sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Viela, montanha, isolamento

Por que desviei?
Por que não observei,
por que não ouvi o seu chamado?

Em que viela, montanha, isolamento
eu estava?

Quando você aparecia (do nada),
quando você me alimentava (de poesia),
onde é que eu estava?

Por outro lado,
se vivemos num eterno retorno,
em que viela, montanha, isolamento
está você agora?


sexta-feira, 28 de julho de 2017

O assalto

Ontem eu vi um assalto, ou segundos depois de um assalto numa praça. Eram dez horas da noite e a praça me parecia bem iluminada. De um lado eu vi a vítima, um rapaz gordinho com uma camiseta amarela de ginástica colada no corpo e uma menina que não consegui perceber bem. O rapaz era moreno e tinha um cavanhaque. O bigode me chamou mais atenção do que a rala barba. Ele usava óculos de grau e capacete. Segurava a bicicleta com a mão direita e tinha o braço esquerdo jogado do lado do corpo no maior ar de derrota que eu já vi na frente. Ele fitava fixamente o assaltante indo embora e enfiando a carteira roubada no bolso. Do outro lado da minha visão tinha o assaltante. Ele passou perto do meu carro e eu achei que tinha visto uma arma no seu bolso. Tinha o corpo de no máximo vinte anos. Era magro, negro e vestia um moletom branco de gorrinho, com o gorrinho escondendo o rosto. Vestia um boné de aba reta também. Acho que estava de bermuda e chinelo, mas isso eu não tenho certeza se inventei, em todo caso a bermuda era preta. Aquela cena formou um quadro na minha memória cujo ponto central é a cara de impotência e fracasso do gordinho de bicicleta.

O Homem e Os Cachorros

(Baseado na pintura do Diógenes de Jean-León Gerome)

Aconteceu tão rápido e de forma tão misteriosa que eu nunca consegui entender direito aquele dia. Nós estávamos fugindo de um homem gordo que nos perseguia porque a gente tinha roubado carne do açougue dele. Corríamos apavorados, quase sem fôlego. De repente, eu tropecei numa estranha lamparina reluzente que estava no chão e machuquei a minha pata traseira. Todos os meus amigos viram o que aconteceu e pararam para latir. O homem gordo já tinha ficado quilômetros para trás. Com a pata sangrando, eu dei um coice na lamparina e reparei que ela se movia por conta própria. Dentro dela saiu uma faísca luminosa que em segundos entrou pela minha boca e me tomou por inteiro. Senti um fogo tomando conta de mim e uma sensação estranha misturada com enjôo, estafa e vontade de vomitar. Foi então que meu corpo começou a se transformar. Comecei a ficar cada vez maior, sem pelos, com pele de gente, braços, pernas. Meus amigos ficaram boquiabertos, sem conseguir nem uivar. Foi assim que no meio da praça, sem que nenhum ser humano notasse, eu, um pulguento cão vira-lata, me vi transformado num homem musculoso e barbudo. Sem nunca conseguir me adaptar a dieta humana e sentindo sempre vontade de cheirar o traseiro dos outros, passei o resto da vida tentando consertar a lamparina e desfazer aquele maldito feitiço.

sábado, 22 de julho de 2017

Cadáver

Hoje eu sou apenas um cadáver
com órgãos funcionando bem.
Quero encostar num banco de praça
e me deixar morrer.
Só que até isso exige uma força,
um adeus, alguma coisa
e eu não tenho mais nada.



sexta-feira, 7 de julho de 2017

terça-feira, 4 de julho de 2017

Quem sou 2.doc

Eu viro os olhos.
É a décima vez que escuto hoje:
- Claro, Clara.
As pessoas dizem isso e dão risada.

Para algumas pessoas
só à clara de ovo.
Para mim, Clara remete a luz,
a brilho, a sol.

Sou clara de pele e de nome.
Estou sempre atrasada,
rôo as unhas e as tampas das canetas.

Ando depressa demais,
às vezes mais do que a mente:
não sou clara de pensamento.

Meu nome é Clara,
mas eu não sei dizer ao certo
clara de quê.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Lixo

As pessoas acham poesia uma coisa tão babaca
sem propósito
lixo

Eu faço poesia na minha cabeça
enquanto observo as pessoas

Enfio a mão no lixo
e encontro consolo
para minha solidão.


Eu sei

Você me colocou em cima de uma prancha
e me empurrou para o mar
com um sorriso no rosto, desses de foto 
caminhamos na areia
falamos de riqueza, de vida, de amor
todas as nossas coisas
cheiravam a mexerica
você fez poucas piadas 
mas em todas eu ri
eu gostava de olhar para você
e você olhava pra mim 
como se eu soubesse de alguma coisa
(talvez eu saiba)



terça-feira, 13 de junho de 2017

Ar

Eu li um poema sobre as partículas de ar que nos cercam e não consigo parar de pensar nelas. O poema falava sobre como coloridas e lindas e esquisitas elas podem ser. Trafegam por esse ar seres totalmente desconhecidos, quase como as criaturas que habitam a maior das profundezas do mais longínquo dos oceanos. Eu penso nisso o tempo todo agora. Fico imaginando como podem ser essas partículas de ar, o que fazem, se precisaria de uma luz super especial para vê-las. Agora eu também penso que elas talvez reagiram de alguma forma, talvez fizeram um desenho estranho no ar, quando nós dois nos conhecemos.

Trauma de infância

Ela chamava Lia. Era bem pequena e loira, tinha pernas compridas cor-de-rosa e um corpo todo mole. Eu adorava bater papo com ela - e ficar esticando o seu corpo. Falávamos de vários assuntos como, por exemplo, os garotos da escola. Eu ficava super decepcionada que ela nunca me respondia. Um dia eu cansei de falar sozinha e decidi que ia apelar para feitiçaria. Algo ia fazer a minha boneca misteriosamente falar. A primeira coisa que eu resolvi tentar foi pedir para a lua. À noite eu deixei a Lia do lado de fora da varanda, para que a lua tivesse privacidade ao fazer o encanto, e pedi sem muita conversa nem reza. Disse: "Lua, quebra esse galho pra mim, faz a Lia falar comigo, eu quero tanto!" e fui dormir. Quando eu acordei, a Lia estava sentada na janela me olhando de uma forma atrevida. Achei graça e fui buscá-la na janela. Perguntei alto pra mim mesma: "E aí, Lia, vai ou não vai falar?" Ela continuou muda e ficou me encarando até soltar: "Olha, querida, eu só falo com você se você parar de falar desse tal de Fabinho, não me interessa o que ele levou de lanche no recreio, porra!"

quinta-feira, 8 de junho de 2017

ímãs

Por que Deus não fez mais fácil:
pessoas como ímãs - uma para outra?

Isso assim é muito errado.

Se uma pessoa é um pedaço de ímã
a outra é um pedaço de madeira
imóvel, inalterado pelo ímã insistente
que acaba caído no chão.

domingo, 4 de junho de 2017

Ser o que é

Queria tanto que você viesse
e sentasse do meu lado
e fizesse o que quisesse.
Cada um ser o que é,
um do lado do outro.
- Pra mim o amor
é simples assim.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Alguém

Alguém me apresente logo para mim!
Tenho pressa de me conhecer,
tenho pressa de saber quem sou.
Sempre fui tão outra,
me negligenciei,
sempre me desconheci.
Preciso me decifrar,
me entender,
me decodificar.
Me tire desse alguém
que não sou eu.
Alguém ande logo:
eu tenho pressa!
Alguém me acorde já:
eu preciso ser eu.

O não

Você disse que eu tive pressa.

Eu me apresso porque tenho medo,
me apresso porque fujo,
apresso porque não quero sentir nada.

Quero estar em movimento,
de partida,
adiantada:
antecipando o não.

Cílios

Seus cílios enormes e os seus dentes meio errados.
Você vai embora muito em breve e por isso eu te deixei entrar,
mas não se engane: eu gostei de você.

Eu quis que os seus cílios encostassem nos meus.

As pessoas

As pessoas me chamam de corajosa o tempo todo e eu só sinto medo.

domingo, 28 de maio de 2017

Em vão

Naquela noite eu decidi vestir minha camiseta branca com bolso, só que ela estava toda amassada. Eu nem cheguei a provar pra ver se ficava bem, já fui logo pegando o ferro. Me deu preguiça de procurar a tábua então eu passei a camiseta rapidinho na cama mesmo. Fui pro banheiro me maquiar, arrumei meu cabelo e quando fui olhar no espelho notei que a manga da camiseta continuava amassada. "Vou assim mesmo" - eu pensei. Mas não. Achei que seria melhor passar, o ferro já estava ali do lado. Peguei o ferro com a maior má vontade e nem quis tirar a blusa pra passar, era um amassadinho tão tolo. Foi então que eu encostei o ferro no meu braço. Urrei de dor. Estava sozinha, não sabia o que passar no queimado, não quis ligar pra ninguém para perguntar o que fazer. Pus água e só. Meu braço ardia quando eu olhei no espelho. A camiseta nem tinha ficado boa com a calça. Troquei por uma preta e saí. Foi assim que eu ganhei uma das maiores cicatrizes que eu tenho no corpo.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

My name

You know my name
you know my name so well
you know the texture of my skin,
my freckles, where my hair comes from,
you know why I laugh,
and how I laugh
you know why I stay quiet.

You have heard my silence
so many times
You have seen me sin
with you

you know my name so well
but you do not call it.

domingo, 21 de maio de 2017

Um pedaço

Mais um dia acabou
e eu continuo aqui.
Sentada, sozinha, sem nada.

Uma dor invade o meu peito
- e uma necessidade de escrever.

Deixo aqui então um pedaço da minha dor.

Faça
bom
proveito.

Casulo

Estou cansada
de sair de fininho
e esperar
e não ter resposta

de achar que é e não ser
de suspirar para o abismo
de procurar o meu erro

- qual foi o meu erro?

Estou cansada de sentir
borboletas
virarem casulo.

Indicação

Atrás de uma comanda de bar cheia de anotações sobre lanches completos ou sem queijo eu anotei o nome de uma poeta brasileira. Uma indicação sua depois de tanta conversa. Quando você disse que gostava de poesia eu dei risada. Você não entendeu qual era a graça e perguntou se era engraçado gostar de poesia. Eu te expliquei que a minha risada era porque ninguém gostava de poesia e era o que eu mais gostava. Deve ser por isso que eu me sinto tão sozinha. Conversamos sob o olhar de um homem feio que queria flertar comigo. Conversamos enquanto você comia uma coxinha vegana de jaca. Conversamos enquanto esperávamos as pessoas irem embora. Hoje aquela comanda está em cima da minha mesa e eu acabei de ler um pouco do livro que você me indicou.

domingo, 14 de maio de 2017

Luz

A luz fraca do meu relógio de pulso
refletiu no seu casaco de couro preto
você nem percebeu,
mas era algo de mim em você.

O riso

Josué estava apaixonado, muito apaixonado. Queria casar com a Laura amanhã se pudesse, mas ela pediu calma. Demorou meses para conseguir convencê-la de apresentá-lo para os pais. Marcaram um jantar num restaurante fino e ele ficou o dia todo se preparando para fazer bonito. Leu todos os jornais do dia, separou suas melhores roupas e ensaiou frases de efeito. A família da Laura era muito rica e estava cheia de receios porque ele mal conseguia pagar as contas do mês, mas o Josué era um homem seguro e se orgulhava de ser batalhador. Tinha certeza que ia conseguir pelo menos trazer um riso para o jantar. Todos foram pontuais. Se apresentaram, falaram sobre banalidades para quebrar o gelo e o jantar foi fluindo. Lá pela terceira garrafa de vinho começaram a falar sobre gastronomia. Ele suava até as mãos de tanto esforço que estava fazendo para agradar. A mãe de Laura disse que seu prato preferido era "coq au vin" e ele perguntou do que se tratava. Ela se mostrou surpresa com a falta de conhecimento dele e foi logo dizendo: "é um prato tão conhecido! É frango ao molho de vinho!" Josué ficou constrangido e, antes que perguntassem qual era o seu prato preferido, fez disfarçadamente uma pesquisa no celular por debaixo da mesa. Quando o pai fez a pergunta, ele respondeu bem rápido: "écrasé de pomme de terre avec saucisse" todos se olharam e ninguém conhecia o prato. O pai perguntou então o que era e ele respondeu: "purê com salsicha." Josué conseguiu o riso que queria, pena que foi de constrangimento.

agora

Chamei Deus de canto
falei baixinho
'agora'
e vi no horizonte
minha vida começar

terça-feira, 9 de maio de 2017

Relato

Entre todas as coisas que aconteceram recentemente na minha vida, a mais importante, mais viva, mais linda, mais rara, mais esclarecedora foi conhecer o Livro do Desassossego. Eu, aos trinta anos de idade e trilhando um caminho cheio de incertezas, me vi segurando o Livro na mão dentro da livraria. Sentei-me num canto e de repente imergi no universo de todos os questionamentos que me fiz a vida toda. A minha ânsia em devorar esse livro é tanta que não quero me demorar mais neste relato.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Quando alguém

Parece que eu não consigo atingir ninguém.
Que não sou notada, esbarrada, encantada,
que talvez eu seja feita de vento
ou de nada. E então,
quando alguém me responde
com um oi, pode ser,
um aceno que seja,
quando alguém me reconhece,
me percebe,
quando alguém me vê
- suspiros -
eu olho de volta, curiosa
querendo saber
se então é mesmo verdade
que eu existo.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Sonho

Hoje eu me lembrei do último sonho que tive com você. Na verdade você nem aparece nele, mas eu podia sentir a sua presença. A nossa casa estava vazia, como nas fotos que eu tirei para mandar para a dona, e eu precisava garantir que tudo estava limpo antes de ir embora. Só tinha o sofá, a lareira e a mesa de centro, mas as revistas que ficavam na mesa tinham voado com o vento e caíram no chão. O sonho parecia muito com o meu verdadeiro último dia na casa, mas tinha um ar melancólico, essas revistas caídas me davam vontade de chorar. Era você. Você era o ar melancólico, a minha vontade de chorar.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

O pijama azul, que eu nem sei se era azul

Ele me contou de um pijama que ele adorava usar quando criança. Eu imaginei um pijama azul de feltro desses que cobrem os pés, tipo um macacão com meias, e com pequenos foguetes desenhados. Imaginei ele pequeno, com cara de sapeca, dizendo para a mãe que queria ir ao shopping vestindo aquilo. Será que a mãe dele, lá no seu íntimo, quis dar risada e apertar aquela figurinha? Será que levou aquilo a sério? O que será que ela fez? Os cabelos dele, na minha criação, estavam bem bagunçados e os olhos brilhavam cheios de bondade, a mesma que ele ainda leva nos olhos. Adoro imaginar as pessoas quando eram crianças e achei engraçado ele me dar assim, quase de graça, tanto substrato para o meu deleite.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Só assim

Todos os dias olho no espelho
e vejo o reflexo de mim.
Minha vista deve estar cansada de me ver,
todos os dias a mesma eu.
Tem vezes que aparece uma montanha
- no meio da testa, no nariz ou no queixo -
mas em geral a paisagem é sempre a mesma.
Essa velha eu.
Se um dia eu cansar de me ver,
(e talvez esse dia esteja chegando),
o que eu faço, meu deus?
Eu que não tenho outro rosto,
que não tenho outro jeito,
que não sei ser outra,
eu que sou só assim,
o que vou fazer?


terça-feira, 18 de abril de 2017

Sentidos

Eu vejo olhos me olhando à noite enquanto passo,
esperem que eu olhe de volta, que eu pare, que eu volte.
Eu não.

Prefiro ser parada pelo ouvido.
Fernando Pessoa me fez dar meia volta
quando eu saía de uma casa uma vez.

Meus olhos saem sempre tristes à noite,
já sabem que vou gastá-los em vão.
Enquanto meus ouvidos não forem saciados,
nem meus olhos, nem meus lábios
se satisfarão.


segunda-feira, 17 de abril de 2017

Pela primeira vez

Ontem eu vi algo pela primeira vez.
Estávamos todos na sala quando minha mãe disse que precisava trocar o bebê. Ela perguntou se eu sabia como se trocava um bebê. Eu disse que sabia, tinha visto minha irmã trocar a Manu, mas mesmo assim eu queria vê-la trocar e aprender mais uma vez. Subimos para o quarto, minha mãe pegou o protetor de cama, os apetrechos e lencinhos e as fraldas ecológicas da minha irmã. Puxamos os bracinhos da Manu, mexemos o bumbunzinho dela, limpamos toda a caca, mamãe me ensinou a checar todas as dobrinhas. A Manu deu risada, foi super boazinha e linda. Trocamos a blusa dela e a mamãe levou ela embora no colo. Aquele momento, ver minha mãe sendo avó com aquela delicadeza, aquele jeitinho dela, aquilo mexeu comigo como se eu visse o mar pela primeira vez.

Empresto de Hilda Hilst

Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite 
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água 
Desejasse

Escapar da sua casa que é o rio,
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo 
Entendo que sou terra. Há tanto tempo 
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento. 


(do "Dez chamamentos ao amigo")

sábado, 8 de abril de 2017

Despreocupados

Eu lembro direitinho da primeira vez que eu quis casar com você. A gente estava no Camboja, bem no meio da viagem, e o guia turístico esqueceu de nos avisar que ficaríamos dois dias sem banho. Aquela noite a gente ia dormir numa vila de palafita com uma família local. Eu vestia um macacão curto e uma regata laranja e você uma bermuda cáqui e uma camisa da seleção. Durante o dia, totalmente despreocupados, fizemos tudo que tinha para fazer: andamos de charrete de madrugada para ver o nascer do sol, comemos um escorpião e partes de uma tarântula, atravessamos uma ponte mística e suamos toda a água do nosso corpo. Meu cabelo, que era super comprido, estava duro por causa do suor. O sol já estava se pondo quando o guia lembrou de nos avisar sobre o banho. A gente já devia ter imaginado que isso fosse acontecer porque aquela vila ficava no meio do nada e não tinha eletricidade, internet ou álcool gel. Eles nem sequer conheciam essas coisas. A seleção brasileira de futebol eles conheciam. Logo que o guia terminou de falar eu imediatamente senti o meu próprio cheiro e quis chorar um pouquinho. Olhei para o lado e você não estava mais ali: estava jogando futebol com as crianças da vila.

A minha árvore

Olhando para aquelas árvores altas ali balançando em cima de mim, eu fiquei pensando que de repente o meu grande objetivo aqui na Terra seja apenas balançar minhas folhas conforme o vento. Minha passagem por aqui será tão inútil quanto a daquela árvore. Todo o oxigênio que ela produzir eu mesma vou respirar e quando eu morrer, ela vai continuar produzindo oxigênio para outra Clara qualquer e quando ela morrer, a Terra vai continuar girando como se nada tivesse acontecido.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Sobre a velhice

Ando descobrindo muito sobre mim mesma nas coisas que escrevia sobre os outros nos meus diários. Outro dia eu li que estava de saco cheio de um certo namorado "velho de 29 anos" porque ele não gostava de guloseimas de supermercado. Eu escrevi que sempre amaria chocolates e salgadinhos de supermercado e que aquilo era velhice dele. Que triste. Hoje eu tenho 30 anos e detesto guloseimas de supermercado.

Nota sobre um namorado

Ele não soube me amar como um homem ama uma mulher, ele me amou como se ama um quadro na parede.

domingo, 2 de abril de 2017

Cacos (um poema antigo)

Três vidros quebraram na minha mão essa semana:
uma taça,
um pote,
uma janela.
Queria quebrar o vidro que te envolve.
- Ei, você me escuta agora?
E você, então, passaria a me ouvir.


quinta-feira, 23 de março de 2017

O Universo e o medo

Sempre que eu tenho medo, qualquer medo em qualquer situação, eu tento mentalizar o tamanho da Terra diante do Universo. O medo não some, mas ele fica proporcional a minha insignificância. 

segunda-feira, 20 de março de 2017

A alma do dente

No começo do ano eu precisei tratar o canal de um dente. É um processo dolorido, dá aflição, não é legal. Eu fiquei na sala de espera tentando entender como funcionaria, eu já tinha tratado canal outra vez mas fazia muito tempo e eu nunca perguntei como era. Quando o odontologista me chamou na sala, eu reparei que ele era um senhor de setenta e poucos anos, cheio de energia e até com um certo carinho. Ele pegou uma prótese gigante de um dente igual ao que eu iria tratar e começou a me explicar delicadamente como seria o processo. "Primeiro nós abrimos aqui, depois tiramos isso aqui. Imagina que o dente é um rio e que eu estou tirando toda a água do rio, todos os galhos, tudo. Se um dente tem alma, nós vamos extrair a alma do dente." Eu olhei pela janela do consultório e me lembrei de Sísifo. A especialidade daquele dentista é tratar canal. Todos os dias de cinco a dez pacientes vão no consultório dele para tirar a alma dos seus dentes infeccionados. Todos os dias ele pega uma prótese gigante do dente infeccionado e mostra para o paciente que o canal é como um rio. Sísifo foi condenado a levar uma pedra ao topo da montanha, mas toda vez quando chegava no topo a pedra rolava de volta para baixo. Depois de anos executando essa tarefa, provavelmente Sísifo entendeu que o que importava não era que a pedra fosse deixada no topo da montanha, mas como a pedra era levada: com mau humor, tristeza, resignação? Ou assobiando, cantando, batucando na pedra? Durante o meu procedimento, eu percebi que o meu dentista tratava canais com o cuidado que se tem ao lidar com uma alma, mesmo que de um dente. Todos os dias a pedra dele rolava de volta para o chão, mas dava pra ver que ele subia a montanha assobiando.

sábado, 18 de março de 2017

No último andar

Num domingo frio e cinza como hoje
ficaríamos os dois no último andar
com os pés gelados
e a janela aberta.
Você tentaria levantar,
mas eu te puxaria de volta.
Pensaríamos no dia, faríamos planos.
O dia, sem esperar que estivéssemos prontos,
iria passando sutilmente
pela janela do nosso quarto
no último andar.


terça-feira, 7 de março de 2017

Cinzas

Você já tentou pegar cinzas na mão? Não dá, elas se dissolvem nos dedos. Quando eu morrer, quero virar cinzas. Quero ser soprada no ar e virar vento. No máximo ser soprada no mar da Califórnia e virar onda para algum surfista pegar. Não quero ocupar espaço na Terra com um buraco e uma grande caixa de madeira. Para que guardar os meus ossos? Quem inventou isso de guardar ossos? Depois que a pessoa já virou vento, já foi embora para o Universo, por que guardar os seus ossos? Nosso planeta já está tão entulhado, tão saturado, tão dolorido. Quando eu morrer, quero ser cinzas.

sexta-feira, 3 de março de 2017

Sangue


Uma vez, quando eu tinha nove anos, o meu avô veio passar uns dias em casa. Eu não me lembro muito bem como foi essa estadia, mas me lembro que ele estava doente. Não lembro que doença ele tinha, mas lembro de vê-lo tossir muito. Uma vez, ele tinha acabado de sair do banheiro e eu entrei para buscar alguma coisa quando vi sangue no tapete e no chão. Eram pequenas gotas, algumas eram marrom. Fui dormir com um certo medo ou algum sentimento que eu não soube identificar. Uns dias depois, talvez semanas ou meses, eu acordei no meio da noite para ir ao banheiro. Olhei para baixo e vi a minha calcinha com uma mancha de sangue. Era uma mancha marrom igual ao sangue do meu avô. Entrei em pânico, pensei em morte e fui dormir achando que eu estava com a doença do vovô.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

After Rio

When in doubt, relax
when in doubt, take a deep breath
when in doubt, try to smile
when in doubt, stay patient
when in doubt, observe.
Observe how life has its own tricky ways to make things always work out. Observe that we are constantly changing with every tiny bit of information we receive. Observe how every single person in this Planet has their own struggle we know nothing about. Observe that each one of us is part of one single beautiful thing (maybe a miracle!) called life.

Os gatos

You use a lot the word "cat", he said. As I wonder he explained: cat is how you call those electricity wires that bring light to the favela. Cat is when you fix something with a material that wasn't meant for that. Cats are stamped in clothes, is the way you call a handsome guy. What is it that Brazilians have with cats?

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Dias ruins

Teve uma vez que você disse: "a casa é minha!". Fiquei horrorizada. Na verdade, eu sempre soube que a casa era nossa e nunca questionei isso - nem mesmo aquele dia. Só não gostei de ter ouvido de você e por isso não dormi em casa aquele dia. Eu sempre soube que o seu amor não estava nas suas palavras. Você me esmagava tanto. Nunca aceitava que eu dormisse sem estar devidamente aninhada no seu peito. Você perguntava do meu dia, me contava do seu, fazia comentários, perguntas. Você cuidava de mim. Eu sei do seu amor, meu amor. Eu sei que éramos casados. Eu sei que você me amou como soube. Os dias ruins - em todo esse tempo - foram dois. Esse que você disse que a casa era sua foi um. O outro foi quando os seus pais chegaram, bem vestidos, cheirosos, animados. Seu pai estava com um tênis novo, elegante como sempre. Sua mãe, impecável em um vestido creme e jóias. Eu vestia uma roupa de fazer ginástica e estava terminando de limpar a cozinha. Você, terminando de juntar os seus documentos. Abri a porta, cumprimentei os dois, comentei sobre o quanto eu tinha gostado do seu corte de cabelo, eles deram risada, nos abraçamos. A sua mãe entrou na nossa casa e disse: "vamos, filho?" e os dois te levaram para o aeroporto.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

No bonde

Não é todo mundo que tem coragem de se perguntar: "é isso?"
Eu tive. E não era.
Tirei o meu cinto, me levantei da cadeira e saí.
O bonde andando
me joguei pela janela.
Recobrei a consciência horas depois no meio do mato.
Me levantei e descobri que estava sozinha
no meio
do nada.


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

sinal

Quando você me der um pedaço de alguma coisa
quando você me der alguma coisa
quando você me der oi
quando você vier
se você vier
se você souber aonde vir
se você existir
me mande um sinal

Só não me resolva

Eu uso as suas camisas,
vejo as nossas séries,
como tudo que você gosta,
mas eu passo longe
das suas fotografias.

Não posso ver o seu rosto
porque esse rosto é também um abraço
e um corpo que eu conheço tão bem.

Ouvir a sua voz eu posso,
a sua voz está longe,
a sua voz é feita de ondas sonoras
- e não de você.

Eu vivo bem aqui, sem você,
só não me resolva aparecer.


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Trinta

Estar aqui, sem emprego, namorado, noivo, marido, companheiro, filho, dinheiro, profissão, carreira, casa, poupança, perspectiva a curto prazo - ou a longo - mas estar aqui, firme.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

A seguir

A loira de cabelos curtos me falou que eu tenho medo de alguém me desviar do meu sonho. Sonho, palavra tão caipira! Se alguém me desviar, que seja doce. Que seja belo, que seja bom. Que me desvie! Só me largue depois de um tempo: tenho um caminho a seguir.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

A nossa casa

Eu lembro da lareira nos dias de frio, do regador regando o passarinho no verão. Eu lembro das pizzas caseiras e da única vez que você fez sushi. Do dia dos namorados, quando você fez purê com salsicha à luz de velas e escreveu um cardápio em francês. Eu lembro das noites de filme, de vinho, de ensaio para a sua apresentação. Tiveram as noites que você dormiu no sofá, que a gente não se viu, que dormimos separados, mas todas essas eram exceções. A regra era eu e você entrelaçados. Teve a festa surpresa que sujou o chão por semanas, a festa de carnaval, a abertura da Olimpíada. A nossa casa tinha vida, tinha plantas por todos os lados, tinha luz, jardim, tinha obras de arte. A nossa casa tinha humor, jornal, gastronomia, água de coco, passeios de bike. A nossa casa tinha amor. Tinha eu e você, o que mais precisava ter?

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Estrofe

Na fumaça que eu exalo tem um pouco de morte,
mas eu gosto.
Enquanto você é o oposto,
eu danço.
Acontece, meu amor, que a vida só não me basta,
e eu logo me canso.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Maybe

I'm scared but curious,
I'm scared but willing,
I'm scared but I have a good feeling,
maybe I'm not scared,
maybe I'm excited.

sábado, 14 de janeiro de 2017

No carnaval

O carnaval está chegando
mais um carnaval
e eu não estou disposta.

Perdi a vontade no ano novo
quando tudo recomeçou
e eu não estou pronta.

Não quero ouvir as marchas
as danças, as pessoas se amando
no carnaval.

Esse ano eu não sei quem sou
- mais uma vez -
e preciso me encontrar.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Olho nu

Existem mudanças acontecendo 
- dentro e fora da gente -
a todo instante. 
Hoje é assim, amanhã não vai ser mais.
Algumas coisas parecem não mudar 
nem de um dia para o outro,
nem em cem mil anos.
Mas não se engane, meu bem:
tudo está sempre mudando
- o tempo todo.
Mesmo as coisas iguais, 
algo mudou nelas.
Elas são iguais, 
mas de alguma forma diferentes.
Nem tudo está a olho nu.

Risco

Será que essa distância foi feita para me deixar
tentar o mundo sozinha, ver se eu sou capaz,
me fazer andar com minhas próprias pernas
uma vez na vida?

Será que vai dar tempo de desfazer o nó?
Quando eu voltar, vencida na vida,
sorrindo, completa, será que vai dar tempo
de te encontrar?

Sem

Essa noite eu estou aqui, sem você,
ouvindo uma música que você gosta.
Eu poderia estar entrelaçada no seu peito,
sentindo a sua respiração como eu gostava de fazer,
mas eu estou aqui - nesse quarto sitiado -
pensando no seu cheiro,
imaginando o seu carinho,
naquela cama pequena,
naquele quarto no último andar.


quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Vovó

A vovó me mostrou que os mosquitos adoram pousar nela. Me mostrou como as uvas amadurecem e me mostrou quando dá pra colher ou é melhor esperar. Ela me mostrou as pitangas boas, mas não quis provar nenhuma. Pegamos manga, até algumas com bichinhos, e castanhas. Demoramos umas boas horas entre dar comida ao passarinhos, olhar o jardim e colher as frutas. Fomos vendo as minhocas, as plantas que cresceram, o portão que ficou aberto. A vovó é um barato! Faz piada atrás de piada, esquece e lembra, pergunta e dá risada. Vovó viveu tanta coisa, teve tantas vidas numa só. Agora ela tá tranquilona, regando as plantinhas, colhendo frutas, vendo os passarinhos e assistindo tevê. Adora receber visitas e adora mais ainda quando a visita aceita tomar um cafezinho. Vó, acho que os mosquitos pousam na senhora porque o seu sangue é docinho, docinho.

sábado, 7 de janeiro de 2017

História de amor

Eu vivi uma história de amor.
Teve frio na barriga,
coisa do destino,
viagem pro outro lado do mundo.
Teve fogos de artifício,
biribinha,
Ibiúna.
Teve refúgio no mar,
festa na praia,
no campo,
na cama.
Na minha história de amor
teve príncipe de cavalo branco
sem o cavalo,
mas ele era um príncipe
- o meu.
Na minha festa de amor,
teve muita história,
coincidências,
tosse, falta de ar, lençol rasgado.
Teve o bafo da manhã,
amor de manhã,
sempre amor.
Teve casa com jardim,
jardinagem,
rede de deitar.
Teve muitos pássaros
e um em especial.
Teve lua de mel várias vezes,
mel e geléia,
pizza caseira.
Teve piadinhas, tantas piadinhas,
gargalhadas.
Teve palavrão,
palavrinha
e silêncio.
Teve doença e saúde,
triatlon,
cinema no domingo.
A minha história de amor
filme nenhum chega perto:
foi real de carne e osso.
Foi conto de fadas,
amor dos sonhos.
Eu fui cinderella, bela adormecida,
rapunzel e branca de neve.
Ele me salvou da minha vida,
e me deu a dele.
Nos amamos como se pode amar
tanto, tanto, tanto.
Dá vontade de chorar
e alegria de pensar.
De tudo que ele me deu,
a coisa mais linda
foi toda a poesia que a gente viveu.


sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Pronta

Quando todo mundo me pergunta
se estou pronta:
Não.

Eu acabei de chegar,
eu preciso aprender,
eu não.

Eu não tenho nada certo na cabeça,
eu morro de medo de tudo
não não não.

Nem adianta explicar
pronta para quê.
É que
eu não estou pronta pra nada.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

A onda

Eu voltei, mas tive que deixar uma mala de coisas lá. Uma parte de mim também ficou dentro daquela mala. Uma parte de mim que não se sentia pronta, que tinha medo, que deixava a onda sempre me levar. O restante de mim que voltou nunca mais vai deixar onda nenhuma me levar. Agora eu quero é ser a onda.

sábado, 31 de dezembro de 2016

In the old house

I said goodbye
you stood there
looking at me
wondering why

Why, my love?
When we moved out
of our old house
all the love I had
didn't come along.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Então

Antes eu te via descendo as escadas
ou no pé da escada
ou caminhando ou dirigindo
eu te achava lindo

Você mudou meu amor
você ficou melhor
mas eu não sei mais
se vou ou se fico
se quero ou se não

Então.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Now

I changed a lot since I got in this place and one of the things that changed is that I now love cough drops.


quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

To ask

What did you feel? How was it for you? Did you like it? Would you repeat it?
What went wrong?

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Pulsando

Hoje eu reparei que quando os vizinhos de cima fazem amor, o ritmo que eu ouço através das paredes é sempre igual - parece um coração pulsando. Estamos todos pulsando, o tempo todo.

Na hora

Você ficou 
em outra dimensão 
da minha vida,
mas eu sei que 
quando for a hora 
a minha dimensão
vai encontrar 
com a sua.

domingo, 23 de outubro de 2016

Quem

Quem é esse homem
que me quer a vida toda
só pra ele?

Quem ele pensa que é
pra me levar de toda gente
desse mundo tão gigante?

Com esse tempo tão finito
que eu tenho por aqui
me diz, meu deus, agora:
quem é esse homem?

Finally

Now that I am here, 
that I am seeing things from a different perspective, 
that I am free from any jobs that take away all of my energy, 
that I am finding out who I really am, 
that I am finding things out, 
that I am able to see things clearer, 
now that everything is exactly the way everything is, 
I can finally be myself. 

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Definir

Agora, neste exato momento, você é apenas parte - e uma parte enorme - do meu passado. E não é por causa dos oceanos, continentes ou horários. É por causa das nossas almas: no meu tempo presente eu não vejo você, eu não escuto você, eu não sinto você. As nossas almas não estão em contato, e eu repito: não é por causa dos oceanos. O que nos separa eu não posso dizer. Eu não sei dizer o que é. Talvez seja o ar da Califórnia, a água, a forma como o sol reflete no chão e na pele ou a forma como eu consigo usar as palavras nessa língua. Existe algo aqui, meu amor, e eu não sei definir o que é.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Eu sei bem

Eu não sinto a sua falta,
porque falta não me faz
o seu beijo,
o seu cheiro,
nós dois no domingo.
Nós não conversamos mais,
não nos conhecemos mais,
e eu sei bem
a falta que você me faz.

Para Alex

Quem sabe você, dentro da sua concha como um bichinho do mar, consegue olhar um pouco para fora e observar as pedrinhas que as ondas levam. Essas pedrinhas, meu amor, se chamam areia. Se você puder sair um pouco da concha para passear entre elas, você vai perceber que há tantos anos elas são a sua casa.

domingo, 2 de outubro de 2016

Um abismo

Tudo isso para tão pouco, 
talvez pior do que pouco,
talvez pior do que nada. 

Tudo isso para um abismo.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Medo

Existem centenas de tipos de medo - todos eles paralisam.
Medo de falhar, de perder, do escuro.
Medo do desconhecido, da solidão, de inseto.
Medo de morrer, de cair, se cortar. 
O medo breca, sufoca, ensurdece.
O medo é um muro,
que pode impedir um sonho
ou um afogamento.

15 horas

Quinze horas nos separam. Quinze suspiros, quinze ondas quebrando, quinze pássaros voando para o sul. Quinze milhões de quilômetros, quinze batimentos cardíacos, quinze perguntas sem resposta. O que quer dizer o número quinze? O que são as horas? Aqui sempre vai ser dia quando aí for noite. Aqui sempre vai estar escuro quando aí estiver claro. Quando eu voltar para casa você vai estar indo para outro lugar e outro e depois outro. O que são quinze horas diante do infinito?

Moedinhas

Os americanos contam os centavos - até as moedas de um centavo. No Brasil essas moedas entraram em extinção. Para nós era uma mesquinharia e ninguém tinha paciência com elas. Talvez os americanos estejam certos, não foram eles que inventaram o capitalismo?

sábado, 3 de setembro de 2016

Chegada

Cheguei numa casa pequena, com uma fachada suja e cheia de plantas e temperos crescendo desordenadamente. O cheiro era de salsinha ou cebolinha ou alecrim. Bati na porta e esperei. Eu tinha chegado 5 horas antes que o combinado, então não quis insistir. Sentei na soleira da porta e no primeiro barulho que ouvi vindo de dentro eu bati de novo. Ela abriu. Uma garota nos seus trinta e poucos anos completamente descabelada, com uma tiara de orelhas de gatinho, magra vara-pau tipo ex-moradora da cracolândia. Me mostrou o quarto, o único lugar arrumado da casa e pediu perdão pela bagunça - ela não imaginou que eu chegaria tão cedo. Não era só bagunça, era caos. A casa lembrava muito a da minha vó, só que caótica. Móveis coloridos, coisas em todos os cantos. A bagunça era tanta que eu senti uma urgência em sair logo dali. Não me sentia cansada, mesmo depois de tantas horas de vôo. Troquei a roupa pesada de aeroporto por um vestido soltinho, a bota por uma rasteirinha e saí para caminhar e conhecer as redondezas. Parei na 7-eleven, comprei uma água. Ao perceber que não tinha nada nas redondezas, resolvi ir até a escola para aprender a distância e conhecer o lugar, sem saber que eu iria caminhar por mais de uma hora. Ao chegar na escola, pedi pela coordenadora brasileira que estava me ajudando com o processo. Sentei no sofá que me indicaram e esperei. Como ela nunca apareceu, fui pedir ajuda do pessoal do Housing Dpto para achar uma casa. I have to get out of where I am immediatelly, please help. Preenchi um papel e esperei. Desisti da coordenadora que nunca apareceu e fui atrás de conseguir um número de celular americano. Nesse momento o único brasileiro que eu conhecia nessa cidade apareceu para tomarmos um café. No primeiro gole já percebi que se tratava de um narcisista. Eu não o conhecia muito bem. Conversamos, ele me falou da cidade, da loucura, da necessidade de se ter um carro. Depois me deixou em casa, que nesse momento já estava menos caótica, e eu dormi por nove horas seguidas. O fuso bateu.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

This is why I left

At that moment when you told me something important to you - something very sad - you stared at me with your blue eyes and started to cry. I felt as if I was responsible for you. I felt as if I needed to hug you and love you forever. This is why I left.


terça-feira, 26 de julho de 2016

Excel

Tenho vontade de tacar uma bomba nas suas planilhas de excel. Toda sua vida cabe em planilhas e você ainda tira sarro que eu não sei mexer nelas. Por favor, não vá, não me deixe. Será que você não vê que eu não vou saber viver sem as suas planilhas me organizando?

Roupas no chão

As suas roupas separadas em cima do sofá me fizeram chorar profundamente. Chorei por horas a fio enquanto pegava as camisas polo que você usa todos os dias e cheirava. Esse seu cheiro como ele é hoje, eu nunca mais vou sentir. A casa aos poucos vai ficando vazia das nossas coisas. Já tirei os meus livros e sapatos, você já tirou casacos e alguns quadros. Essa casa, esse seu cheiro, essa etapa da nossa vida, tudo isso está sendo deixado para trás. Uma despedida como essa para uma pessoa como eu, é de partir o coração em mil, esmigalhar, dar perda total. Acho engraçado o quanto nossas diferenças se destacam agora. Você encara isso tudo tão tranquilamente, com um pouco de ansiedade até, e eu só choro. Tenho tanto medo de sair dessa imensa zona de conforto que é minha vida agora. Tenho tanto medo de nunca mais encontrar um conforto como esse. Espero que você chegue tarde em casa hoje e não veja que eu espalhei todas suas roupas no chão, como se esse gesto infantil pudesse atrasar de alguma forma a nossa despedida.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Beijo

Sinto falta de um beijo. Um beijo que começa no disparar do coração, na respiração ofegante e em outros sintomas do prazer. Esse beijo que ensaia muito antes de chegar, que passa lentamente pelos olhos, que examina a boca a ser beijada e se surge beijo devagar. Um beijo com um gosto, um gosto que não importa. Um gosto de língua, uma textura de língua, uma língua. Sinto falta de estudar os movimentos da língua que experimenta a minha. De sentir com as minhas mãos o rosto que carrega aquele beijo, sinto falta de um rosto. Um rosto num corpo que amassa o meu, e me beija como se um meteoro estivesse prestes a atingir a Terra. Um beijo de muito tempo, de dar êxtase seguido de uma calmaria alienante. Um beijo antigo como qualquer outro, desde que o primeiro homem vislumbrou os lábios da mulher amada e entendeu.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Madrugada

É madrugada em Budapest, e o homem que tem medo de altura dorme. Aquele homem, que veio do lado esquerdo da Meca, agora sonha. Com o que você sonha, homem-pássaro? Será com a mente humana, com os seus pecados, será com a morte? Sabe, beija-flor, você não precisa se preocupar tanto com o que pensam de você, são só três ou quatro pessoas que realmente sabem de você. Só elas podem te ajudar de alguma forma. O resto, todo o resto, só serve para te julgar, igual você julga o que lê no Guardian de manhã.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Talento

Será que é verdade que cada um de nós tem algum tipo de talento? Ou será que algumas pessoas não tem talento nenhum, apenas acham que tem? Como é que vou um dia saber se tenho talento ou não em alguma coisa? Como faço para saber que, entre as coisas que gosto de fazer, é naquela determinada que eu tenho talento? Se eu não tiver nenhum talento em nada, como faço para saber? E para me esconder? Como faço para não continuar fazendo o que eu gosto e enchendo o ouvido das pessoas de algo que eu não tenho talento? É possível viver uma vida inteira sem descobrir um talento?

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Recado

Eu não sei o quanto se pode ser direto em uma poesia, e se por acaso não puder ser nem um pouco, vou falar baixinho, discreto, direto a você: devo te esperar? E se eu, sem querer, deixar a minha vida passar esperando? Acho que os perseguidores de pessoas diretas em poesias estão chegando, preciso ir, mas guarde o meu recado e pense, meu amor. Devo te esperar?

Adeus, agora

Meu bem, será que você não vê 
que o agora está acabando?
Indo embora, dizendo adeus?
Entrando no avião com todas as suas coisas e decolando?
Você não vê, meu bem, que você ficará aqui no chão,
acenando para a sombra de um avião 
que você viu passar?
"Adeus, agora!" você poderia gritar.  

Já comecei vários romances com pessoas que pensei que nunca amaria mas acabei amando.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Enquanto

O que quero dizer, meu bem
é que enquanto eu estiver aqui,
não saberei dizer jamais
onde é que eu preferia estar.

sábado, 2 de julho de 2016

trecho

Ontem à noite, enquanto você dizia que não tinha certeza, que não via propósito, eu senti algo estranho dentro de mim. Senti um veludo lúgubre cobrir o meu coração. Precisava tanto chorar, mas no cuidado de tentar ser forte, não chorei. Minhas lágrimas estão aqui nesse trecho que escrevo enquanto você segue em frente fazendo as suas coisas.

Isso

Você me ligou hoje para dizer que fazia sol,
"vem aqui comigo!" - você disse.
Eu não fui.
Eu fiquei em casa, arrumando a cama,
fazendo os meus rituais.
O dia foi passando, hora por hora.
O sol lá do alto foi descendo,
descendo e indo embora.
Você também vai embora,
entenda.
Eu preciso aprender a me acostumar 
com isso. 

No fim

Quando eu chegar no fim da vida,
e estiver velhinha na minha cadeira,
fazendo tricô,
será que eu vou conseguir finalmente
entender a sua decisão?

Rasgos

A gente costumava rasgar os lençóis. Escondíamos os lençóis no meio da roupa pra lavar, constrangidos. Orgulhosos, nos olhávamos e ríamos um para o outro da nossa conquista.

terça-feira, 28 de junho de 2016

plim

Há um momento
um exato momento
um instante
um segundo
um milésimo
um click
um plim
pequeno
minúsculo
quase invisível
imperceptível
assim desse tamanho.
Nesse momento, instante, segundo,
um olhar pode virar
a mesa.


Eu nunca saberei

Quando eu decidi pela estrada de terra,
ninguém entendeu
que tanto faz:
se eu escolher um lado
- e não o outro,
não importa o que acontecer,
eu nunca saberei como seria
se eu tivesse escolhido
o outro lado.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Tarja preta

Era uma noite fria, mas não tinha nada para comer em casa então a Ana e o Lucas decidiram sair para comer. Até dava pra fritar um ovo e fazer um viradão com o arroz de ontem, mas eles iam precisar lavar as panelas e fazia muito frio para lidar com água. Lavar na máquina? Nem pensar, a Ana era muito cheia de frescura e dizia que a máquina não lavava direito. Pedir comida? Ia demorar muito. Os dois pegaram os casacos mais quentinhos, cachecóis, luvas e foram a pé. As ruas estavam quase vazias e todas as janelas das casas pareciam quentinhas por dentro. Os dois sentiam uma pontinha de arrependimento de terem saído de casa, mas precisavam comer. A fome só aumentava. Para a sorte deles, quando chegaram no restaurante não tinha mais ninguém e eles puderam sentar na mesa preferida deles: uma bem no cantinho de onde dava para ver a cozinha. Acharam estranho o silêncio e o vazio, mas faltava pouco para o restaurante fechar, então fizeram logo o pedido e esperaram. 
O cozinheiro, um homem depressivo de 42 anos, estava trabalhando desde às 9h da manhã sem parar porque toda a equipe do restaurante tinha pegado um vírus e faltado naquele dia. Era só ele e a garçonete, Maria. Antes de sair de casa ele deveria ter tomado o remédio tarja preta que lhe aliviaria a vontade de morrer, só que como ele foi pego no susto com a ligação da Maria, não tomou e saiu de casa correndo. Tudo deu certo até lá pelas três da tarde, quando a vontade que Marco, o cozinheiro, sentia de morrer começou a crescer e ficar maior que ele. O jeito era beber. Bebeu o suficiente para continuar fazendo o seu trabalho sem pensar. Ele conseguiu levar o dia, metade bêbado, metade concentrado no trabalho. Fez todos os pratos, errou uma coisa ou outra, eles não estavam tão caprichados como num dia normal, mas nenhum cliente reclamou por escrito, nada que prejudicasse o restaurante. O dono, quando voltasse de viagem, não ia notar nada diferente. Agora à noite, às vésperas de ir embora, a concentração era quase nenhuma, o cansaço era muito e faltava pouco para acabar. Então ele relaxou. Quando viu um rato atravessar a cozinha, ele já estava terminando o último prato e estava de saco cheio. Não teve dúvidas: com o facão de cortar carne foi em direção ao bicho e num golpe só dividiu o bichinho ao meio. Pegou um saco preto e tacou em cima do bicho pra não ter que ficar olhando para ele. Foi até a pia, deixou a faca na água corrente e pegou outra para continuar cozinhando. Quando ele virou para tirar o arroz do fogo, reparou no vidro que dá para o salão do restaurante e os seus olhos cruzaram com os olhos dos dois clientes boquiabertos. 

terça-feira, 7 de junho de 2016

Nada

Eu não sei por que eu respondo isso. Não sei mesmo. Já pensei que pudesse ser por insegurança, mas não pode ser. Já pensei em preguiça, em dúvida, em algum medo. Não, não, não. Nada disso. Sempre que o meu marido me diz: "amo você" (nunca "eu te amo" porque ele acha brega), eu digo: "ama nada". Por que diabos eu respondo isso? Eu acredito no amor dele, eu sei que ele está lá, eu não tenho medo ou qualquer coisa. Hoje, enquanto eu descia as escadas rolantes do shopping depois do almoço com meu pai, ele - o meu pai - me deu a resposta. Durante o almoço eu e ele havíamos conversado sobre o quanto somos parecidos e nossa conversa havia sido ótima, mas naquele momento, enquanto descíamos as escadas, eu disse a ele: "eu tava com saudades, pai." ele respondeu: "tava nada".

domingo, 5 de junho de 2016

Sem separar-se

Como se faz uma separação sem separar-se?
Porque existem vários tipos de separação. A separação física, a separação física e mental, a separação só de um lado, a separação dos dois lados e mais algumas outras separações.
Quero saber sobre a separação física apenas. Dois seres que queriam estar juntos. Acontece que o mar, o continente, o sonho, o tempo, o timing, a demora, a espera, o cansaço, a descoberta, a curiosidade, o Universo e mais algumas outras coisas entraram bem no meio do caminho. Como se faz uma separação dessa natureza? Sei que com cimento não é, com talco talvez? Ou então um pouco de mel? Como se nasce um abraço que antecede uma separação desse tipo? As lágrimas que vem conseguem ter tempo de se formar entre a despedida e o aperto? E quando não conseguem? Existe alívio depois do aperto? Quanto tempo demora? Como se sobrevive aos primeiros dez dias? Se sobrevive? Se morre? Uma separação sem separar-se, dessa natureza, é possível entre quaisquer seres humanos? Mesmo os mais felizes?

Desconhecido

Eu quero deixar claro ao mundo que eu não sou corajosa. Estou saindo de um lugar que ia acabar me matando, estou indo porque as circunstâncias me obrigaram a tomar decisões imediatas, estou indo porque o destino arrancou as minhas mãos do modo automático e me levou.

Escapatória

Talvez eu tenha um pouco de medo dessa minha casa à noite, sem você. Eu às vezes tenho medo de estar exposta demais ao mundo aqui nessa pequena casa, com essa escuridão que faz lá fora, no Universo à noite. Milhares de coisas podem acontecer, como um sonho invadir a minha casa armado, me obrigando a seguí-lo, como já aconteceu comigo antes. Eu posso gritar, espernear, mas eu vou seguí-lo, não importa quão tarde seja ou quão perigoso possa parecer.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Não estarei aqui

E se eu falhar,
se nada der certo,
se eu quase morrer,
de tanto sofrer
por um erro qualquer,
um erro de matar,
o que poderia acontecer?
Eu não vou morrer,
e se por acaso acontecer,
Não estarei aqui para ver.

Ana B. - Parte 1

Uma mulher de quarenta e poucos anos. Magra, altura mediana, boas roupas. Alguém a encontrou caída no chão de um apartamento, morta. Não tinha ninguém no mundo e morreu de câncer, aparentemente nunca diagnosticado. De acordo com as leis do meu trabalho, eu tinha setenta e duas horas para anotar absolutamente tudo que eu via ali dentro. Tapete de boas-vindas bem-humorado, flores mortas, peças de madeira. Maçaneta de porcelana. Casa com cheiro de flores e mofo. O primeiro porta-retratos que encontro é ela na foto. Com as costas nuas, de perfil, cabelo do rosto. A mulher mais linda que eu já tinha visto na vida. Livros, discos, quadros. Rede de balanço, geladeira, tapetes. Uma solidão infinita. Nem um sinal de namorado, amigo, parente. Comecei a pensar se era solitária porque era linda demais. Se era linda demais porque só dormia, ao estilo Bela Adormecida. Entrei no quarto. Luminárias, criado-mudo, comprimidos. Espelho, espelho, penteadeira. Jóias, bijuterias, presilhas de cabelo. Solidão. Batom, rímel, esmaltes. Quem seria ela? Quem seria a mulher mais bonita que eu já havia visto? Teria se apaixonado, namorado, trabalhado? Encontrei uma gaveta cheia de cadernos, lotada. Passei setenta e uma horas lendo a história de Ana B.

Global goodbye

I am sorry to let you down,
but I am going to let you go.
- Goodbye.
I do not love you anymore.
It has been a while, actually.
Thank you for letting me stay for so long
and you are welcome that I have worked so hard.
You have taught me many lessons,
and you made me used them with you.
Now I have to be somewhere else,
doing very silly things such as:
following dreams.

Segunda noite

Coloquei dois travesseiros no seu lugar da cama. 
Eles estão ocupando totalmente o seu espaço,
e você já nem faz falta. 
Esta é a segunda noite e eu já superei você. 

sexta-feira, 27 de maio de 2016

O postal

Em Paris existe um museu absolutamente encantador chamado Centre Pompideu. Sou fascinada por ele e pela loja dele também. Na loja eles vendem caderninhos de todos os tipos, invenções, coisas de madeira, postais, livros, pinturas, artes, bugigangas de todos os tipos, milhares de coisinhas. Mas é na sessão de postais que eu passo mais tempo. Quero comprar todos os postais e fazer quadrinhos com eles. Passo horas olhando para cada um e pensando para quem eu daria qual postal, nas histórias de cada artista que fez cada postal, na minha vida, na arte, em Deus, me perco em cada um deles. São infinitos. Um dia eu estava na parte dos postais de fotografia, quando eu fixei os olhos em um e me apaixonei completamente. Era uma fotografia em branco e preto de uma cama simples com um casal sentadinho na ponta. A garota vestia uma blusa preta, encarava a máquina com um sorriso quase imperceptível e abraçava o menino de costas. Ele vestia um terno e sorria profundamente. Na parte de baixo da borda da foto havia um texto à mão assinado por um rapaz dizendo: “Esta fotografia é minha prova. Teve aquela tarde quando as coisas ainda estavam bem entre nós, ela me abraçava e nós éramos tão felizes. Isso aconteceu. Ela me amou. Veja por você mesmo.” Meu coração disparou e eu comprei o postal imediatamente. Ele me emocionava tanto que de repente já fazia parte de mim. Uns meses depois era natal. Eu mandei fazer um quadrinho com o postal para dar para o meu namorado. Ele não era sensível, mas algumas coisas ele entendia bem e aquele quadrinho era doce demais para passar despercebido. Mostrei para minha mãe com a certeza de que ela ia gostar. Ela olhou para o postal, fez cara de susto e foi para o armário mexer com caixas antigas. Voltou um tempo depois e disse: “Veja filha, em 1981 o seu pai foi viajar para os Estados Unidos e mandou esse mesmo postal para mim.” Eu não pude acreditar. Peguei o postal na mão e atrás dizia “saudade” com a assinatura do meu pai.

Presos na nossa garganta

Hoje eu conversei com alguém sobre você, sobre te amar e estar perdida, sobre te amar e ter dúvidas e não saber, e te amar. Enquanto eu falava, tive vontade de chorar. Precisei levantar da mesa, engolir e fingir que queria beber água. Quando senti que minhas lágrimas não estavam mais presas na minha garganta, recuperei a fala e disse que tudo ficaria bem. A gente sempre fala para os outros que tudo ficará bem, os outros são outros, eles não estão presos na nossa garganta.

domingo, 22 de maio de 2016

Um instante

Era um dia muito quente. Meio de semana, horário de pico, ônibus lotado. Um pai de meia idade voltava para casa levando a filhinha de uns seis anos pela mão. Ele estava exausto. Tinha passado o dia procurando trabalho no centro da cidade, batendo em todas as portas com a filha ao lado ouvindo sempre "não". Os dois finalmente iam voltar para casa. Então, quando já estavam no terceiro e último ônibus, a menininha passou a puxar a camisa do pai. O pai limpava o suor na testa e não queria encarar a filha depois de tanta derrota, por isso ignorava os puxões. Quando a menininha gritou alto: "papai!", ele precisou olhar para ela. Ela então sorriu, apontou para o adesivo indicando para quem eram reservados os assentos preferenciais, e disse: "Qual desses quatro bonequinhos você quer ser? O sentado nessa cadeira com rodas, a mamãe com a filhinha, o velhinho de bengala ou a gordinha? Eu quero ser a mamãe com filhinha!"

Ele

Eu decidi partir num dia de calor qualquer do mês de março. Eu tinha voltado de férias e estava deslumbrada com a vida que existia lá fora. Então resolvi explorar melhor o resto do mundo. Ele também estava partindo, ia estudar fora. Ele parecia não se dar conta, ou não se importar, ou não perceber o que estava por vir. Eu percebia e pensava nisso a cada segundo, a cada milésimo de segundo da minha vida naquele momento. Não tinha outro assunto na minha cabeça. Eu, que sou uma pessoa que adora fazer uma faxina, não conseguia pensar em outra coisa nem na hora de fazer faxina. Como seria a vida sem ele? Como seria dormir, acordar, almoçar, ver tv, jantar sem ele por perto? Achava engraçado como todo mundo fingia que estava tudo bem naquela separação. "Tudo bem, vocês vão se reencontrar." Bom, eu fui, ele foi, e passamos a viver separados por um tempo. Eu morava em uma casinha modesta no sexto andar. Dividia a casa com outras pessoas que não entendiam por que eu havia me separado depois de tanto tempo namorando. Naquela época, naquele país, eu estudava cinema. Eu não tinha dinheiro para fazer muita coisa, então saia da escola e ia direto para casa. Um certo dia eu resolvi comer alguma coisa fora com a turma da sala. Um homem sentou-se do meu lado. Esse homem é o seu avô, querida.

terça-feira, 17 de maio de 2016

A Caixa


Meu pai levantou da mesa e sumiu no corredor.
Teria se entediado da conversa? Não sei. Esperei.
Papai voltou com um sorriso malicioso no rosto.
Ele segurava uma caixa.
Abriu a caixa e tirou de dentro uma arma pesada.
"É de chumbinho. Vamos brincar de atirar nas folhas?"


A notícia

Minha irmã parecia triste. Reclamava que estava gorda e que andava irritada e cansada demais. Minha mãe estava secretamente preocupada com ela. Sutilmente minha mãe, que também é médica, pediu uma pilha de exames para a minha irmã, alegando que fazia tempo que minha irmã não fazia exames, que ela só queria dar uma olhadinha mesmo. Pra mim era tudo muito óbvio: minha irmã tinha sido pedida em casamento há alguns dias e esse era o jeito dela de expressar o nervosismo extremo. Eu sabia que ela estava nervosa, ansiosa e que devia ser só isso. Minha mãe não. Ela pensava no cisto que uma vez um médico achou no ovário da minha irmã, mas que não era nada e que ficou por isso mesmo. Minha mãe sempre cismou com esse cisto. Ela sempre pedia exames, estava sempre de olho, sempre com medo do que aquilo poderia virar. O clima na casa estava ficando chato, porque a minha irmã só queria dormir o tempo todo e quando não dormia ficava reclamando das coisas. Ela só ficava melhor quando via o noivo. Eu estava um pouco cansada. E cansada também da minha mãe cega de preocupação, perguntando todos os dias se os exames tinham chegado. Meu pai ficava blasé na poltrona, ou fingia que estava blasé pra disfarçar que também estava preocupado com a minha irmã. Até o dia que o cara da portaria passou os exames por debaixo da porta, bem na hora do jantar. Meu pai foi o primeiro a perceber. Ele largou o garfo e olhou para minha mãe. Minha irmã nem se deu conta e continuou mexendo no celular, provavelmente falando com o noivo. Eu me levantei e fui buscar o envelope na porta. Minha mãe quase o arrancou da minha mão e já começou a rasgar o envelope. Ela ia lendo os resultados com os olhos e fazia um "ok" com a cabeça para o meu pai até que ela fixou o olho em certo ponto do papel. Ela fez cara de pânico, ficou branca e paralisada, olhando para um ponto fixo qualquer no chão. Nessa hora, num impulso, eu segurei a mão da minha irmã, que levantou os olhos para ver o que estava acontecendo. Quando ela viu o símbolo do laboratório no envelope e a cara da minha mãe, ela entendeu tudo. Meu pai também entendeu tudo. Os dois deixaram uma lágrima cair discretamente e tossiram quase juntos para disfarçar. Minha mãe de repente parece que voltou a realidade e disse, quase engolindo as palavras: "Eu... eu vou ser avó!" e deu uma risada pesada. Meu pai e minha irmã não entenderam nada. Nem eu.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Passei

Não consigo pensar em você sem uma pontinha de tristeza: sou a mulher que passou, e você deixou passar. Sei que ainda não passei, que estou aqui agora, mas às vezes me parece tarde demais. Às vezes eu sinto que você me deixou passar.
Eu desconsidero 
quando considero
tarde demais.

Sem sorriso

Quando eu te vi passando por mim, eu secretamente sabia que você era triste. Você estava saindo da livraria e eu entrando nela. Você me olhou sem saber quem eu era e eu também te olhei, mas eu sabia. Você, colunista de jornal, herdeiro de livraria, um homem triste. Pensei na mulher que te deixou alegando tristeza demais. Pensei se a sua tristeza seria interessante ou só triste. Se eu conseguiria fazer a minha tristeza se comunicar com a sua. Pensei se você, do seu jeito cabisbaixo, me ensinaria coisas fascinantes que você leu nos livros. Pensei em nós dois excluídos do mundo, lendo nossos livros e escrevendo poesia. Eu pensei em milhares de coisas naqueles segundos que eu te vi me olhando. Gosto de pessoas tristes.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Sobre um sonho

   Eu estava em um carro, o meu talvez, com alguma amiga minha. Estávamos indo para a casa dos meus pais, que talvez naquele sonho fosse a minha casa. Ao chegar na portaria, lembro dos guardas, e lembro de eu, de repente, me dar conta de que estava sem alguma coisa, algo me faltava. Então eu e a amiga fizemos a volta e, bem coisa de sonho, surgimos do nada dentro de um avião. Para onde aquele avião estaria indo, eu me perguntava. Minha amiga também não sabia. Era um avião diferente, eu não precisaria ficar sentada durante o vôo, tinham vários lugares para ir ali dentro. E nessa hora, com uma consciência estranha de alguém que sabe que aquilo é um sonho, eu fiquei tentando calcular aonde estava indo o avião, descartei os Estados Unidos – porque ainda não era hora de ir para os Estados Unidos, mas precisava ser algum lugar perto. Perguntei para a aeromoça para onde íamos e com a maior naturalidade ela respondeu: "Para o Canadá." Para o Canadá? Que diabos eu estava indo fazer no Canadá? Senti uma urgência em ligar para o meu namorado para avisá-lo de que eu tinha entrado por engano em um avião indo para o Canadá. Ele, com a maior naturalidade, disse: "Canadá? Bem sua cara mesmo isso de entrar no avião errado." Eu suspirei aliviada pensando que ele agora sabia que eu ficaria offline por onze horas até o Canadá. E pelo menos a gente estava no mesmo continente. Quando então eu começaria a relaxar no avião-cruzeiro, eu acordei.


quarta-feira, 20 de abril de 2016

Cálculos II

Um dois três,
vezes mil duzentos e oito,
menos nove dez doze mil:
nem sei que números você calcula.

Eu só sei calcular palavra.
Calculei que o meu nome não aparece
em nenhuma das suas tabelas
- nem daqui a cem anos.

Eu calculo bem as palavras agora:
acho que quero ir para casa,
acho que quero fazer planos,
eu acho que quero ser o plano de alguém.

De acordo com os meus cálculos,
acho que eu não posso mais ficar sozinha.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Escrevo seu nome num grão de arroz

Atravessamos a rua eu e ele bem depressa porque ele precisava levar a comida quente para a namorada. Assim que atravessamos, uma mulher surgiu na nossa frente dizendo para o Edu que escreveria o nome da namorada dele, apontando pra mim, em um grão de arroz e transformaria em um colar. Eu dei risada e disse que nós não namorávamos. Nós éramos apenas colegas de trabalho e que acidentalmente nos encontramos na saída do batente. A mulher não aceitou. Disse que o Edu claramente gostava de mim e eu claramente estava interessada. Nessa hora o Edu parece que acordou dos seus pensamentos. Gentilmente empurrou a mulher e disse que não, nós não nos gostávamos, ela estava absolutamente equivocada e que por favor nos desse licença. Ele parecia incomodado com aquela afirmação, como se gostar de mim fosse um absurdo. Talvez fosse mesmo, eu gorda, descabelada e sem nenhuma vaidade era um absurdo de alguém gostar. Ainda mais alguém como o Edu, um cara inteligente, atraente e totalmente fiel. A tristeza que era para mim gostar dele, aquela mulher não podia nem sonhar. Escrever meu nome num grão de arroz, que coisa linda, delicada, poética. Quer saber, moça? Eu quero que você escreva o meu nome no arroz. Quanto custa? A mulher finalmente relaxou. Deu o preço e disse para nós esperarmos meia hora que ela iria na loja da esquina preparar o arroz. E por favor, escreve o seu nome nesse papelzinho. O Edu arrancou o papel da mão dela e disse que escrevia pra mim porque eu estava cheia de sacolas. Ele era de fato um cara gentil. Eu falei pro Edu que ele não precisava me esperar porque ele precisava ir e a comida da namorada dele já devia estar fria. Ele riu, disse que esperava comigo e que a comida não era para a namorada. Eles tinham terminado semana passada. Ele disse que terminou porque estava confiante de outra decisão na vida dele e precisava seguir em frente. Como ele não disse nada, também não perguntei que decisão era aquela. A gente se conhecia há tanto tempo que eu já sabia que o Edu não estava afim de falar sobre aquilo. Fiquei totalmente constrangida de estar ali, de estar me derretendo por dentro e desejando aquele homem pra mim enquanto ele sofria com outras decisões. Quis que a mulher do arroz chegasse logo pra fugir correndo dali. O Edu também claramente estava constrangido. E também claramente nervoso, querendo ir embora. Desisti de esperar pelo arroz. Dei o dinheiro para o Edu pagá-la e saí correndo em direção ao ponto. Entrei no ônibus e no caminho eu fiquei pensando que eu precisava me cuidar mais porque do jeito que eu era ninguém ia gostar de mim mesmo, que eu precisava emagrecer, que nem eu gostaria de mim. Assim que eu desci na minha rua, um taxi parou na rua e o Edu desceu. Ele veio em minha direção e disse "aqui está o seu arroz." E me deu um pacotinho com o pingente de prata e o arrozinho. Agradeci e disse que ele não precisava ter vindo de taxi me entregar, que amanhã eu iria para o trabalho. Ele insistiu que eu visse como ficou o arroz, que meu nome estava escrito errado. Abri o pacotinho. Meu nome não estava escrito errado. "Casa comigo?" estava escrito no arroz.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Devagar, mas levante

Hoje eu acordei de um sonho triste:
sonhei que eu estava parada, vendo a minha vida passar.
Quando levantei assustada, bati a cabeça no encosto da cama.
Voltei a dormir, meio morta talvez por causa da paulada.

Naquele meu estado de alma,
me vi parada na minha cama,
na minha vida, naquele instante.
Respirei fundo e pensei:
"mais devagar, levante."

quinta-feira, 31 de março de 2016

Começos

A. passava a tarde toda vendo o dia passar: via as folhas caindo, pombas entrando e saindo do seu jardim, via seu pássaro a olhando de dentro da gaiola. Às vezes ela olhava para ele de dentro da gaiola dela e pensava qual dos dois era mais triste.

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Fazia tanto frio que ficar do lado de fora em pé doía. Na esquina de uma loja indicada em um panfleto, duas mulheres estavam tão ansiosas que para elas o frio não doía. As duas ficavam imaginando como seria o grupo de pessoas que também iam participar daquela tal de peregrinação de bares pela histórica cidade. 

segunda-feira, 14 de março de 2016

Rascunho

Escrevi sobre minha vontade 
de dançar até o amanhecer 
de todos os dias seguintes.
Ficou tão exato, 
tão completo, 
tão verdadeiro, 
que reverti para rascunho. 

Inverno

Será que você detesta todos os meus pijamas de inverno? Estou preocupada. O inverno está chegando e eu não quero comprar um pijama novo, mas eu sei que você não gosta muito dos que eu tenho. Será que você vai me amar, quando chegar em casa, e eu estiver com algum dos meus pijamas de inverno?

domingo, 6 de março de 2016

Terça-feira

Quando eu era pequena os domingos eram um dia à parte. Meu pai disfarçadamente sumia da sala e ninguém percebia: nem eu, nem minhas irmãs. A minha mãe percebia, mas disfarçava com uma tosse seca. Alguns minutos depois a campainha tocava, e um homem muito esquisito aparecia. Um homem que lembrava um pouco meu pai, mas usava um óculos-nariz-bigode bem esquisitão. Ele dizia que seu nome era Tio de Bigodes e que vinha de longe para nos trazer balinhas. Eu sempre fui muito ligada em recusar doces de estranhos, mas nesse homem minha mãe parecia confiar muito. Então, dele eu aceitava balinhas. Aceitava as histórias, aceitava o colo, aceitava a tarde toda. Eu amava o Tio de Bigodes com todas as minhas forças e o achava quase tão legal quanto o meu pai, era uma pena que os dois nunca estavam ao mesmo tempo no mesmo lugar.
Hoje, muitos anos depois de descobrir que o Tio de Bigodes era o meu pai, eu reservo todas as terças-feiras pra almoçar com ele. Quando eu acordo já fico pensando no que vamos conversar, no que vou contar pra ele. Nessa terça-feira ele atrasou. Eu fiquei esperando por ele pensando que preciso fazer alguma coisa para deixá-lo mais animado. Quando ele chegou, resolvi falar sobre o Tio de Bigodes e os outros personagens que ele fazia. Ele deu risada, ficou leve. No fim do almoço ele estava super animado e cheio de disposição. Voltei para o trabalho, fingi que trabalhei e fui pra casa, pensando que eu queria me transformar num personagem que pudesse fazê-lo tão feliz quanto ele me fez a vida toda.

O meu dia

O meu dia não tem muita coisa:
eu corro de manhã, canto com o meu passarinho,
faço café forte, digo adeus e vou trabalhar.

No meu trabalho eu edito o que eu acho demais,
confiro informações, dou palpite,
e ajudo a construir matérias de televisão.

A pausa pro almoço é sempre uma alegria.
Às vezes almoço numa cantina ao ar livre,
às vezes almoço com minhas colegas no shopping.

Nas terças-feiras não. Nas terças-feiras eu almoço com meu pai.
Conversamos sobre as nossas vidas, nossas questões,
comemos mamão-papaya, tomamos um cafézinho e pedimos a conta.

Quando eu volto pra casa, eu sempre quero conversar.
O meu marido às vezes não, mas nos abraçamos e ficamos no sofá.
O meu dia sempre acaba nesse abraço.



quarta-feira, 2 de março de 2016

Ernest, 1929 (da foto de André Kertész)


Tenho raiva dessa foto. Uma raiva imensa porque eu estava resolvendo um problema de matemática no quadro negro quando um fotógrafo atrevido entrou na sala de aula junto com o diretor. O diretor disse:
 - Crianças, este fotógrafo veio da Hungria só para fotografar vocês. Fiquem quietinhos e façam tudo que ele mandar.
O diretor saiu da sala e esse tal fotógrafo me mandou ficar ao lado da minha carteira, disse que iria começar as fotos comigo. Eu fiquei lá do lado da carteira, fazendo o maior bico é claro, porque o que eu queria era terminar de resolver o único problema de matemática que eu consegui resolver na vida. Mas o fotógrafo húngaro atrapalhou tudo. E ainda por cima não gostou da minha cara e pediu que eu sorrisse. Eu fiz esse sorriso dissimulado aí e pedi para voltar para o quadro. Ele deixou, mas já tinha estragado tudo, porque eu não consegui mais me concentrar e ninguém mais quis olhar pra mim ou para o quadro negro. Só queriam saber desse húngaro de mal gosto. Por que raios ele achou que seria bonito fotografar a minha sala? Com esse tanto de criança feia. Todas meninas da sala com esses cabelos horrorosos presos com essas fivelas caídas, igual a Beth ali no fundo. E a maioria das crianças tinha dente faltando bem na frente. E os meninos então? Só gordo ou viciado em bolinha de gude. Mas acho que de tudo, o que mais me deu raiva nesse fotógrafo amador é que ele ficou arrastando asinha pra todas as meninas da sala, contando histórias da Segunda Guerra, como se fosse super legal tirar foto de gente cheia de sangue.
A verdade é que eu não sei como essa foto veio parar no meu estojo e eu acabei de perceber que, por causa dela, perdi quase vinte minutos da prova pensando nesse dia. Se eu não passar na recuperação de matemática meus pais vão me mandar para um colégio interno. É a segunda vez que eu repito o último ano e tudo por causa desse fotógrafo. Depois que ele atrapalhou o meu problema no quadro negro aquele dia eu nunca mais consegui me concentrar na matemática. É melhor eu picotar essa foto antes que a professora ache que é cola.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Depois da primeira aula

Três versões de um dia perfeito

1.
Acordo num lago frio e silencioso,
me espreguiço como pede meu instinto,
fico parado, olhando para o nada,
contando moscas
cortando moscas
comendo moscas.

Esse é o meu dia perfeito
nesse meu corpo verde e gosmento,
nesse meu eu.

2.
Nem sei se eu saio da cama nesse dia
Se como purê de batatas
Se morro atropelada

Mas sei que nesse dia
eu não tenho nada pra fazer.

3.
Um dia perfeito:

(de forma que caiba
numa página
de uma folha
de papel)

Eu aprendo a escrever,
e
escrevo.





terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Toco de unha

Quando olho para esse toco de unha 
com esmalte preto 
eu imediatamente penso
 no que o fez chegar a aquele tamanho. 
E então eu sou torturada
 pela terceira vez. 

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

No fundo do barco

Será que sentar 
no fundo do barco e observar 
a terra ficar, 
a família acenar, o barco passar, 
só observar,
será que não se infiltrar 
é permitido nesse mundo?

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Diante daquele instante

Ontem à noite, enquanto olhávamos o céu, você encostou a sua mão na minha e assim ficamos por um tempo. Eu estava concentrada nas estrelas, num clichê: pensando no pedido que faria à estrela cadente que passasse e, quando senti a sua mão, me dei conta de que eu estava ali, e o mar fazia barulho, e eu não tinha mais nenhum pedido possível diante daquele instante.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Abandono

Muitas crianças, em determinadas situações, têm medo que os seus pais as abandonem. Uma vez eu e minhas irmãs fomos com nossos pais numa loja japonesa chamada "Sanrio" de bichinhos verdes, rosas, roxos e estojos e lapiseiras e papéis de carta e um mundo infinito de coisinhas de menina. Eu não lembro com quem ficamos, não lembro por quanto tempo, não lembro de muita coisa, só de ficar na porta da loja, sem entrar naquele mundo de coisinhas, com medo dos meus pais não voltarem nunca mais.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Redação

Um dos temas de uma das redações que você precisa escrever é: "O que é mais importante para você no mundo e por quê?". Vamos lá, eu te ajudo. É muito importante manter preservada a nossa imortalidade, diz o meu pai. Meu pai também diz que é importante ser humilde, ler bastante, ter tempo para nós mesmos. Minha mãe diz que é importantíssimo manter a doçura, ter compaixão, fazer sempre o bem. As minhas irmãs... uma diria que salvar o mundo é fundamental. A outra diria que poesia, mágica e energia boa salvarão o mundo e portanto são as coisas mais importantes. Acho que já ficou bem claro então pra mim qual é a coisa mais importante no mundo: família. Essa família.

Os meus cabelos compridos

Vejo meninas de cabelos curtos, lindas, e tenho vontade de cortar o meu. Acontece que eu gosto do meu cabelo longo me atrapalhando o dia todo, me dando calor. Gosto de poder prender, soltar, de pôr pro lado, de usar para chamar atenção. Gosto do meu cabelo, mas fico pensando o tempo todo se eu seria mais bonita com ele curto. Se eu fosse mais bonita, eu me sentiria menos sozinha?

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Geneve

Ouço, pelas ruas de Geneve, um carro acelerado e muita buzina.
Ninguém buzina em Geneve - reconheço minha irmã na esquina.
Pelas ruas de Geneve ouço gritos de alguém desesperado.
Antes que me desespere também, percebo: é minha irmã, bem ao meu lado.
As ruas de Geneve, em outubro, ficam molhadas, vazias, sem graça:
eis que surge minha irmã cruzando de trenzinho a praça.
O que aconteceu que Geneve em novembro ficou vazia?
É que todo mundo sente falta do barulho que a minha irmã fazia.


terça-feira, 24 de novembro de 2015

Obra de arte

Hoje eu tenho substrato para escrever poesia: dor, solidão e silêncio. O que me falta apenas é um pouco de inspiração. Um dia um amigo me disse que quando a gente tem substrato, a inspiração fica parada na porta, esperando para entrar a qualquer momento. Mas é preciso convidá-la. Ele disse que a gente convida a inspiração com muito trabalho. Ficar parado, esperando que ela entre não funciona. Esse meu amigo pinta quadros. Ele nunca espera a inspiração entrar, ele pinta cinquenta quadros e aí a inspiração vem e ele faz uma obra de arte.

(para Yusk)

sábado, 14 de novembro de 2015

Malandragem do Mickey

Meu pai devia ter uns quarenta e poucos anos. Eu devia ter uns 10, 11. Ele me deu um relógio de pulso do Mickey, ajustou a hora, me ensinou direitinho a entender o relógio em toda a sua complexidade e disse: "quero que você volte para casa às sete horas em ponto." Eu entendi bem e fui brincar. Mas eu me achava mais esperta que ele, então puxei o pininho e fiz com que o relógio parasse nas sete horas. E fiquei até as sete e meia, oito, oito e meia, nove. Quando deu nove horas e eu me cansei, voltei pra casa. E pus o relógio pra funcionar novamente. "Mas papai! Olha aqui! O relógio marca sete horas!" Meu pai estava furioso e nem quis papo. Eu nunca mais pude tentar aquele truque, porque meu pai tomou o relógio do Mickey de mim.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Urubus no telhado

A sua percepção do tempo anda te preocupando
e você faz poesias com urubus.
Diz que eles estão te esperando 
no telhado da sua casa.

Enquanto isso eles esperam ratos,
pássaros, só gambás que não -
gambás não sobem em telhados.

Urubus não esperam gente como você,
que inventa personagens para suas filhas:
tio de bigode, professor Tibúrcio,
Cordélia Brasil.

Urubus não esperam
gente que lê livros e mais livros,
que faz rir até perder a respiração,
que faz o melhor bacalhau do mundo,
que tem uma mulher como a mamãe. 

Você é do tipo de gente
que faz urubus saírem voando.



Carne

Nunca iremos admitir o nosso adeus.
Não era pra ser, foi tão disfarçado.
Ninguém sabia ao certo
que você ia embora.

Nunca iremos admitir o fracasso
de tentar te manter aqui.
Nesse fim de mundo,
nesse pedaço de mundo,
nesse mundo pequeno,
que era o nosso.

Não era pra ser, foi até engraçado.
Você nem disse tchau.
Tomamos café da manhã,
e num instante você partiu.

Ninguém sabia ao certo
que você não ia voltar logo.
Que ia ficar tão longe,
por tanto tempo, pra todo o sempre.

Que você ia embora um dia,
eu até podia imaginar:
como prender uma borboleta?
Mas eu achei que era um embora perto,
nunca, nunca, nunca tão embora assim.

sábado, 12 de setembro de 2015

Enterro

Que diferença vai fazer
quando eu morrer?
Deixarei filhos, netos,
livros?
Eu morta serei bela,
feia, velha?
Alguém vai anotar
que horas são,
se eu me jogar?
Vai ser tarde,
vai ser triste,
vai dar tempo?

O Ronco e a Culpa

Quando eu era pequena dormia num quarto com minhas duas irmãs. Teve um dia que uma delas roncava tão alto que eu achava que era mentira. Achava que ela estava fazendo barulho só pra sacanear, como eu mesma fazia de vez em quando. Desde pequena gostava de atuar. Às vezes minha atuação era roncar pra sacanear as minhas irmãs. Nessa noite uma das minhas irmãs dormia em sono profundo e roncava. Eu disse: "para já com esse ronco se não eu vou contar pra mamãe!" Ela continuou de biquinho aberto, roncando. Na segunda vez eu dei um berro tão alto de "para!" que acordou meu pai. Meu furioso pai que detesta ser acordado com barulho. Ele entrou no quarto espumando, quando eu disse: "Foi ela que começou! Ela tava fazendo barulho de propósito!" A pobrezinha da minha irmã acordou num susto por causa da luz acesa e gritou: "Desculpa! Desculpa!" E meu pai foi embora dormir. Assim que ele saiu do nosso quarto ouvi minha irmã virar na cama sonâmbula e começar a roncar tudo de novo.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Como explicar?

Tenho um órgão dentro de mim que pulsa tão forte que estufa meu peito. Quando eu estou deitada, posso ver o meu peito subir e descer por causa dele. Esse órgão é, estranhamente, o que faz tudo funcionar em mim: da fala ao pulo. Não faz muito sentido, como explicar? Eu mesma posso fazê-lo parar a qualquer momento se eu quiser. Acontece que, estranhamente, o meu objetivo é lutar o tempo todo para que ele não pare nunca.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

A essência de outro homem

Como explicar a um homem sobre a essência de outro homem?
Os homens são todos iguais
na estrutura, no esqueleto e na maioria dos medos
(de viver, de morrer, da solidão).
Há, entretanto, coisas que diferem os homens de forma absolutamente misteriosa.
Há homens que gostam de contar, de mandar, de poder, de inventar.
E há os homens que flutuam.
Como explicar a um homem que gosta de mandar
sobre os homens que flutuam?

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

O homem e o amor

Quando foi que
O homem percebeu o amor?
Foi sentado, indo embora, a dormir?
Foi distraído, foi bonito, foi algo?
Como foi?
Muito me pergunto
se foi olhando a janela, se foi a passear.
O amor explodiu no peito? 
O peito doeu?
Foi de dia? Foi no verão?
De madrugada, talvez, com um pincel e uma tela.
Ou ao som de um instrumento,
talvez só o coração, a pulsação e o vento.
Quando foi que o homem pensou:
"é isso."?
Esse homem - ou talvez mulher - 
chegou a duvidar que era isso?
E se foi uma criança? Como é que ela percebeu?
Ela estava brincando, correndo, parada?
Ela estava com o pai, um amigo, um irmão?
Quando foi, meu deus, que isso aconteceu?
Muito mais me pergunto:
quando foi que o amor percebeu o homem?
Ele já percebeu?

domingo, 16 de agosto de 2015

Briga

Hoje quando você não veio dormir
meu peito estufou cheio de suspiros.
Esperei ouvir, nos seus barulhos,
o som de você subindo as escadas.
Esperei, esperei, esperei.
Só ouvi um cuspe na pia,
como se cuspisse algo de dentro,
algo contra mim,
algo que talvez fosse eu inteira.
E depois você fechou a porta.
E depois, eu fechei a porta,
fechei os meus olhos, fechei o meu peito,
fechei-me inteira.

Não

Não vomite. Não é seguro vomitar. Não se estresse, não se desencante, não fuja, não se sinta perdido, não não não. Não seja assim tão cruel com seu corpo, não emagreça, não se deixe engordar, não coma isso. Não tome tantos remédios, não acredite em mentiras. Acredite em Deus, reze, tenha fé. Não não não, não perceba que quase tudo é mentira e nada vale mesmo a pena. Não se sacrifique, não perca tempo. O tempo é escasso, é rápido, é quase nada. Não fique sozinho. Fique com Deus. Deus te acompanhe, Deus te ouça. Não tenha medo, não seja destemido demais. Peça perdão, dê o outro lado a tapa, ajoelhe diante de uma cruz. Não sofra, não chore, não se sinta abandonado, não queira ir embora daqui. Não grite com os outros, não desrespeite os outros. Quem são os outros? Talvez os outros sejam Deus. Não pergunte.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Tico

Durante um mês e alguns dias você viveu conosco. Teve gente que passou dias mais felizes enquanto você esteve por aqui. Conheço um cara que queria agradecer a sua doce existência por ter feito a dele própria mais doce. Sei que você teve dias difíceis, eu mesma presenciei um. Você estava ferido e mesmo assim não deixava de se aproximar daquele cara, dava a mão pra ele todo feliz. Eu vi. Sua despedida foi muito repentina e levou um pouquinho de nós todos. Se fossemos da sua espécie, poderíamos dizer que algumas penas caíram quando você fechou os seus olhinhos para nós.

Eu já fui

Quando digo que preciso ir embora,
não quero dizer que não,
quero dizer que preciso ir embora.

Já não posso mais ficar:
algo aconteceu dentro de mim
e eu já fui.

Nas minhas malas magras,
eu me trouxe pra cá.
Te falo do futuro:
aqui, da minha viagem ao mundo.

E que mundo é esse, meu Deus?
E que viagem é essa em busca do seu mundo?
Te falo aqui do presente:
- Vá procurar saber.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

A vida certa

Eu sei que eu já dei de cara com a proposta da minha vida. A proposta para me fazer completa, me elevar o espírito, me deixar em paz com o mundo já veio. Sim, ela me chamou mas eu não percebi e saí andando. Acho que foi isso que me aconteceu. Hoje eu vivo uma vida paralela à que eu deveria viver. Vivo uma vida que, se eu tivesse feito a escolha certa, eu nem pensaria que poderia haver outra opção. Por isso penso que nada que eu possa fazer pode ser errado. Minha vida já é a errada, já não era para ser essa. A vida certa teria poesia, música e teatro. Teria horas para criar, para gastar. A vida certa teria gente na hora certa - e na hora errada só teria eu, porque sou de aquário e preciso ficar só de vez em quando. Na vida certa eu poderia escrever o que eu quero no meu expediente, porque o meu expediente seria meu - e não de uma empresa. Se eu vivesse essa vida acho que seria mais paciente. Seria mais calma, não roeria unhas. Eu poderia ser quem eu sou lá de dentro, não perderia tempo (e nem energia) com o que eu não gosto, com o que eu não sou. Não perderia tempo com tanto cansaço. Porque cansaço não é coisa de gente jovem e cheia de vontade como eu. Eu tenho dor nas costas, eu tenho dor na alma. Na vida certa não existe dor na alma.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Não ia dar certo

Eu tive um namorado autista. Ele mal falava comigo, ou pior: mal me abraçava. Eu gostava dele porque algo naquele mundo particular que ele vivia me fascinava. Era um mundo onde só a arte o atingia. Eu tentava, eu juro que tentava, mas só a arte conseguia. Kubrick, Machado de Assis, Radiohead. Com esse pessoal ele se comunicava bem. Eu assistia tudo morrendo de inveja. Ele vivia me doutrinando, dizendo o que eu devia escutar, ler, onde poderia ver arte de verdade. Eu jamais questionava, ele sabia bem do que tava falando. Mas não ia dar certo. Ele era muito calado comigo, justo eu que preciso tanto do peito do outro. Além do mais, eu tenho um segredo que ele nunca desconfiou. Eu sou como ele: só a arte me atinge, só a arte consegue se comunicar comigo de fato. Mas eu sou bem diferente dele: consigo fingir bem. Ninguém percebe que eu também sou autista. E fico pensando que a gente pode sempre trocar o "u" por "r", e fica tudo bem, a sociedade até aceita quem se diz artista.

Escrava

Tenho um armário cheio de coisas.
A dona da casa onde eu moro disse que são coisas demais.
- Algum dia você vai se livrar de tudo isso, ela disse.

Que coisas são essas?
Camisetas e vestidos feitos provavelmente
por uma costureira que trabalhou como escrava.

Comprei para me sentir melhor.
Mas é claro, é lógico, não adiantou nada.
E a escrava trabalhou, trabalhou, trabalhou.

Esse meu armário cheio de coisas iguais de cores diferentes
nunca me fez sentir bem com nada.
Ele parece eu, escrava de qualquer sistema.





terça-feira, 30 de junho de 2015

Ou minhocas de um vaso nosso

Vamos supor então que a alma é tipo um espírito que sobrevoa nosso corpo. É assim que eu a imagino. Então, se você me permitir, eu gostaria de propor um outro motivo para a alma. A alma é como a água. Há sei lá quantos bilhões de anos é a mesma água que banhou Napoleão e Aristóteles e Shakespeare e você e eu. A alma pode ser assim. Posso pertencer a mesma alma que um dia pertenceu a um escravo ou a um poeta. E nós esbarramos com almas que já foram nossas melhores amigas ou minhocas de um vaso nosso. E por isso às vezes pensamos em algumas pessoas e as almas as chamam para perto de nós e nós coincidentemente as encontramos. Sei lá. Quem foi que inventou essa história de almas? Isso nem deve existir de fato. Quem é que pode provar?

Pale Blue Dot

Tendo em vista que o tempo que passou até agora não foi absolutamente nada, e que a gente acabou de chegar num processo que dura tanto tempo que somos até mesmo incapazes de contar - e de entender e de perceber e de se espantar. Tendo isso em vista, por que conseguimos ser tão mesquinhos?
Infelizes,
Porcalhões,
Maldosos,
Assassinos,
Audaciosos,
Arrogantes,
Hipócritas,
Mentirosos,
Egocêntricos,
Egoístas,
Fundamentalistas,
Sozinhos, sozinhos,
Sozinhos, completamente sozinhos?

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Presa na garganta

Era uma vez uma história entalada em uma garganta. Uma história que não saia da garganta e fazia os olhos lagrimejarem e os dedos atrofiarem e o peito apertar. Uma história que doía como um filho de 12 meses preso no ventre pesado de uma velha mãe. Essa história nunca saiu da garganta. Dias e meses se passavam e ela mais se afixava nos ossos do meio da garganta. Parecia uma alga marinha, dessas verdes que se prendem no vidro do aquário. E aquário é o meu signo, mas mesmo se fosse câncer eu acho que essa história não sairia da garganta. Até porque não é pela garganta que ela há de sair. Talvez pelos dedos, talvez por um palco bem grande, talvez no ralo de um chuveiro, talvez numa linha telefônica enrolada num pescoço. Talvez em lugar nenhum. Talvez essa história seja uma poesia - que talvez já tenha sido escrita bem antes.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Janela

O cimento da parede da nossa casa separa o nosso corpo.
Seu corpo de cimento, o meu de parede - e a casa vazia.
A casa faz eco no meu peito de pedra.
A casa faz eco no seu peito sem nada.
Eu na sala, ele no quarto e a casa sem ninguém.
- Onde estão os moradores desta casa? - pergunta alguém.
- Não estão aqui. - respondem as paredes.
É que as paredes nem sabem mais dos moradores:
paredes, passos, camas, nada, ninguém.
Uma coisa na casa faz barulho,
uma coisa na casa parece ter vida:
a janela aberta cheia de vento.


Tem sim

O pouco que me restou foi isso:
rimar sim com fim.
Tem coisa mais clichê,
mais vazia,
mais infantil que rimar sim, mim, fim?
Tem, tem sim.
Não rimar nada e deixar a vida passar.


sexta-feira, 15 de maio de 2015

Auto-censura

Dentro de mim cabe tanta coisa, tanta gente, tanto desejo.
Dentro dessa casca aqui que alguém fez.
Ou será que não, ou será que ninguém fez?

Tenho dores nas costas,
rinites fortes,
fortes preguiças de dar bom dia.

Gosto de ser amada,
mais do que amar.
Mas isso não sou eu que digo,
é o meu psicanalista.

Tenho medo de viver,
mais do que de morrer
- e isso me derruba às vezes,
mas eu seguro firme.



Viela, montanha, isolamento

Por que desviei? Por que não observei, por que não ouvi o seu chamado? Em que viela, montanha, isolamento eu estava? Quando você apar...