. Fui pro banheiro me maquiar, arrumei meu cabelo e quando fui olhar no espelho notei que a manga da camiseta continuava amassada. "Vou assim mesmo" - eu pensei. Mas não. Achei que seria melhor passar, o ferro já estava ali do lado. Peguei o ferro com a maior má vontade e nem quis tirar a blusa pra passar, era um amassadinho tão tolo. Foi então que eu encostei o ferro no meu braço. Urrei de dor. Estava sozinha, não sabia o que passar no queimado, não quis ligar pra ninguém para perguntar o que fazer. Pus água e só. Meu braço ardia quando eu olhei no espelho. A camiseta nem tinha ficado boa com a calça. Troquei por uma preta e saí. Foi assim que eu ganhei uma das maiores cicatrizes que eu tenho no corpo.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

My name

You know my name
you know my name so well
you know the texture of my skin,
my freckles, where my hair comes from,
you know why I laugh,
and how I laugh
you know why I stay quiet.

You have heard my silence
so many times
You have seen me sin
with you

you know my name so well
but you do not call it.

domingo, 21 de maio de 2017

Da minha dor

Mais um dia acabou
e eu continuo aqui.
Sentada, sozinha, sem nada.

Uma dor invade o meu peito
- e uma necessidade de escrever.

Deixo aqui então um pedaço da minha dor.

Faça
bom
proveito.

Casulo

Estou cansada
de sair de fininho
e esperar
e não ter resposta

de achar que é e não ser
de suspirar para o abismo
de procurar o meu erro

- qual foi o meu erro?

Estou cansada de sentir
borboletas
virarem casulo.

Indicação

Atrás de uma comanda de bar cheia de anotações sobre lanches completos ou sem queijo eu anotei o nome de uma poeta brasileira. Uma indicação sua depois de tanta conversa. Quando você disse que gostava de poesia eu dei risada. Você não entendeu qual era a graça e perguntou se era engraçado gostar de poesia. Eu te expliquei que a minha risada era porque ninguém gostava de poesia e era o que eu mais gostava. Deve ser por isso que eu me sinto tão sozinha. Conversamos sob o olhar de um homem feio que queria flertar comigo. Conversamos enquanto você comia uma coxinha vegana de jaca. Conversamos enquanto esperávamos as pessoas irem embora. Hoje aquela comanda está em cima da minha mesa e eu acabei de ler um pouco do livro que você me indicou.

domingo, 14 de maio de 2017

Luz

A luz fraca do meu relógio de pulso
refletiu no seu casaco de couro preto
você nem percebeu,
mas era algo de mim em você.

O riso

Josué estava apaixonado, muito apaixonado. Queria casar com a Laura amanhã se pudesse, mas ela pediu calma. Demorou meses para conseguir convencê-la de apresentá-lo para os pais. Marcaram um jantar num restaurante fino e ele ficou o dia todo se preparando para fazer bonito. Leu todos os jornais do dia, separou suas melhores roupas e ensaiou frases de efeito. A família da Laura era muito rica e estava cheia de receios porque ele mal conseguia pagar as contas do mês, mas o Josué era um homem seguro e se orgulhava de ser batalhador. Tinha certeza que ia conseguir pelo menos trazer um riso para o jantar. Todos foram pontuais. Se apresentaram, falaram sobre banalidades para quebrar o gelo e o jantar foi fluindo. Lá pela terceira garrafa de vinho começaram a falar sobre gastronomia. Ele suava até as mãos de tanto esforço que estava fazendo para agradar. A mãe de Laura disse que seu prato preferido era "coq au vin" e ele perguntou do que se tratava. Ela se mostrou surpresa com a falta de conhecimento dele e foi logo dizendo: "é um prato tão conhecido! É frango ao molho de vinho!" Josué ficou constrangido e, antes que perguntassem qual era o seu prato preferido, fez disfarçadamente uma pesquisa no celular por debaixo da mesa. Quando o pai fez a pergunta, ele respondeu bem rápido: "écrasé de pomme de terre avec saucisse" todos se olharam e ninguém conhecia o prato. O pai perguntou então o que era e ele respondeu: "purê com salsicha." Josué conseguiu o riso que queria, pena que foi de constrangimento.

agora

Chamei Deus de canto
falei baixinho
'agora'
e vi no horizonte
minha vida começar

terça-feira, 9 de maio de 2017

Relato

Entre todas as coisas que aconteceram recentemente na minha vida, a mais importante, mais viva, mais linda, mais rara, mais esclarecedora foi conhecer o Livro do Desassossego. Eu, aos trinta anos de idade e trilhando um caminho cheio de incertezas, me vi segurando o Livro na mão dentro da livraria. Sentei-me num canto e de repente imergi no universo de todos os questionamentos que me fiz a vida toda. A minha ânsia em devorar esse livro é tanta que não quero me demorar mais neste relato.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Quando alguém

Parece que eu não consigo atingir ninguém.
Que não sou notada, esbarrada, encantada,
que talvez eu seja feita de vento
ou de nada. E então,
quando alguém me responde
com um oi, pode ser,
um aceno que seja,
quando alguém me reconhece,
me percebe,
quando alguém me vê
- suspiros -
eu olho de volta, curiosa
querendo saber
se então é mesmo verdade
que eu existo.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Sonho

Hoje eu me lembrei do último sonho que tive com você. Na verdade você nem aparece nele, mas eu podia sentir a sua presença. A nossa casa estava vazia, como nas fotos que eu tirei para mandar para a dona, e eu precisava garantir que tudo estava limpo antes de ir embora. Só tinha o sofá, a lareira e a mesa de centro, mas as revistas que ficavam na mesa tinham voado com o vento e caíram no chão. O sonho parecia muito com o meu verdadeiro último dia na casa, mas tinha um ar melancólico, essas revistas caídas me davam vontade de chorar. Era você. Você era o ar melancólico, a minha vontade de chorar.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

O pijama azul, que eu nem sei se era azul

Ele me contou de um pijama que ele adorava usar quando criança. Eu imaginei um pijama azul de feltro desses que cobrem os pés, tipo um macacão com meias, e com pequenos foguetes desenhados. Imaginei ele pequeno, com cara de sapeca, dizendo para a mãe que queria ir ao shopping vestindo aquilo. Será que a mãe dele, lá no seu íntimo, quis dar risada e apertar aquela figurinha? Será que levou aquilo a sério? O que será que ela fez? Os cabelos dele, na minha criação, estavam bem bagunçados e os olhos brilhavam cheios de bondade, a mesma que ele ainda leva nos olhos. Adoro imaginar as pessoas quando eram crianças e achei engraçado ele me dar assim, quase de graça, tanto substrato para o meu deleite.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Só assim

Todos os dias olho no espelho
e vejo o reflexo de mim.
Minha vista deve estar cansada de me ver,
todos os dias a mesma eu.
Tem vezes que aparece uma montanha
- no meio da testa, no nariz ou no queixo -
mas em geral a paisagem é sempre a mesma.
Essa velha eu.
Se um dia eu cansar de me ver,
(e talvez esse dia esteja chegando),
o que eu faço, meu deus?
Eu que não tenho outro rosto,
que não tenho outro jeito,
que não sei ser outra,
eu que sou só assim,
o que vou fazer?


terça-feira, 18 de abril de 2017

Sentidos

Eu vejo olhos me olhando à noite enquanto passo,
esperem que eu olhe de volta, que eu pare, que eu volte.
Eu não.

Prefiro ser parada pelo ouvido.
Fernando Pessoa me fez dar meia volta
quando eu saía de uma casa uma vez.

Meus olhos saem sempre tristes à noite,
já sabem que vou gastá-los em vão.
Enquanto meus ouvidos não forem saciados,
nem meus olhos, nem meus lábios
se satisfarão.


segunda-feira, 17 de abril de 2017

Pela primeira vez

Ontem eu vi algo pela primeira vez.
Estávamos todos na sala quando minha mãe disse que precisava trocar o bebê. Ela perguntou se eu sabia como se trocava um bebê. Eu disse que sabia, tinha visto minha irmã trocar a Manu, mas mesmo assim eu queria vê-la trocar e aprender mais uma vez. Subimos para o quarto, minha mãe pegou o protetor de cama, os apetrechos e lencinhos e as fraldas ecológicas da minha irmã. Puxamos os bracinhos da Manu, mexemos o bumbunzinho dela, limpamos toda a caca, mamãe me ensinou a checar todas as dobrinhas. A Manu deu risada, foi super boazinha e linda. Trocamos a blusa dela e a mamãe levou ela embora no colo. Aquele momento, ver minha mãe sendo avó com aquela delicadeza, aquele jeitinho dela, aquilo mexeu comigo como se eu visse o mar pela primeira vez.

Empresto de Hilda Hilst

Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite 
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água 
Desejasse

Escapar da sua casa que é o rio,
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo 
Entendo que sou terra. Há tanto tempo 
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento. 


(do "Dez chamamentos ao amigo")

sábado, 8 de abril de 2017

Despreocupados

Eu lembro direitinho da primeira vez que eu quis casar com você. A gente estava no Camboja, bem no meio da viagem, e o guia turístico esqueceu de nos avisar que ficaríamos dois dias sem banho. Aquela noite a gente ia dormir numa vila de palafita com uma família local. Eu vestia um macacão curto e uma regata laranja e você uma bermuda cáqui e uma camisa da seleção. Durante o dia, totalmente despreocupados, fizemos tudo que tinha para fazer: andamos de charrete de madrugada para ver o nascer do sol, comemos um escorpião e partes de uma tarântula, atravessamos uma ponte mística e suamos toda a água do nosso corpo. Meu cabelo, que era super comprido, estava duro por causa do suor. O sol já estava se pondo quando o guia lembrou de nos avisar sobre o banho. A gente já devia ter imaginado que isso fosse acontecer porque aquela vila ficava no meio do nada e não tinha eletricidade, internet ou álcool gel. Eles nem sequer conheciam essas coisas. A seleção brasileira de futebol eles conheciam. Logo que o guia terminou de falar eu imediatamente senti o meu próprio cheiro e quis chorar um pouquinho. Olhei para o lado e você não estava mais ali: estava jogando futebol com as crianças da vila.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Sobre a velhice

Ando descobrindo muito sobre mim mesma nas coisas que escrevia sobre os outros nos meus diários. Outro dia eu li que estava de saco cheio de um certo namorado "velho de 29 anos" porque ele não gostava de guloseimas de supermercado. Eu escrevi que sempre amaria chocolates e salgadinhos de supermercado e que aquilo era velhice dele. Que triste. Hoje eu tenho 30 anos e detesto guloseimas de supermercado.

Nota sobre um namorado

Ele não soube me amar como um homem ama uma mulher, ele me amou como se ama um quadro na parede.

domingo, 2 de abril de 2017

Cacos (um poema antigo)

Três vidros quebraram na minha mão essa semana:
uma taça,
um pote,
uma janela.
Queria quebrar o vidro que te envolve.
- Ei, você me escuta agora?
E você, então, passaria a me ouvir.


quinta-feira, 23 de março de 2017

O Universo e o medo

Sempre que eu tenho medo, qualquer medo em qualquer situação, eu tento mentalizar o tamanho da Terra diante do Universo. O medo não some, mas ele fica proporcional a minha insignificância. 

segunda-feira, 20 de março de 2017

A alma do dente

No começo do ano eu precisei tratar o canal de um dente. É um processo dolorido, dá aflição, não é legal. Eu fiquei na sala de espera tentando entender como funcionaria, eu já tinha tratado canal outra vez mas fazia muito tempo e eu nunca perguntei como era. Quando o odontologista me chamou na sala, eu reparei que ele era um senhor de setenta e poucos anos, cheio de energia e até com um certo carinho. Ele pegou uma prótese gigante de um dente igual ao que eu iria tratar e começou a me explicar delicadamente como seria o processo. "Primeiro nós abrimos aqui, depois tiramos isso aqui. Imagina que o dente é um rio e que eu estou tirando toda a água do rio, todos os galhos, tudo. Se um dente tem alma, nós vamos extrair a alma do dente." Eu olhei pela janela do consultório e me lembrei de Sísifo. A especialidade daquele dentista é tratar canal. Todos os dias de cinco a dez pacientes vão no consultório dele para tirar a alma dos seus dentes infeccionados. Todos os dias ele pega uma prótese gigante do dente infeccionado e mostra para o paciente que o canal é como um rio. Sísifo foi condenado a levar uma pedra ao topo da montanha, mas toda vez quando chegava no topo a pedra rolava de volta para baixo. Depois de anos executando essa tarefa, provavelmente Sísifo entendeu que o que importava não era que a pedra fosse deixada no topo da montanha, mas como a pedra era levada: com mau humor, tristeza, resignação? Ou assobiando, cantando, batucando na pedra? Durante o meu procedimento, eu percebi que o meu dentista tratava canais com o cuidado que se tem ao lidar com uma alma, mesmo que de um dente. Todos os dias a pedra dele rolava de volta para o chão, mas dava pra ver que ele subia a montanha assobiando.

sábado, 18 de março de 2017

No último andar

Num domingo frio e cinza como hoje
ficaríamos os dois no último andar
com os pés gelados
e a janela aberta.
Você tentaria levantar,
mas eu te puxaria de volta.
Pensaríamos no dia, faríamos planos.
O dia, sem esperar que estivéssemos prontos,
iria passando sutilmente
pela janela do nosso quarto
no último andar.


terça-feira, 7 de março de 2017

Cinzas

Você já tentou pegar cinzas na mão? Não dá, elas se dissolvem nos dedos. Quando eu morrer, quero virar cinzas. Quero ser soprada no ar e virar vento. No máximo ser soprada no mar da Califórnia e virar onda para algum surfista pegar. Não quero ocupar espaço na Terra com um buraco e uma grande caixa de madeira. Para que guardar os meus ossos? Quem inventou isso de guardar ossos? Depois que a pessoa já virou vento, já foi embora para o Universo, por que guardar os seus ossos? Nosso planeta já está tão entulhado, tão saturado, tão dolorido. Quando eu morrer, quero ser cinzas.

sexta-feira, 3 de março de 2017

Sangue


Uma vez, quando eu tinha nove anos, o meu avô veio passar uns dias em casa. Eu não me lembro muito bem como foi essa estadia, mas me lembro que ele estava doente. Não lembro que doença ele tinha, mas lembro de vê-lo tossir muito. Uma vez, ele tinha acabado de sair do banheiro e eu entrei para buscar alguma coisa quando vi sangue no tapete e no chão. Eram pequenas gotas, algumas eram marrom. Fui dormir com um certo medo ou algum sentimento que eu não soube identificar. Uns dias depois, talvez semanas ou meses, eu acordei no meio da noite para ir ao banheiro. Olhei para baixo e vi a minha calcinha com uma mancha de sangue. Era uma mancha marrom igual ao sangue do meu avô. Entrei em pânico, pensei em morte e fui dormir achando que eu estava com a doença do vovô.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

After Rio

When in doubt, relax
when in doubt, take a deep breath
when in doubt, try to smile
when in doubt, stay patient
when in doubt, observe.
Observe how life has its own tricky ways to make things always work out. Observe that we are constantly changing with every tiny bit of information we receive. Observe how every single person in this Planet has their own struggle we know nothing about. Observe that each one of us is part of one single beautiful thing (maybe a miracle!) called life.

Os gatos

You use a lot the word "cat", he said. As I wonder he explained: cat is how you call those electricity wires that bring light to the favela. Cat is when you fix something with a material that wasn't meant for that. Cats are stamped in clothes, is the way you call a handsome guy. What is it that Brazilians have with cats?

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Dias ruins

Teve uma vez que você disse: "a casa é minha!". Fiquei horrorizada. Na verdade, eu sempre soube que a casa era nossa e nunca questionei isso - nem mesmo aquele dia. Só não gostei de ter ouvido de você e por isso não dormi em casa aquele dia. Eu sempre soube que o seu amor não estava nas suas palavras. Você me esmagava tanto. Nunca aceitava que eu dormisse sem estar devidamente aninhada no seu peito. Você perguntava do meu dia, me contava do seu, fazia comentários, perguntas. Você cuidava de mim. Eu sei do seu amor, meu amor. Eu sei que éramos casados. Eu sei que você me amou como soube. Os dias ruins - em todo esse tempo - foram dois. Esse que você disse que a casa era sua foi um. O outro foi quando os seus pais chegaram, bem vestidos, cheirosos, animados. Seu pai estava com um tênis novo, elegante como sempre. Sua mãe, impecável em um vestido creme e jóias. Eu vestia uma roupa de fazer ginástica e estava terminando de limpar a cozinha. Você, terminando de juntar os seus documentos. Abri a porta, cumprimentei os dois, comentei sobre o quanto eu tinha gostado do seu corte de cabelo, eles deram risada, nos abraçamos. A sua mãe entrou na nossa casa e disse: "vamos, filho?" e os dois te levaram para o aeroporto.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

No bonde

Não é todo mundo que tem coragem de se perguntar: "é isso?"
Eu tive. E não era.
Tirei o meu cinto, me levantei da cadeira e saí.
O bonde andando
me joguei pela janela.
Recobrei a consciência horas depois no meio do mato.
Me levantei e descobri que estava sozinha
no meio
do nada.


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

sinal

Quando você me der um pedaço de alguma coisa
quando você me der alguma coisa
quando você me der oi
quando você vier
se você vier
se você souber aonde vir
se você existir
me mande um sinal

Só não me resolva

Eu uso as suas camisas,
vejo as nossas séries,
como tudo que você gosta,
mas eu passo longe
das suas fotografias.

Não posso ver o seu rosto
porque esse rosto é também um abraço
e um corpo que eu conheço tão bem.

Ouvir a sua voz eu posso,
a sua voz está longe,
a sua voz é feita de ondas sonoras
- e não de você.

Eu vivo bem aqui, sem você,
só não me resolva aparecer.


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Trinta

Estar aqui, sem emprego, namorado, noivo, marido, companheiro, filho, dinheiro, profissão, carreira, casa, poupança, perspectiva a curto prazo - ou a longo - mas estar aqui, firme.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

A seguir

A loira de cabelos curtos me falou que eu tenho medo de alguém me desviar do meu sonho. Sonho, palavra tão caipira! Se alguém me desviar, que seja doce. Que seja belo, que seja bom. Que me desvie! Só me largue depois de um tempo: tenho um caminho a seguir.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

A nossa casa

Eu lembro da lareira nos dias de frio, do regador regando o passarinho no verão. Eu lembro das pizzas caseiras e da única vez que você fez sushi. Do dia dos namorados, quando você fez purê com salsicha à luz de velas e escreveu um cardápio em francês. Eu lembro das noites de filme, de vinho, de ensaio para a sua apresentação. Tiveram as noites que você dormiu no sofá, que a gente não se viu, que dormimos separados, mas todas essas eram exceções. A regra era eu e você entrelaçados. Teve a festa surpresa que sujou o chão por semanas, a festa de carnaval, a abertura da Olimpíada. A nossa casa tinha vida, tinha plantas por todos os lados, tinha luz, jardim, tinha obras de arte. A nossa casa tinha humor, jornal, gastronomia, água de coco, passeios de bike. A nossa casa tinha amor. Tinha eu e você, o que mais precisava ter?

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Estrofe

Na fumaça que eu exalo tem um pouco de morte,
mas eu gosto.
Enquanto você é o oposto,
eu danço.
Acontece, meu amor, que a vida só não me basta,
e eu logo me canso.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Maybe

I'm scared but curious,
I'm scared but willing,
I'm scared but I have a good feeling,
maybe I'm not scared,
maybe I'm excited.

sábado, 14 de janeiro de 2017

No carnaval

O carnaval está chegando
mais um carnaval
e eu não estou disposta.

Perdi a vontade no ano novo
quando tudo recomeçou
e eu não estou pronta.

Não quero ouvir as marchas
as danças, as pessoas se amando
no carnaval.

Esse ano eu não sei quem sou
- mais uma vez -
e preciso me encontrar.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Olho nu

Existem mudanças acontecendo 
- dentro e fora da gente -
a todo instante. 
Hoje é assim, amanhã não vai ser mais.
Algumas coisas parecem não mudar 
nem de um dia para o outro,
nem em cem mil anos.
Mas não se engane, meu bem:
tudo está sempre mudando
- o tempo todo.
Mesmo as coisas iguais, 
algo mudou nelas.
Elas são iguais, 
mas de alguma forma diferentes.
Nem tudo está a olho nu.

Risco

Será que essa distância foi feita para me deixar
tentar o mundo sozinha, ver se eu sou capaz,
me fazer andar com minhas próprias pernas
uma vez na vida?

Será que vai dar tempo de desfazer o nó?
Quando eu voltar, vencida na vida,
sorrindo, completa, será que vai dar tempo
de te encontrar?

Sem

Essa noite eu estou aqui, sem você,
ouvindo uma música que você gosta.
Eu poderia estar entrelaçada no seu peito,
sentindo a sua respiração como eu gostava de fazer,
mas eu estou aqui - nesse quarto sitiado -
pensando no seu cheiro,
imaginando o seu carinho,
naquela cama pequena,
naquele quarto no último andar.


quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Vovó

A vovó me mostrou que os mosquitos adoram pousar nela. Me mostrou como as uvas amadurecem e me mostrou quando dá pra colher ou é melhor esperar. Ela me mostrou as pitangas boas, mas não quis provar nenhuma. Pegamos manga, até algumas com bichinhos, e castanhas. Demoramos umas boas horas entre dar comida ao passarinhos, olhar o jardim e colher as frutas. Fomos vendo as minhocas, as plantas que cresceram, o portão que ficou aberto. A vovó é um barato! Faz piada atrás de piada, esquece e lembra, pergunta e dá risada. Vovó viveu tanta coisa, teve tantas vidas numa só. Agora ela tá tranquilona, regando as plantinhas, colhendo frutas, vendo os passarinhos e assistindo tevê. Adora receber visitas e adora mais ainda quando a visita aceita tomar um cafezinho. Vó, acho que os mosquitos pousam na senhora porque o seu sangue é docinho, docinho.

sábado, 7 de janeiro de 2017

História de amor

Eu vivi uma história de amor.
Teve frio na barriga,
coisa do destino,
viagem pro outro lado do mundo.
Teve fogos de artifício,
biribinha,
Ibiúna.
Teve refúgio no mar,
festa na praia,
no campo,
na cama.
Na minha história de amor
teve príncipe de cavalo branco
sem o cavalo,
mas ele era um príncipe
- o meu.
Na minha festa de amor,
teve muita história,
coincidências,
tosse, falta de ar, lençol rasgado.
Teve o bafo da manhã,
amor de manhã,
sempre amor.
Teve casa com jardim,
jardinagem,
rede de deitar.
Teve muitos pássaros
e um em especial.
Teve lua de mel várias vezes,
mel e geléia,
pizza caseira.
Teve piadinhas, tantas piadinhas,
gargalhadas.
Teve palavrão,
palavrinha
e silêncio.
Teve doença e saúde,
triatlon,
cinema no domingo.
A minha história de amor
filme nenhum chega perto:
foi real de carne e osso.
Foi conto de fadas,
amor dos sonhos.
Eu fui cinderella, bela adormecida,
rapunzel e branca de neve.
Ele me salvou da minha vida,
e me deu a dele.
Nos amamos como se pode amar
tanto, tanto, tanto.
Dá vontade de chorar
e alegria de pensar.
De tudo que ele me deu,
a coisa mais linda
foi toda a poesia que a gente viveu.


sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Pronta

Quando todo mundo me pergunta
se estou pronta:
Não.

Eu acabei de chegar,
eu preciso aprender,
eu não.

Eu não tenho nada certo na cabeça,
eu morro de medo de tudo
não não não.

Nem adianta explicar
pronta para quê.
É que
eu não estou pronta pra nada.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

A onda

Eu voltei, mas tive que deixar uma mala de coisas lá. Uma parte de mim também ficou dentro daquela mala. Uma parte de mim que não se sentia pronta, que tinha medo, que deixava a onda sempre me levar. O restante de mim que voltou nunca mais vai deixar onda nenhuma me levar. Agora eu quero é ser a onda.

sábado, 31 de dezembro de 2016

In the old house

I said goodbye
you stood there
looking at me
wondering why

Why, my love?
When we moved out
of our old house
all the love I had
didn't come along.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Então

Antes eu te via descendo as escadas
ou no pé da escada
ou caminhando ou dirigindo
eu te achava lindo

Você mudou meu amor
você ficou melhor
mas eu não sei mais
se vou ou se fico
se quero ou se não

Então.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Now

I changed a lot since I got in this place and one of the things that changed is that I now love cough drops.


quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

To ask

What did you feel? How was it for you? Did you like it? Would you repeat it?
What went wrong?

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Pulsando

Hoje eu reparei que quando os vizinhos de cima fazem amor, o ritmo que eu ouço através das paredes é sempre igual - parece um coração pulsando. Estamos todos pulsando, o tempo todo.

Na hora

Você ficou 
em outra dimensão 
da minha vida,
mas eu sei que 
quando for a hora 
a minha dimensão
vai encontrar 
com a sua.

domingo, 23 de outubro de 2016

Quem

Quem é esse homem
que me quer a vida toda
só pra ele?

Quem ele pensa que é
pra me levar de toda gente
desse mundo tão gigante?

Com esse tempo tão finito
que eu tenho por aqui
me diz, meu deus, agora:
quem é esse homem?

Finally

Now that I am here, 
that I am seeing things from a different perspective, 
that I am free from any jobs that take away all of my energy, 
that I am finding out who I really am, 
that I am finding things out, 
that I am able to see things clearer, 
now that everything is exactly the way everything is, 
I can finally be myself. 

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Definir

Agora, neste exato momento, você é apenas parte - e uma parte enorme - do meu passado. E não é por causa dos oceanos, continentes ou horários. É por causa das nossas almas: no meu tempo presente eu não vejo você, eu não escuto você, eu não sinto você. As nossas almas não estão em contato, e eu repito: não é por causa dos oceanos. O que nos separa eu não posso dizer. Eu não sei dizer o que é. Talvez seja o ar da Califórnia, a água, a forma como o sol reflete no chão e na pele ou a forma como eu consigo usar as palavras nessa língua. Existe algo aqui, meu amor, e eu não sei definir o que é.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Eu sei bem

Eu não sinto a sua falta,
porque falta não me faz
o seu beijo,
o seu cheiro,
nós dois no domingo.
Nós não conversamos mais,
não nos conhecemos mais,
e eu sei bem
a falta que você me faz.

Para Alex

Quem sabe você, dentro da sua concha como um bichinho do mar, consegue olhar um pouco para fora e observar as pedrinhas que as ondas levam. Essas pedrinhas, meu amor, se chamam areia. Se você puder sair um pouco da concha para passear entre elas, você vai perceber que há tantos anos elas são a sua casa.

domingo, 2 de outubro de 2016

Um abismo

Tudo isso para tão pouco, 
talvez pior do que pouco,
talvez pior do que nada. 

Tudo isso para um abismo.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Medo

Existem centenas de tipos de medo - todos eles paralisam.
Medo de falhar, de perder, do escuro.
Medo do desconhecido, da solidão, de inseto.
Medo de morrer, de cair, se cortar. 
O medo breca, sufoca, ensurdece.
O medo é um muro,
que pode impedir um sonho
ou um afogamento.

15 horas

Quinze horas nos separam. Quinze suspiros, quinze ondas quebrando, quinze pássaros voando para o sul. Quinze milhões de quilômetros, quinze batimentos cardíacos, quinze perguntas sem resposta. O que quer dizer o número quinze? O que são as horas? Aqui sempre vai ser dia quando aí for noite. Aqui sempre vai estar escuro quando aí estiver claro. Quando eu voltar para casa você vai estar indo para outro lugar e outro e depois outro. O que são quinze horas diante do infinito?

Moedinhas

Os americanos contam os centavos - até as moedas de um centavo. No Brasil essas moedas entraram em extinção. Para nós era uma mesquinharia e ninguém tinha paciência com elas. Talvez os americanos estejam certos, não foram eles que inventaram o capitalismo?

sábado, 3 de setembro de 2016

Chegada

Cheguei numa casa pequena, com uma fachada suja e cheia de plantas e temperos crescendo desordenadamente. O cheiro era de salsinha ou cebolinha ou alecrim. Bati na porta e esperei. Eu tinha chegado 5 horas antes que o combinado, então não quis insistir. Sentei na soleira da porta e no primeiro barulho que ouvi vindo de dentro eu bati de novo. Ela abriu. Uma garota nos seus trinta e poucos anos completamente descabelada, com uma tiara de orelhas de gatinho, magra vara-pau tipo ex-moradora da cracolândia. Me mostrou o quarto, o único lugar arrumado da casa e pediu perdão pela bagunça - ela não imaginou que eu chegaria tão cedo. Não era só bagunça, era caos. A casa lembrava muito a da minha vó, só que caótica. Móveis coloridos, coisas em todos os cantos. A bagunça era tanta que eu senti uma urgência em sair logo dali. Não me sentia cansada, mesmo depois de tantas horas de vôo. Troquei a roupa pesada de aeroporto por um vestido soltinho, a bota por uma rasteirinha e saí para caminhar e conhecer as redondezas. Parei na 7-eleven, comprei uma água. Ao perceber que não tinha nada nas redondezas, resolvi ir até a escola para aprender a distância e conhecer o lugar, sem saber que eu iria caminhar por mais de uma hora. Ao chegar na escola, pedi pela coordenadora brasileira que estava me ajudando com o processo. Sentei no sofá que me indicaram e esperei. Como ela nunca apareceu, fui pedir ajuda do pessoal do Housing Dpto para achar uma casa. I have to get out of where I am immediatelly, please help. Preenchi um papel e esperei. Desisti da coordenadora que nunca apareceu e fui atrás de conseguir um número de celular americano. Nesse momento o único brasileiro que eu conhecia nessa cidade apareceu para tomarmos um café. No primeiro gole já percebi que se tratava de um narcisista. Eu não o conhecia muito bem. Conversamos, ele me falou da cidade, da loucura, da necessidade de se ter um carro. Depois me deixou em casa, que nesse momento já estava menos caótica, e eu dormi por nove horas seguidas. O fuso bateu.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

This is why I left

At that moment when you told me something important to you - something very sad - you stared at me with your blue eyes and started to cry. I felt as if I was responsible for you. I felt as if I needed to hug you and love you forever. This is why I left.


terça-feira, 26 de julho de 2016

Excel

Tenho vontade de tacar uma bomba nas suas planilhas de excel. Toda sua vida cabe em planilhas e você ainda tira sarro que eu não sei mexer nelas. Por favor, não vá, não me deixe. Será que você não vê que eu não vou saber viver sem as suas planilhas me organizando?

Roupas no chão

As suas roupas separadas em cima do sofá me fizeram chorar profundamente. Chorei por horas a fio enquanto pegava as camisas polo que você usa todos os dias e cheirava. Esse seu cheiro como ele é hoje, eu nunca mais vou sentir. A casa aos poucos vai ficando vazia das nossas coisas. Já tirei os meus livros e sapatos, você já tirou casacos e alguns quadros. Essa casa, esse seu cheiro, essa etapa da nossa vida, tudo isso está sendo deixado para trás. Uma despedida como essa para uma pessoa como eu, é de partir o coração em mil, esmigalhar, dar perda total. Acho engraçado o quanto nossas diferenças se destacam agora. Você encara isso tudo tão tranquilamente, com um pouco de ansiedade até, e eu só choro. Tenho tanto medo de sair dessa imensa zona de conforto que é minha vida agora. Tenho tanto medo de nunca mais encontrar um conforto como esse. Espero que você chegue tarde em casa hoje e não veja que eu espalhei todas suas roupas no chão, como se esse gesto infantil pudesse atrasar de alguma forma a nossa despedida.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Beijo

Sinto falta de um beijo. Um beijo que começa no disparar do coração, na respiração ofegante e em outros sintomas do prazer. Esse beijo que ensaia muito antes de chegar, que passa lentamente pelos olhos, que examina a boca a ser beijada e se surge beijo devagar. Um beijo com um gosto, um gosto que não importa. Um gosto de língua, uma textura de língua, uma língua. Sinto falta de estudar os movimentos da língua que experimenta a minha. De sentir com as minhas mãos o rosto que carrega aquele beijo, sinto falta de um rosto. Um rosto num corpo que amassa o meu, e me beija como se um meteoro estivesse prestes a atingir a Terra. Um beijo de muito tempo, de dar êxtase seguido de uma calmaria alienante. Um beijo antigo como qualquer outro, desde que o primeiro homem vislumbrou os lábios da mulher amada e entendeu.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Madrugada

É madrugada em Budapest, e o homem que tem medo de altura dorme. Aquele homem, que veio do lado esquerdo da Meca, agora sonha. Com o que você sonha, homem-pássaro? Será com a mente humana, com os seus pecados, será com a morte? Sabe, beija-flor, você não precisa se preocupar tanto com o que pensam de você, são só três ou quatro pessoas que realmente sabem de você. Só elas podem te ajudar de alguma forma. O resto, todo o resto, só serve para te julgar, igual você julga o que lê no Guardian de manhã.

Três tempos

A peste do tempo 
saiu correndo
e em três segundos
levou você.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Uma palavra

Certeza é uma palavra
que eu não posso falar,
porque para falar
a gente precisa possuir
cada letra
de cada palavra.
Eu não posso possuir
nada de certeza,
nem uma letra.
Certeza nenhuma
cabe na minha boca.

Talento

Será que é verdade que cada um de nós tem algum tipo de talento? Ou será que algumas pessoas não tem talento nenhum, apenas acham que tem? Como é que vou um dia saber se tenho talento ou não em alguma coisa? Como faço para saber que, entre as coisas que gosto de fazer, é naquela determinada que eu tenho talento? Se eu não tiver nenhum talento em nada, como faço para saber? E para me esconder? Como faço para não continuar fazendo o que eu gosto e enchendo o ouvido das pessoas de algo que eu não tenho talento? É possível viver uma vida inteira sem descobrir um talento?

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Recado

Eu não sei o quanto se pode ser direto em uma poesia, e se por acaso não puder ser nem um pouco, vou falar baixinho, discreto, direto a você: devo te esperar? E se eu, sem querer, deixar a minha vida passar esperando? Acho que os perseguidores de pessoas diretas em poesias estão chegando, preciso ir, mas guarde o meu recado e pense, meu amor. Devo te esperar?

Adeus, agora

Meu bem, será que você não vê 
que o agora está acabando?
Indo embora, dizendo adeus?
Entrando no avião com todas as suas coisas e decolando?
Você não vê, meu bem, que você ficará aqui no chão,
acenando para a sombra de um avião 
que você viu passar?
"Adeus, agora!" você poderia gritar.  

terça-feira, 5 de julho de 2016

Enquanto

O que quero dizer, meu bem
é que enquanto eu estiver aqui,
não saberei dizer jamais
onde é que eu preferia estar.

sábado, 2 de julho de 2016

trecho

Ontem à noite, enquanto você dizia que não tinha certeza, que não via propósito, eu senti algo estranho dentro de mim. Senti um veludo lúgubre cobrir o meu coração. Precisava tanto chorar, mas no cuidado de tentar ser forte, não chorei. Minhas lágrimas estão aqui nesse trecho que escrevo enquanto você segue em frente fazendo as suas coisas.

Isso

Você me ligou hoje para dizer que fazia sol,
"vem aqui comigo!" - você disse.
Eu não fui.
Eu fiquei em casa, arrumando a cama,
fazendo os meus rituais.
O dia foi passando, hora por hora.
O sol lá do alto foi descendo,
descendo e indo embora.
Você também vai embora,
entenda.
Eu preciso aprender a me acostumar 
com isso. 

No fim

Quando eu chegar no fim da vida,
e estiver velhinha na minha cadeira,
fazendo tricô,
será que eu vou conseguir finalmente
entender a sua decisão?

Rasgos

A gente costumava rasgar os lençóis. Escondíamos os lençóis no meio da roupa pra lavar, constrangidos. Orgulhosos, nos olhávamos e ríamos um para o outro da nossa conquista.

terça-feira, 28 de junho de 2016

plim

Há um momento
um exato momento
um instante
um segundo
um milésimo
um click
um plim
pequeno
minúsculo
quase invisível
imperceptível
assim desse tamanho.
Nesse momento, instante, segundo,
um olhar pode virar
a mesa.


Eu nunca saberei

Quando eu decidi pela estrada de terra,
ninguém entendeu
que tanto faz:
se eu escolher um lado
- e não o outro,
não importa o que acontecer,
eu nunca saberei como seria
se eu tivesse escolhido
o outro lado.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Tarja preta

Era uma noite fria, mas não tinha nada para comer em casa então a Ana e o Lucas decidiram sair para comer. Até dava pra fritar um ovo e fazer um viradão com o arroz de ontem, mas eles iam precisar lavar as panelas e fazia muito frio para lidar com água. Lavar na máquina? Nem pensar, a Ana era muito cheia de frescura e dizia que a máquina não lavava direito. Pedir comida? Ia demorar muito. Os dois pegaram os casacos mais quentinhos, cachecóis, luvas e foram a pé. As ruas estavam quase vazias e todas as janelas das casas pareciam quentinhas por dentro. Os dois sentiam uma pontinha de arrependimento de terem saído de casa, mas precisavam comer. A fome só aumentava. Para a sorte deles, quando chegaram no restaurante não tinha mais ninguém e eles puderam sentar na mesa preferida deles: uma bem no cantinho de onde dava para ver a cozinha. Acharam estranho o silêncio e o vazio, mas faltava pouco para o restaurante fechar, então fizeram logo o pedido e esperaram. 
O cozinheiro, um homem depressivo de 42 anos, estava trabalhando desde às 9h da manhã sem parar porque toda a equipe do restaurante tinha pegado um vírus e faltado naquele dia. Era só ele e a garçonete, Maria. Antes de sair de casa ele deveria ter tomado o remédio tarja preta que lhe aliviaria a vontade de morrer, só que como ele foi pego no susto com a ligação da Maria, não tomou e saiu de casa correndo. Tudo deu certo até lá pelas três da tarde, quando a vontade que Marco, o cozinheiro, sentia de morrer começou a crescer e ficar maior que ele. O jeito era beber. Bebeu o suficiente para continuar fazendo o seu trabalho sem pensar. Ele conseguiu levar o dia, metade bêbado, metade concentrado no trabalho. Fez todos os pratos, errou uma coisa ou outra, eles não estavam tão caprichados como num dia normal, mas nenhum cliente reclamou por escrito, nada que prejudicasse o restaurante. O dono, quando voltasse de viagem, não ia notar nada diferente. Agora à noite, às vésperas de ir embora, a concentração era quase nenhuma, o cansaço era muito e faltava pouco para acabar. Então ele relaxou. Quando viu um rato atravessar a cozinha, ele já estava terminando o último prato e estava de saco cheio. Não teve dúvidas: com o facão de cortar carne foi em direção ao bicho e num golpe só dividiu o bichinho ao meio. Pegou um saco preto e tacou em cima do bicho pra não ter que ficar olhando para ele. Foi até a pia, deixou a faca na água corrente e pegou outra para continuar cozinhando. Quando ele virou para tirar o arroz do fogo, reparou no vidro que dá para o salão do restaurante e os seus olhos cruzaram com os olhos dos dois clientes boquiabertos. 

terça-feira, 7 de junho de 2016

Nada

Eu não sei por que eu respondo isso. Não sei mesmo. Já pensei que pudesse ser por insegurança, mas não pode ser. Já pensei em preguiça, em dúvida, em algum medo. Não, não, não. Nada disso. Sempre que o meu marido me diz: "amo você" (nunca "eu te amo" porque ele acha brega), eu digo: "ama nada". Por que diabos eu respondo isso? Eu acredito no amor dele, eu sei que ele está lá, eu não tenho medo ou qualquer coisa. Hoje, enquanto eu descia as escadas rolantes do shopping depois do almoço com meu pai, ele - o meu pai - me deu a resposta. Durante o almoço eu e ele havíamos conversado sobre o quanto somos parecidos e nossa conversa havia sido ótima, mas naquele momento, enquanto descíamos as escadas, eu disse a ele: "eu tava com saudades, pai." ele respondeu: "tava nada".

domingo, 5 de junho de 2016

Desconhecido

Eu quero deixar claro ao mundo que eu não sou corajosa. Estou saindo de um lugar que ia acabar me matando, estou indo porque as circunstâncias me obrigaram a tomar decisões imediatas, estou indo porque o destino arrancou as minhas mãos do modo automático e me levou.

Escapatória

Talvez eu tenha um pouco de medo dessa minha casa à noite, sem você. Eu às vezes tenho medo de estar exposta demais ao mundo aqui nessa pequena casa, com essa escuridão que faz lá fora, no Universo à noite. Milhares de coisas podem acontecer, como um sonho invadir a minha casa armado, me obrigando a seguí-lo, como já aconteceu comigo antes. Eu posso gritar, espernear, mas eu vou seguí-lo, não importa quão tarde seja ou quão perigoso possa parecer.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Não estarei aqui

E se eu falhar,
se nada der certo,
se eu quase morrer,
de tanto sofrer
por um erro qualquer,
um erro de matar,
o que poderia acontecer?
Eu não vou morrer,
e se por acaso acontecer,
Não estarei aqui para ver.

Ana B. - Parte 1

Uma mulher de quarenta e poucos anos. Magra, altura mediana, boas roupas. Alguém a encontrou caída no chão de um apartamento, morta. Não tinha ninguém no mundo e morreu de câncer, aparentemente nunca diagnosticado. De acordo com as leis do meu trabalho, eu tinha setenta e duas horas para anotar absolutamente tudo que eu via ali dentro. Tapete de boas-vindas bem-humorado, flores mortas, peças de madeira. Maçaneta de porcelana. Casa com cheiro de flores e mofo. O primeiro porta-retratos que encontro é ela na foto. Com as costas nuas, de perfil, cabelo do rosto. A mulher mais linda que eu já tinha visto na vida. Livros, discos, quadros. Rede de balanço, geladeira, tapetes. Uma solidão infinita. Nem um sinal de namorado, amigo, parente. Comecei a pensar se era solitária porque era linda demais. Se era linda demais porque só dormia, ao estilo Bela Adormecida. Entrei no quarto. Luminárias, criado-mudo, comprimidos. Espelho, espelho, penteadeira. Jóias, bijuterias, presilhas de cabelo. Solidão. Batom, rímel, esmaltes. Quem seria ela? Quem seria a mulher mais bonita que eu já havia visto? Teria se apaixonado, namorado, trabalhado? Encontrei uma gaveta cheia de cadernos, lotada. Passei setenta e uma horas lendo a história de Ana B.

Global goodbye

I am sorry to let you down,
but I am going to let you go.
- Goodbye.
I do not love you anymore.
It has been a while, actually.
Thank you for letting me stay for so long
and you are welcome that I have worked so hard.
You have taught me many lessons,
and you made me used them with you.
Now I have to be somewhere else,
doing very silly things such as:
following dreams.

Segunda noite

Coloquei dois travesseiros no seu lugar da cama. 
Eles estão ocupando totalmente o seu espaço,
e você já nem faz falta. 
Esta é a segunda noite e eu já superei você. 

sexta-feira, 27 de maio de 2016

O postal

Em Paris existe um museu absolutamente encantador chamado Centre Pompideu. Sou fascinada por ele e pela loja dele também. Na loja eles vendem caderninhos de todos os tipos, invenções, coisas de madeira, postais, livros, pinturas, artes, bugigangas de todos os tipos, milhares de coisinhas. Mas é na sessão de postais que eu passo mais tempo. Quero comprar todos os postais e fazer quadrinhos com eles. Passo horas olhando para cada um e pensando para quem eu daria qual postal, nas histórias de cada artista que fez cada postal, na minha vida, na arte, em Deus, me perco em cada um deles. São infinitos. Um dia eu estava na parte dos postais de fotografia, quando eu fixei os olhos em um e me apaixonei completamente. Era uma fotografia em branco e preto de uma cama simples com um casal sentadinho na ponta. A garota vestia uma blusa preta, encarava a máquina com um sorriso quase imperceptível e abraçava o menino de costas. Ele vestia um terno e sorria profundamente. Na parte de baixo da borda da foto havia um texto à mão assinado por um rapaz dizendo: “Esta fotografia é minha prova. Teve aquela tarde quando as coisas ainda estavam bem entre nós, ela me abraçava e nós éramos tão felizes. Isso aconteceu. Ela me amou. Veja por você mesmo.” Meu coração disparou e eu comprei o postal imediatamente. Ele me emocionava tanto que de repente já fazia parte de mim. Uns meses depois era natal. Eu mandei fazer um quadrinho com o postal para dar para o meu namorado. Ele não era sensível, mas algumas coisas ele entendia bem e aquele quadrinho era doce demais para passar despercebido. Mostrei para minha mãe com a certeza de que ela ia gostar. Ela olhou para o postal, fez cara de susto e foi para o armário mexer com caixas antigas. Voltou um tempo depois e disse: “Veja filha, em 1981 o seu pai foi viajar para os Estados Unidos e mandou esse mesmo postal para mim.” Eu não pude acreditar. Peguei o postal na mão e atrás dizia “saudade” com a assinatura do meu pai.

Presos na nossa garganta

Hoje eu conversei com alguém sobre você, sobre te amar e estar perdida, sobre te amar e ter dúvidas e não saber, e te amar. Enquanto eu falava, tive vontade de chorar. Precisei levantar da mesa, engolir e fingir que queria beber água. Quando senti que minhas lágrimas não estavam mais presas na minha garganta, recuperei a fala e disse que tudo ficaria bem. A gente sempre fala para os outros que tudo ficará bem, os outros são outros, eles não estão presos na nossa garganta.

domingo, 22 de maio de 2016

Um instante

Era um dia muito quente. Meio de semana, horário de pico, ônibus lotado. Um pai de meia idade voltava para casa levando a filhinha de uns seis anos pela mão. Ele estava exausto. Tinha passado o dia procurando trabalho no centro da cidade, batendo em todas as portas com a filha ao lado ouvindo sempre "não". Os dois finalmente iam voltar para casa. Então, quando já estavam no terceiro e último ônibus, a menininha passou a puxar a camisa do pai. O pai limpava o suor na testa e não queria encarar a filha depois de tanta derrota, por isso ignorava os puxões. Quando a menininha gritou alto: "papai!", ele precisou olhar para ela. Ela então sorriu, apontou para o adesivo indicando para quem eram reservados os assentos preferenciais, e disse: "Qual desses quatro bonequinhos você quer ser? O sentado nessa cadeira com rodas, a mamãe com a filhinha, o velhinho de bengala ou a gordinha? Eu quero ser a mamãe com filhinha!"

Ele

Eu decidi partir num dia de calor qualquer do mês de março. Eu tinha voltado de férias e estava deslumbrada com a vida que existia lá fora. Então resolvi explorar melhor o resto do mundo. Ele também estava partindo, ia estudar fora. Ele parecia não se dar conta, ou não se importar, ou não perceber o que estava por vir. Eu percebia e pensava nisso a cada segundo, a cada milésimo de segundo da minha vida naquele momento. Não tinha outro assunto na minha cabeça. Eu, que sou uma pessoa que adora fazer uma faxina, não conseguia pensar em outra coisa nem na hora de fazer faxina. Como seria a vida sem ele? Como seria dormir, acordar, almoçar, ver tv, jantar sem ele por perto? Achava engraçado como todo mundo fingia que estava tudo bem naquela separação. "Tudo bem, vocês vão se reencontrar." Bom, eu fui, ele foi, e passamos a viver separados por um tempo. Eu morava em uma casinha modesta no sexto andar. Dividia a casa com outras pessoas que não entendiam por que eu havia me separado depois de tanto tempo namorando. Naquela época, naquele país, eu estudava cinema. Eu não tinha dinheiro para fazer muita coisa, então saia da escola e ia direto para casa. Um certo dia eu resolvi comer alguma coisa fora com a turma da sala. Um homem sentou-se do meu lado. Esse homem é o seu avô, querida.

terça-feira, 17 de maio de 2016

A Caixa


Meu pai levantou da mesa e sumiu no corredor.
Teria se entediado da conversa? Não sei. Esperei.
Papai voltou com um sorriso malicioso no rosto.
Ele segurava uma caixa.
Abriu a caixa e tirou de dentro uma arma pesada.
"É de chumbinho. Vamos brincar de atirar nas folhas?"


sexta-feira, 13 de maio de 2016

Passei

Não consigo pensar em você sem uma pontinha de tristeza: sou a mulher que passou, e você deixou passar. Sei que ainda não passei, que estou aqui agora, mas às vezes me parece tarde demais. Às vezes eu sinto que você me deixou passar.
Eu desconsidero 
quando considero
tarde demais.

Sem sorriso

Quando eu te vi passando por mim, eu secretamente sabia que você era triste. Você estava saindo da livraria e eu entrando nela. Você me olhou sem saber quem eu era e eu também te olhei, mas eu sabia. Você, colunista de jornal, herdeiro de livraria, um homem triste. Pensei na mulher que te deixou alegando tristeza demais. Pensei se a sua tristeza seria interessante ou só triste. Se eu conseguiria fazer a minha tristeza se comunicar com a sua. Pensei se você, do seu jeito cabisbaixo, me ensinaria coisas fascinantes que você leu nos livros. Pensei em nós dois excluídos do mundo, lendo nossos livros e escrevendo poesia. Eu pensei em milhares de coisas naqueles segundos que eu te vi me olhando. Gosto de pessoas tristes.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Sobre um sonho

   Eu estava em um carro, o meu talvez, com alguma amiga minha. Estávamos indo para a casa dos meus pais, que talvez naquele sonho fosse a minha casa. Ao chegar na portaria, lembro dos guardas, e lembro de eu, de repente, me dar conta de que estava sem alguma coisa, algo me faltava. Então eu e a amiga fizemos a volta e, bem coisa de sonho, surgimos do nada dentro de um avião. Para onde aquele avião estaria indo, eu me perguntava. Minha amiga também não sabia. Era um avião diferente, eu não precisaria ficar sentada durante o vôo, tinham vários lugares para ir ali dentro. E nessa hora, com uma consciência estranha de alguém que sabe que aquilo é um sonho, eu fiquei tentando calcular aonde estava indo o avião, descartei os Estados Unidos – porque ainda não era hora de ir para os Estados Unidos, mas precisava ser algum lugar perto. Perguntei para a aeromoça para onde íamos e com a maior naturalidade ela respondeu: "Para o Canadá." Para o Canadá? Que diabos eu estava indo fazer no Canadá? Senti uma urgência em ligar para o meu namorado para avisá-lo de que eu tinha entrado por engano em um avião indo para o Canadá. Ele, com a maior naturalidade, disse: "Canadá? Bem sua cara mesmo isso de entrar no avião errado." Eu suspirei aliviada pensando que ele agora sabia que eu ficaria offline por onze horas até o Canadá. E pelo menos a gente estava no mesmo continente. Quando então eu começaria a relaxar no avião-cruzeiro, eu acordei.


Resposta

Achei bonito você correr atrás de aula disso e daquilo e consertos e largar o cigarro e tentar colocar as coisas no lugar. Tão bom pra você....