segunda-feira, 27 de maio de 2013

Flerte

Um segundo após o outro
eu sofro com a vida.
Num segundo e não no outro
eu seguro o choro,
prendo a respiração.
A vida muda, a dor passa,
a respiração ainda presa.
Depois, com a pressa,
tudo volta num segundo,
e no outro eu sinto muito.
A vida, sendo tão pouca,
sobra em mim e nada me resta.
Eu transbordo a vida,
às vezes pelos olhos.
Eu espio a morte,
ela me espia de volta.
O flerte é grande,
mas eu não morro.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

G. Benção

Na verdade me dói mais um tanto, mesmo que com certa dose de alívio, a sua presença na minha vida quase adaptada. Quando o meu olhar já estava quase destreinado, você pediu gentilmente que eu acordasse. Ao som de um homem que conseguiu transcender a música, na verdade eu não sei bem se acordei ou se renasci.

terça-feira, 21 de maio de 2013

I think it's sad the way I see the world.

É?

Acabou a tinta, a bateria, a dor.
Acabou a música, a luz, a água.
O sabor, o tempero, o lugar.
Acabou o dia e o minuto que passou.
Ainda tem um pouco de mar.
Um pouco de vento, um pouco de algo.
Algo que eu não sei nem o que é,
eu não enxergo bem à noite.
Ainda tem a noite.
Ainda tem o dia seguinte.
Ainda tem muita coisa - mesmo que tudo tenha acabado.
Tudo não é tanto assim, é?

domingo, 19 de maio de 2013

Estrada

Eu descobri tanta música nova pra gente ouvir nas nossas viagens de carro. E se você ficar com sono, eu não vou me importar em escutá-las sozinha enquanto dirijo. Eu fico pensando na vida enquanto vejo a estrada se curvar e fico pensando na gente e fico pensando se eu deveria ser assim tão triste quando eu fico triste. Mas se de repente eu me enfiar em um acidente e nós dois morrermos eu nunca vou descobrir se a minha tristeza é mesmo comum. Por isso eu preciso tentar sem você. Eu preciso ver do que é feita a minha tristeza. Me perdoe, eu não quero morrer sem saber. Me perdoe por ser triste, por ser assim triste, por ser assim.

e-mail antigo

O Munch (se fala munk) era um artista norueguês (1863 - 1944) , que teve uma vida MUITO turbulenta. A mãe dele morreu aos 5 anos, uma das irmãs morreu aos 14, o pai mergulhou numa onda de religiosismo meio fanático-doidão e ele (o Munch) era um cara sozinho.

Foi ele que fez o famosíssimo O Grito. 

Esse quadro aqui me chamou a atenção... Chama Separação. 

Tudo que ele pintava mostrava desespero, solidão, tristeza... É triste de ver. 

Nesse quadro a mulher, meio fantasmagórica, meio sonâmbula, vai embora e o homem, desolado, segura o coração na mão. É tudo meio sombrio... É como ele enxergou uma das separações da vida dele. A mulher parte e logo vira um fantasma, e ele fica ali, sem saber o que fazer com o coração sangrando... 

Vê o que vc acha.

Vestido verde

Fazia muito frio quando eu ganhei aquele vestido dele. Foi um esforço vesti-lo escondido para fazer surpresa quando ele voltasse da cozinha. Fiquei até com um pouco de vergonha quando ele voltou e eu estava toda arrepiada dançando com o vestido. Mas ele riu, sei que gostou.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Aspen

Eu me lembro quando você foi viajar pela primeira vez. Meu coração doía tanto. Eu quis me vingar saindo de casa, indo à padaria, à locadora, à uma esquina sem nada. Eu riscava os dias no calendário: faltam quinze, dezesseis, dezoito dias (porque parecia que os dias só ficavam mais distantes da sua volta). Eu me arrastava pela vida - foram vinte e poucos dias de angústia. Eu sei que eu exagerei, devo ter errado feio nesse exagero, mas a verdade é que eu tinha asma, porque era do seu peito que eu queria respirar.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Se um dia eu me casar

Se um dia eu me casar vai ser por tanto amor, mas tanto amor, mas tanto amor, que não vai caber mais nada, acho que nem festa de casamento vai ter - vai ser tanta alegria, tanto prazer tanto só-eu-e-ele que nada mais vai precisar. Se um dia eu me casar, vai ser o dia mais lindo que o mundo já viu passar.

Lado errado

Foi o vento que levou tudo de mim. Eu tenho certeza que foi. Minha mãe não mudou nada de lugar dessa vez, eu não mexi, ninguém mais passou por aqui (e se passou, não levou nada). Foi o vento sim, eu vejo as folhas balançando pro lado errado. Se foi culpa da natureza, então eu já posso culpar alguém. E eu me despeço, despedaço, desconheço. Adeus.
Outro dia minha vida me perguntou o que eu queria.




(Eu sabia o que responder, mas fiquei em silêncio.)

Vinte e seis

Vinte e seis dias
vinte e seis planos
vinte e seis lágrimas
vinte e seis garotos
vinte e seis gargalhadas
vinte e seis desesperos
vinte e seis cadarços
vinte e seis insetos voando
vinte e seis iogurtes de morango
vinte e seis peças de teatro
vinte e seis conversas profundas
vinte e seis minutos desperdiçados
vinte e seis e eu não quero mais
não quero mais perder tempo
eu não quero mais perder os meus (únicos)
vinte e seis anos

terça-feira, 7 de maio de 2013

Fins

Eu percebi que eu já não sou mais a mesma quando escrevi um texto lindo sobre alguém, mas fiquei com preguiça de terminá-lo e escrevi qualquer coisa no fim. Quando li aquele fim eu me dei conta: estou me deixando pra trás. Eu não me importo mais com os fins.

Cadáver

Hoje eu sou apenas um cadáver com órgãos funcionando bem. Quero encostar num banco de praça e me deixar morrer. Só que até isso exige um...