sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Abandono

Muitas crianças, em determinadas situações, têm medo que os seus pais as abandonem. Uma vez eu e minhas irmãs fomos com nossos pais numa loja japonesa chamada "Sanrio" de bichinhos verdes, rosas, roxos e estojos e lapiseiras e papéis de carta e um mundo infinito de coisinhas de menina. Eu não lembro com quem ficamos, não lembro por quanto tempo, não lembro de muita coisa, só de ficar na porta da loja, sem entrar naquele mundo de coisinhas, com medo dos meus pais não voltarem nunca mais.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Redação

Um dos temas de uma das redações que você precisa escrever é: "O que é mais importante para você no mundo e por quê?". Vamos lá, eu te ajudo. É muito importante manter preservada a nossa imortalidade, diz o meu pai. Meu pai também diz que é importante ser humilde, ler bastante, ter tempo para nós mesmos. Minha mãe diz que é importantíssimo manter a doçura, ter compaixão, fazer sempre o bem. As minhas irmãs... uma diria que salvar o mundo é fundamental. A outra diria que poesia, mágica e energia boa salvarão o mundo e portanto são as coisas mais importantes. Acho que já ficou bem claro então pra mim qual é a coisa mais importante no mundo: família. Essa família.

Os meus cabelos compridos

Vejo meninas de cabelos curtos, lindas, e tenho vontade de cortar o meu. Acontece que eu gosto do meu cabelo longo me atrapalhando o dia todo, me dando calor. Gosto de poder prender, soltar, de pôr pro lado, de usar para chamar atenção. Gosto do meu cabelo, mas fico pensando o tempo todo se eu seria mais bonita com ele curto. Se eu fosse mais bonita, eu me sentiria menos sozinha?

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Geneve

Ouço, pelas ruas de Geneve, um carro acelerado e muita buzina.
Ninguém buzina em Geneve - reconheço minha irmã na esquina.
Pelas ruas de Geneve ouço gritos de alguém desesperado.
Antes que me desespere também, percebo: é minha irmã, bem ao meu lado.
As ruas de Geneve, em outubro, ficam molhadas, vazias, sem graça:
eis que surge minha irmã cruzando de trenzinho a praça.
O que aconteceu que Geneve em novembro ficou vazia?
É que todo mundo sente falta do barulho que a minha irmã fazia.


terça-feira, 24 de novembro de 2015

Obra de arte

Hoje eu tenho substrato para escrever poesia: dor, solidão e silêncio. O que me falta apenas é um pouco de inspiração. Um dia um amigo me disse que quando a gente tem substrato, a inspiração fica parada na porta, esperando para entrar a qualquer momento. Mas é preciso convidá-la. Ele disse que a gente convida a inspiração com muito trabalho. Ficar parado, esperando que ela entre não funciona. Esse meu amigo pinta quadros. Ele nunca espera a inspiração entrar, ele pinta cinquenta quadros e aí a inspiração vem e ele faz uma obra de arte.

(para Yusk)

sábado, 14 de novembro de 2015

Malandragem do Mickey

Meu pai devia ter uns quarenta e poucos anos. Eu devia ter uns 10, 11. Ele me deu um relógio de pulso do Mickey, ajustou a hora, me ensinou direitinho a entender o relógio em toda a sua complexidade e disse: "quero que você volte para casa às sete horas em ponto." Eu entendi bem e fui brincar. Mas eu me achava mais esperta que ele, então puxei o pininho e fiz com que o relógio parasse nas sete horas. E fiquei até as sete e meia, oito, oito e meia, nove. Quando deu nove horas e eu me cansei, voltei pra casa. E pus o relógio pra funcionar novamente. "Mas papai! Olha aqui! O relógio marca sete horas!" Meu pai estava furioso e nem quis papo. Eu nunca mais pude tentar aquele truque, porque meu pai tomou o relógio do Mickey de mim.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Urubus no telhado

A sua percepção do tempo anda te preocupando
e você faz poesias com urubus.
Diz que eles estão te esperando 
no telhado da sua casa.

Enquanto isso eles esperam ratos,
pássaros, só gambás que não -
gambás não sobem em telhados.

Urubus não esperam gente como você,
que inventa personagens para suas filhas:
tio de bigode, professor Tibúrcio,
Cordélia Brasil.

Urubus não esperam
gente que lê livros e mais livros,
que faz rir até perder a respiração,
que faz o melhor bacalhau do mundo,
que tem uma mulher como a mamãe. 

Você é do tipo de gente
que faz urubus saírem voando.



Carne

Nunca iremos admitir o nosso adeus.
Não era pra ser, foi tão disfarçado.
Ninguém sabia ao certo
que você ia embora.

Nunca iremos admitir o fracasso
de tentar te manter aqui.
Nesse fim de mundo,
nesse pedaço de mundo,
nesse mundo pequeno,
que era o nosso.

Não era pra ser, foi até engraçado.
Você nem disse tchau.
Tomamos café da manhã,
e num instante você partiu.

Ninguém sabia ao certo
que você não ia voltar logo.
Que ia ficar tão longe,
por tanto tempo, pra todo o sempre.

Que você ia embora um dia,
eu até podia imaginar:
como prender uma borboleta?
Mas eu achei que era um embora perto,
nunca, nunca, nunca tão embora assim.

sábado, 12 de setembro de 2015

Enterro

Que diferença vai fazer
quando eu morrer?
Deixarei filhos, netos,
livros?
Eu morta serei bela,
feia, velha?
Alguém vai anotar
que horas são,
se eu me jogar?
Vai ser tarde,
vai ser triste,
vai dar tempo?

O Ronco e a Culpa

Quando eu era pequena dormia num quarto com minhas duas irmãs. Teve um dia que uma delas roncava tão alto que eu achava que era mentira. Achava que ela estava fazendo barulho só pra sacanear, como eu mesma fazia de vez em quando. Desde pequena gostava de atuar. Às vezes minha atuação era roncar pra sacanear as minhas irmãs. Nessa noite uma das minhas irmãs dormia em sono profundo e roncava. Eu disse: "para já com esse ronco se não eu vou contar pra mamãe!" Ela continuou de biquinho aberto, roncando. Na segunda vez eu dei um berro tão alto de "para!" que acordou meu pai. Meu furioso pai que detesta ser acordado com barulho. Ele entrou no quarto espumando, quando eu disse: "Foi ela que começou! Ela tava fazendo barulho de propósito!" A pobrezinha da minha irmã acordou num susto por causa da luz acesa e gritou: "Desculpa! Desculpa!" E meu pai foi embora dormir. Assim que ele saiu do nosso quarto ouvi minha irmã virar na cama sonâmbula e começar a roncar tudo de novo.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Como explicar?

Tenho um órgão dentro de mim que pulsa tão forte que estufa meu peito. Quando eu estou deitada, posso ver o meu peito subir e descer por causa dele. Esse órgão é, estranhamente, o que faz tudo funcionar em mim: da fala ao pulo. Não faz muito sentido, como explicar? Eu mesma posso fazê-lo parar a qualquer momento se eu quiser. Acontece que, estranhamente, o meu objetivo é lutar o tempo todo para que ele não pare nunca.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

A essência de outro homem

Como explicar a um homem sobre a essência de outro homem?
Os homens são todos iguais
na estrutura, no esqueleto e na maioria dos medos
(de viver, de morrer, da solidão).
Há, entretanto, coisas que diferem os homens de forma absolutamente misteriosa.
Há homens que gostam de contar, de mandar, de poder, de inventar.
E há os homens que flutuam.
Como explicar a um homem que gosta de mandar
sobre os homens que flutuam?

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

O homem e o amor

Quando foi que
O homem percebeu o amor?
Foi sentado, indo embora, a dormir?
Foi distraído, foi bonito, foi algo?
Como foi?
Muito me pergunto
se foi olhando a janela, se foi a passear.
O amor explodiu no peito? 
O peito doeu?
Foi de dia? Foi no verão?
De madrugada, talvez, com um pincel e uma tela.
Ou ao som de um instrumento,
talvez só o coração, a pulsação e o vento.
Quando foi que o homem pensou:
"é isso."?
Esse homem - ou talvez mulher - 
chegou a duvidar que era isso?
E se foi uma criança? Como é que ela percebeu?
Ela estava brincando, correndo, parada?
Ela estava com o pai, um amigo, um irmão?
Quando foi, meu deus, que isso aconteceu?
Muito mais me pergunto:
quando foi que o amor percebeu o homem?
Ele já percebeu?

domingo, 16 de agosto de 2015

Briga

Hoje quando você não veio dormir
meu peito estufou cheio de suspiros.
Esperei ouvir, nos seus barulhos,
o som de você subindo as escadas.
Esperei, esperei, esperei.
Só ouvi um cuspe na pia,
como se cuspisse algo de dentro,
algo contra mim,
algo que talvez fosse eu inteira.
E depois você fechou a porta.
E depois, eu fechei a porta,
fechei os meus olhos, fechei o meu peito,
fechei-me inteira.

Não

Não vomite. Não é seguro vomitar. Não se estresse, não se desencante, não fuja, não se sinta perdido, não não não. Não seja assim tão cruel com seu corpo, não emagreça, não se deixe engordar, não coma isso. Não tome tantos remédios, não acredite em mentiras. Acredite em Deus, reze, tenha fé. Não não não, não perceba que quase tudo é mentira e nada vale mesmo a pena. Não se sacrifique, não perca tempo. O tempo é escasso, é rápido, é quase nada. Não fique sozinho. Fique com Deus. Deus te acompanhe, Deus te ouça. Não tenha medo, não seja destemido demais. Peça perdão, dê o outro lado a tapa, ajoelhe diante de uma cruz. Não sofra, não chore, não se sinta abandonado, não queira ir embora daqui. Não grite com os outros, não desrespeite os outros. Quem são os outros? Talvez os outros sejam Deus. Não pergunte.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Tico

Durante um mês e alguns dias você viveu conosco. Teve gente que passou dias mais felizes enquanto você esteve por aqui. Conheço um cara que queria agradecer a sua doce existência por ter feito a dele própria mais doce. Sei que você teve dias difíceis, eu mesma presenciei um. Você estava ferido e mesmo assim não deixava de se aproximar daquele cara, dava a mão pra ele todo feliz. Eu vi. Sua despedida foi muito repentina e levou um pouquinho de nós todos. Se fossemos da sua espécie, poderíamos dizer que algumas penas caíram quando você fechou os seus olhinhos para nós.

Eu já fui

Quando digo que preciso ir embora,
não quero dizer que não,
quero dizer que preciso ir embora.

Já não posso mais ficar:
algo aconteceu dentro de mim
e eu já fui.

Nas minhas malas magras,
eu me trouxe pra cá.
Te falo do futuro:
aqui, da minha viagem ao mundo.

E que mundo é esse, meu Deus?
E que viagem é essa em busca do seu mundo?
Te falo aqui do presente:
- Vá procurar saber.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

A vida certa

Eu sei que eu já dei de cara com a proposta da minha vida. A proposta para me fazer completa, me elevar o espírito, me deixar em paz com o mundo já veio. Sim, ela me chamou mas eu não percebi e saí andando. Acho que foi isso que me aconteceu. Hoje eu vivo uma vida paralela à que eu deveria viver. Vivo uma vida que, se eu tivesse feito a escolha certa, eu nem pensaria que poderia haver outra opção. Por isso penso que nada que eu possa fazer pode ser errado. Minha vida já é a errada, já não era para ser essa. A vida certa teria poesia, música e teatro. Teria horas para criar, para gastar. A vida certa teria gente na hora certa - e na hora errada só teria eu, porque sou de aquário e preciso ficar só de vez em quando. Na vida certa eu poderia escrever o que eu quero no meu expediente, porque o meu expediente seria meu - e não de uma empresa. Se eu vivesse essa vida acho que seria mais paciente. Seria mais calma, não roeria unhas. Eu poderia ser quem eu sou lá de dentro, não perderia tempo (e nem energia) com o que eu não gosto, com o que eu não sou. Não perderia tempo com tanto cansaço. Porque cansaço não é coisa de gente jovem e cheia de vontade como eu. Eu tenho dor nas costas, eu tenho dor na alma. Na vida certa não existe dor na alma.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Não ia dar certo

Eu tive um namorado autista. Ele mal falava comigo, ou pior: mal me abraçava. Eu gostava dele porque algo naquele mundo particular que ele vivia me fascinava. Era um mundo onde só a arte o atingia. Eu tentava, eu juro que tentava, mas só a arte conseguia. Kubrick, Machado de Assis, Radiohead. Com esse pessoal ele se comunicava bem. Eu assistia tudo morrendo de inveja. Ele vivia me doutrinando, dizendo o que eu devia escutar, ler, onde poderia ver arte de verdade. Eu jamais questionava, ele sabia bem do que tava falando. Mas não ia dar certo. Ele era muito calado comigo, justo eu que preciso tanto do peito do outro. Além do mais, eu tenho um segredo que ele nunca desconfiou. Eu sou como ele: só a arte me atinge, só a arte consegue se comunicar comigo de fato. Mas eu sou bem diferente dele: consigo fingir bem. Ninguém percebe que eu também sou autista. E fico pensando que a gente pode sempre trocar o "u" por "r", e fica tudo bem, a sociedade até aceita quem se diz artista.

Escrava

Tenho um armário cheio de coisas.
A dona da casa onde eu moro disse que são coisas demais.
- Algum dia você vai se livrar de tudo isso, ela disse.

Que coisas são essas?
Camisetas e vestidos feitos provavelmente
por uma costureira que trabalhou como escrava.

Comprei para me sentir melhor.
Mas é claro, é lógico, não adiantou nada.
E a escrava trabalhou, trabalhou, trabalhou.

Esse meu armário cheio de coisas iguais de cores diferentes
nunca me fez sentir bem com nada.
Ele parece eu, escrava de qualquer sistema.





terça-feira, 30 de junho de 2015

Ou minhocas de um vaso nosso

Vamos supor então que a alma é tipo um espírito que sobrevoa nosso corpo. É assim que eu a imagino. Então, se você me permitir, eu gostaria de propor um outro motivo para a alma. A alma é como a água. Há sei lá quantos bilhões de anos é a mesma água que banhou Napoleão e Aristóteles e Shakespeare e você e eu. A alma pode ser assim. Posso pertencer a mesma alma que um dia pertenceu a um escravo ou a um poeta. E nós esbarramos com almas que já foram nossas melhores amigas ou minhocas de um vaso nosso. E por isso às vezes pensamos em algumas pessoas e as almas as chamam para perto de nós e nós coincidentemente as encontramos. Sei lá. Quem foi que inventou essa história de almas? Isso nem deve existir de fato. Quem é que pode provar?

Pale Blue Dot

Tendo em vista que o tempo que passou até agora não foi absolutamente nada, e que a gente acabou de chegar num processo que dura tanto tempo que somos até mesmo incapazes de contar - e de entender e de perceber e de se espantar. Tendo isso em vista, por que conseguimos ser tão mesquinhos?
Infelizes,
Porcalhões,
Maldosos,
Assassinos,
Audaciosos,
Arrogantes,
Hipócritas,
Mentirosos,
Egocêntricos,
Egoístas,
Fundamentalistas,
Sozinhos, sozinhos,
Sozinhos, completamente sozinhos?

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Presa na garganta

Era uma vez uma história entalada em uma garganta. Uma história que não saia da garganta e fazia os olhos lagrimejarem e os dedos atrofiarem e o peito apertar. Uma história que doía como um filho de 12 meses preso no ventre pesado de uma velha mãe. Essa história nunca saiu da garganta. Dias e meses se passavam e ela mais se afixava nos ossos do meio da garganta. Parecia uma alga marinha, dessas verdes que se prendem no vidro do aquário. E aquário é o meu signo, mas mesmo se fosse câncer eu acho que essa história não sairia da garganta. Até porque não é pela garganta que ela há de sair. Talvez pelos dedos, talvez por um palco bem grande, talvez no ralo de um chuveiro, talvez numa linha telefônica enrolada num pescoço. Talvez em lugar nenhum. Talvez essa história seja uma poesia - que talvez já tenha sido escrita bem antes.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Janela

O cimento da parede da nossa casa separa o nosso corpo.
Seu corpo de cimento, o meu de parede - e a casa vazia.
A casa faz eco no meu peito de pedra.
A casa faz eco no seu peito sem nada.
Eu na sala, ele no quarto e a casa sem ninguém.
- Onde estão os moradores desta casa? - pergunta alguém.
- Não estão aqui. - respondem as paredes.
É que as paredes nem sabem mais dos moradores:
paredes, passos, camas, nada, ninguém.
Uma coisa na casa faz barulho,
uma coisa na casa parece ter vida:
a janela aberta cheia de vento.


Tem sim

O pouco que me restou foi isso:
rimar sim com fim.
Tem coisa mais clichê,
mais vazia,
mais infantil que rimar sim, mim, fim?
Tem, tem sim.
Não rimar nada e deixar a vida passar.


sexta-feira, 15 de maio de 2015

Auto-censura

Dentro de mim cabe tanta coisa, tanta gente, tanto desejo.
Dentro dessa casca aqui que alguém fez.
Ou será que não, ou será que ninguém fez?

Tenho dores nas costas,
rinites fortes,
fortes preguiças de dar bom dia.

Gosto de ser amada,
mais do que amar.
Mas isso não sou eu que digo,
é o meu psicanalista.

Tenho medo de viver,
mais do que de morrer
- e isso me derruba às vezes,
mas eu seguro firme.



Escrivaninha

Estou sentada na sua cadeira.
Eu me sento como se fosse você,
digito no computador do seu jeito
e ignoro completamente o resto do quarto
- como você faz quando senta nessa cadeira.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Ida

Assisti um filme que acho que você vai gostar. Apesar de ser em preto e branco, e ser polonês, e ser bem devagar e silencioso, e também ser cheio de enquadramentos diferentes, apesar disso ele é cheio de referências lineares hollywoodianas. Por exemplo: a história começa de um jeito, até que de repente um problema é apresentado. Então, a protagonista parte numa aventura (como em "O Mágico de Oz") para encontrar respostas, conhecer a si mesma e aprender um monte de lições. A protagonista então vive um ápice, (ou de alegria ou de tristeza. Neste caso, acho que foi uma alegria aquele rapaz moreno de cabelos curtos, saxofonista em uma banda de jazz.) e tem que tomar uma decisão. A tomada de decisão não é fácil e acompanha um rompimento. Mas existe uma pessoa que vai acompanhar essa jornada e ajudá-la por algum motivo. Foi assim também em "A Vida Secreta de Walter Mitty", que tanto agradou todo mundo - inclusive nós dois. Neste filme - Ida - tudo isso é feito de um jeito lindo, poético, doce. A protagonista parece um lindo retrato antigo. Os silêncios deste filme são mais importantes que qualquer palavra. E os silêncios aqui acabam vencendo por fim. Além disso tudo, esse filme ainda me apresentou muito bem apresentado a John Coltrane - e jazz não é um estilo de música que agrada todo mundo. Fico tão feliz que agrade você também. Acho que terei que assistir esse filme de novo com você. Tudo bem, com você eu assisto.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Para minha irmã

Eu te apoio porque em parte eu queria estar no seu lugar.
Viver um amor tão bom longe de casa,
longe do ninho, perto de você mesma. 
Longe é bom pra se conhecer.
Longe é bom para ver tudo de longe e dizer: "quero estar aqui."
E aqui pode ser lá - ou aqui. 

Essa casa

Eu e você
quanto tempo
há quanto tempo que somos
eu e você?

Nossa casa
toda nossa
há quanto tempo que é nossa
essa casa?

Não faz tanto tempo,
parece que foi ontem
- e quase foi 
pra quem ainda tem uma vida toda.



Mente mente

Eu tenho dúvidas se eu me conheço de verdade, se eu sou eu mesma. Quero coisas que eu, se pudesse escolher, não quereria. Seria mais em paz comigo mesma, teria outras neuroses. E como é que eu não posso ser como eu queria? Não sou eu mesma que mando em mim? Não sou eu mesma que digo pela mente: "mexam-se braços!" e eles se mexem? Por que não posso dizer pela mente: "seja assim! Goste disso!", por que não? Eu sendo assim, tão não eu - ou como eu gostaria de ser, eu me sinto distante, muito distante.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Derretendo a parafina

Não está fazendo sol hoje. O dia está meio seco e eu não estou ansiosa para ir trabalhar. Gostaria que o meu trabalho fosse esse: observar o céu pra ver se o sol vem. Hoje era esse emprego que eu gostaria de ter. Nem precisaria fazer as unhas porque seria só eu e o céu e ninguém para ver se eu tenho unhas. Eu ficaria criando poemas nos intervalos entre uma nuvem e outra e de repente poderia até ler um ou outro livro. De repente, eu até me daria conta de que o mês de agosto passou tão rápido... mas espera, já estamos na metade de setembro. Se eu continuar distraída assim, daqui a pouco já estamos no próximo ano. Será que prestando mais atenção na vida ela passa mais devagar? Ou talvez tomando remédios desses que trazem juventude? Afinal, nosso único sinal de que o tempo está passando é ver a gente e as pessoas à nossa volta envelhecendo. Não haveria outro modo de comprovar que os anos realmente passam se não fossem os sinais em nós. A gente veria aquela vela grande e gorda derretendo a parafina, a gente veria os nossos bichinhos de estimação morrendo, veria as pessoas mudando de casa, sentiria o cheiro de coisas apodrecendo, veria árvores mudando de cor, mas a gente se acostumaria tanto que nem perceberia que aqueles eram sinais dos anos passando. Aí poderíamos demorar mais anos - muitos anos - para ter filhos, para casar, para ficar rico, para viajar pelo mundo (e não deixar nenhum país de fora). Poderíamos não tomar decisões todos os dias, às vezes a gente deixava a decisão pro fim do mês. A gente poderia perder eventos imperdíveis porque eles se repetiriam em algum momento da eternidade que seria a vida. A primeira coisa que eu iria fazer era ser feliz. Feliz porque eu teria tempo - toda a eternidade - para correr atrás dos meus sonhos, para rever as minhas escolhas, para comprar um gatinho, para tocar piano, para aprender francês, para morar no Japão. Eu não me sentiria o tempo todo atrasada para o tempo da vida.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

O big bang de hoje

Ela mexia as mãozinhas e sofria, parecia um ursinho bem pequenininho. Chorava. Foi a primeira vez que vi um bebezinho tão pequeno, tão perto de mim. É uma sensação bem diferente, não sei se posso definir a sensação de ver uma vida começando. A minha começou há tanto tempo, já vi tanta coisa acontecer e de repente eu vejo com meus olhos, pela primeira vez, uma vida começando naquele segundinho. Eu tratei logo de segurar as lágrimas, porque ninguém ali chorava e eu era a parente mais distante. É uma daquelas poucas sensações da vida que transformam a gente num instante. Tinha uma mulher ali, um barrigão e muitos meses de espera. De repente tem uma mulher magrinha e uma vidinha que acabou de começar bem na minha frente. Foi emocionante.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Tento

Tento escrever uma poesia
Mas eu não sei o que é uma poesia,
Nem como é que se faz uma.
Eu tento mesmo assim
Porque eu acho que tudo,
Tudo, tudo, tudo nesse mundo
Fica um pouco melhor
Com um pouco de poesia.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Quem escolheu quem

Não sei
se eu escolhi essa vida
ou se essa vida me escolheu.
Não sei
mas em qualquer um dos casos
todo mundo sai perdendo.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Home-less

Desde que vim pra cá passei a ver mais mendigos. No parque, nas ruas. Tem alguns cujo cheiro é quase obsceno. Alguns que tem rituais como preencher o banco de papelão, colocar todos os pertences na ponta do banco e sentar virado de costas para quem passa. Fico criando histórias na minha cabeça: por que aquele crackudo está levando a mãe - ou a avó - para passear numa cadeira de rodas? Será que ele a espancou até que ela não pudesse mais andar, ou será que ele só quer fazê-la bem? Acho que o pior é olhá-los nos olhos - que tipo de trauma passou com você? O que te faltou? Te faltou tudo? Você já foi rico, já foi homem, já foi alguém? E aquele casal de mendigos que eu vi outro dia? Eles se sentavam juntos, esparramados no banco, trocando piolhos e dividindo o cheiro ruim. Quem passava na rua talvez nem via, mas com certeza sentia o cheiro. Uma vez eu voltava para casa no fim de um dia quente demais e dei de cara com um mendigão negro, pegando água do esgoto com um copinho e se banhando. Aquele dia eu chorei.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Uma pinta no olho

Encontrei um cara outro dia no parque
ele tinha uma pinta em cima do olho direito
e talvez aquela pinta tenha afetado o ouvido direito
porque ele não conseguia colocar o fone de ouvido 
- só no ouvido esquerdo.

sexta-feira, 20 de março de 2015

rallenta

O psicólogo
o professor
o gastroenteorologista
A mulher
o pai
os irmãos
todos falam para desacelerar
até mesmo a religião: "desacelere"
Como é que se faz isso
ele não sabe - nunca aprendeu -
nem ninguém sabe dizer.

domingo, 15 de março de 2015

de para

De triste foi para tranquilo 
e de tranquilo para morto.
Depois de morto,
o que restou foi só para quem ficou
- mas pouca gente ficou, 
porque as pessoas esquecem
e superam
e fica tudo bem.
De bem vai para normal
e de normal para morto.

Pelo menos

Perdão
perdão
perdão
perder
pedra
pertinho, perdão
perdido
pelado
pescoço
perdão
penso
pensar
pesado
pêlo
pêndulo
pedir perdão

Perdão

[Que coisa mais evoluída essa
de pedir perdão.]
Se de repente os céus me chamassem,
e eu morresse bem agora - antes de você pedir perdão -
você perceberia, então, a falta que faz
para mim, para você, para a paz mundial
só um perdão? 

sexta-feira, 13 de março de 2015

sexta-feira, 6 de março de 2015

Você salvou a minha vida algumas vezes. 
Deixa eu salvar a sua desta vez? É o que eu mais quero.

Turquoise Hexagon Sun

Naquele videoclipe na internet, eu vi claramente o quanto somos forminguinhas audaciosas e prepotentes que achamos que vamos chegar a algum lugar, mas todo mundo quer chegar no mesmo lugar e não há lugar pra todo mundo. Vi também o quanto está tudo o tempo todo em movimento, nada pára nem por um segundo, nem quando dormimos, nem se entrarmos todos em coma. A Terra mexe, e os átomos mexem, e o ar mexe e o nosso organismo mexe e, mesmo se nada disso mexesse, a Terra está flutuando num infinito invisível de uma mini galáxia de um espaço que acho que nem Deus sabe o fim. Entende onde eu quero chegar? Sim? Que bom, então vá tomar o seu banho e ir trabalhar porque sábado e domingo você pode achar que descansa e voltar a fazer tudo de novo na segunda-feira.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Por aqui

Desta vez escrevo para vocês dois que me lêem. Ninguém além de vocês dois me lê então portanto isso que escrevo só pode ser para vocês. Quero contar como é viver por aqui. E pode ser sim que desta vez eu tenha misturado realidade e ficção (normalmente é só ficção). Aqui é assim: tudo é caro, só tem gente bonita no boteco (que nem é assim tão boteco) e podemos andar à pé. Estamos pertinho de tanta coisa! É muito doce pensar que a qualquer hora que eu chegar em casa quem eu quero vai estar aqui. Acho que isso é a maior vantagem desse lado de cá. Gosto também do ar e do silêncio. Eu sempre sou o mais barulhento de todos os sons por aqui. Aqui combina com jazz e combina com chá à tarde. Combina com muita leitura e filmes interessantes. Gosto de receber gente, de barulho na casa. Gosto de ficar sozinha aqui também - gosto mais ainda de ficar acompanhada. Eu gosto de achar as minhas coisas nos lugares onde eu deixei ontem, mas também sinto falta delas guardadinhas com cheiro de mãe.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Cartão

Quando chegou o dia do meu aniversário e você não me escreveu nenhum cartão eu me questionei se você me conhecia de verdade. A falta das suas palavras me deixou muito triste.

Uma parte do cérebro pensa nisso também

A rotina, o dia a dia, o cotidiano, o costumeiro, o de sempre, o comum, o diário. O aqui e agora, o neste instante, o momento, o hoje. Quem sou eu - a descoberta do eu - o que eu quero ser, por que estou aqui, o que estou fazendo aqui? Ser onde, estar o quê, fazer como? Amar, cair, ficar, pertencer, não pertencer. Estar e não estar. Pode estar e não estar? É preciso ser alguma coisa? Estar se tornando, voltar a ser, nunca se tornar. O passado não existe, não existe futuro também - só existe o exatamente agora. O tempo está passando para todo mundo igualmente, mas para alguns não dói.

Not interesting

Escrever faz parte da minha salvação - do meu mundo secreto, da minha vida paralela. Sou tipo uma agente dupla que trabalha para servir de espiã do mundo para mim mesma. Eu vivo para observar e escrever sobre o que eu observo. Só preciso achar um pseudônimo, um alterego, porque escrever sobre mim mesma não interessa a ninguém.

O cão da raça Boxer

Eu me lembrei de repente de um ano novo bem antigo na nossa casa de campo. Eu era bem pequena, mas já passava dos dez anos de idade. Lembro de caminharmos pelas ruas dos quarteirões vizinhos, eu e a minha irmã do meio, e talvez a família toda. Lembro que no meio do caminho um cão da raça Boxer de cor marrom clara começou a andar com a gente. Aí alguém como o Miguel talvez disse que aquela raça de cão era super boazinha e adorava pessoas e carinho. Nós adotamos o Boxer marrom e deixamos que ele nos seguisse até nossa casa. O ano novo foi se aproximando e ele ficou lá: fizemos a ceia, papai acendeu um rojão com o Miguel, mamãe ficou cuidando da cozinha com a Glades. A impressão era de uma casa cheia, animada. Lembro da figura do meu pai dando gargalhadas com o Miguel e uma cervejinha na mão. Eu fui obrigada a ficar com o filho mais novo do Miguel porque ele era exatamente da mesma idade que eu (e eu sempre pensava: "e daí?"), ele era um pouco devagar e nós nunca ficamos amigos. Então nós todos assistimos o especial da Globo e festejamos tomando coca-cola e esperando a hora de ir dormir, que nessas ocasiões era super tarde. De tempos em tempos eu ia até o cão da raça Boxer ver se ele queria mais pão, mais água ou mais carinho. Eu tinha uma esperança enorme de que o papai ou a mamãe iriam aceitar ficar com ele pra sempre. Ele ficou lá o tempo todo, até mesmo depois dos fogos. Acontece que no dia seguinte eu acordei e fui correndo lá fora, perto do pratinho de comida dele, e ele não estava mais lá.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

A (falta de) função da complexidade

Que deus é esse que criou um homem tão complexo? Que colocou no homem a saudade, a baixa auto-estima, a insegurança, o complexo de inferioridade, a indecisão, a vontade de ir quando tem que ficar, a vontade de sair voando, a coragem de coisas absolutamente insensatas, o tesão por maluquices, as taras, as imundícies, a vontade de morrer? Não faz o menor sentido sermos assim tão complexos. Tudo no nosso corpo foi absolutamente calculado e tudo funciona em função de nos manter funcionando. E isso significa que deve haver alguma função em nos fazer tão complexos.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Adeus

Você sabe reconhecer um adeus? Quando ele acontece, você sabe que ele está acontecendo? Você se dá conta que é ele? Eu acho que eu sim. Eu sinto ele soprar no meu pescoço o seu bafo insuportável. Me dá um pouco de melancolia sentir minha mão escorrendo no ar depois do adeus disfarçado de tchau. Espero que você perceba os adeus que lhe chegam. Quando a gente percebe a saudade fica menos pesada.

sábado, 24 de janeiro de 2015

O deus agora

Você disse para eu confiar no agora.
O agora, saiba,
foi naquele instante, naquele agora,
a minha religião.

O mundo tem tanto personagem

Ele demonstrou interesse logo de cara, chegou até a ficar desagradável se aproximando demais. Era um homem bonito, talvez um pouco meigo, ma...