segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Urubus no telhado

A sua percepção do tempo anda te preocupando
e você faz poesias com urubus.
Diz que eles estão te esperando 
no telhado da sua casa.

Enquanto isso eles esperam ratos,
pássaros, só gambás que não -
gambás não sobem em telhados.

Urubus não esperam gente como você,
que inventa personagens para suas filhas:
tio de bigode, professor Tibúrcio,
Cordélia Brasil.

Urubus não esperam
gente que lê livros e mais livros,
que faz rir até perder a respiração,
que faz o melhor bacalhau do mundo,
que tem uma mulher como a mamãe. 

Você é do tipo de gente
que faz urubus saírem voando.



Carne

Nunca iremos admitir o nosso adeus.
Não era pra ser, foi tão disfarçado.
Ninguém sabia ao certo
que você ia embora.

Nunca iremos admitir o fracasso
de tentar te manter aqui.
Nesse fim de mundo,
nesse pedaço de mundo,
nesse mundo pequeno,
que era o nosso.

Não era pra ser, foi até engraçado.
Você nem disse tchau.
Tomamos café da manhã,
e num instante você partiu.

Ninguém sabia ao certo
que você não ia voltar logo.
Que ia ficar tão longe,
por tanto tempo, pra todo o sempre.

Que você ia embora um dia,
eu até podia imaginar:
como prender uma borboleta?
Mas eu achei que era um embora perto,
nunca, nunca, nunca tão embora assim.

sábado, 12 de setembro de 2015

Enterro

Que diferença vai fazer
quando eu morrer?
Deixarei filhos, netos,
livros?
Eu morta serei bela,
feia, velha?
Alguém vai anotar
que horas são,
se eu me jogar?
Vai ser tarde,
vai ser triste,
vai dar tempo?

O Ronco e a Culpa

Quando eu era pequena dormia num quarto com minhas duas irmãs. Teve um dia que uma delas roncava tão alto que eu achava que era mentira. Achava que ela estava fazendo barulho só pra sacanear, como eu mesma fazia de vez em quando. Desde pequena gostava de atuar. Às vezes minha atuação era roncar pra sacanear as minhas irmãs. Nessa noite uma das minhas irmãs dormia em sono profundo e roncava. Eu disse: "para já com esse ronco se não eu vou contar pra mamãe!" Ela continuou de biquinho aberto, roncando. Na segunda vez eu dei um berro tão alto de "para!" que acordou meu pai. Meu furioso pai que detesta ser acordado com barulho. Ele entrou no quarto espumando, quando eu disse: "Foi ela que começou! Ela tava fazendo barulho de propósito!" A pobrezinha da minha irmã acordou num susto por causa da luz acesa e gritou: "Desculpa! Desculpa!" E meu pai foi embora dormir. Assim que ele saiu do nosso quarto ouvi minha irmã virar na cama sonâmbula e começar a roncar tudo de novo.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Como explicar?

Tenho um órgão dentro de mim que pulsa tão forte que estufa meu peito. Quando eu estou deitada, posso ver o meu peito subir e descer por causa dele. Esse órgão é, estranhamente, o que faz tudo funcionar em mim: da fala ao pulo. Não faz muito sentido, como explicar? Eu mesma posso fazê-lo parar a qualquer momento se eu quiser. Acontece que, estranhamente, o meu objetivo é lutar o tempo todo para que ele não pare nunca.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

A essência de outro homem

Como explicar a um homem sobre a essência de outro homem?
Os homens são todos iguais
na estrutura, no esqueleto e na maioria dos medos
(de viver, de morrer, da solidão).
Há, entretanto, coisas que diferem os homens de forma absolutamente misteriosa.
Há homens que gostam de contar, de mandar, de poder, de inventar.
E há os homens que flutuam.
Como explicar a um homem que gosta de mandar
sobre os homens que flutuam?

Em vão

Naquela noite eu decidi vestir minha camiseta branca com bolso, só que ela estava toda amassada. Eu nem cheguei a provar pra ver se ficava b...