sábado, 31 de dezembro de 2016

In the old house

I said goodbye
you stood there
looking at me
wondering why

Why, my love?
When we moved out
of our old house
all the love I had
didn't come along.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Então

Antes eu te via descendo as escadas
ou no pé da escada
ou caminhando ou dirigindo
eu te achava lindo

Você mudou meu amor
você ficou melhor
mas eu não sei mais
se vou ou se fico
se quero ou se não

Então.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Now

I changed a lot since I got in this place and one of the things that changed is that I now love cough drops.


quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

To ask

What did you feel? How was it for you? Did you like it? Would you repeat it?
What went wrong?

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Pulsando

Hoje eu reparei que quando os vizinhos de cima fazem amor, o ritmo que eu ouço através das paredes é sempre igual - parece um coração pulsando. Estamos todos pulsando, o tempo todo.

Na hora

Você ficou 
em outra dimensão 
da minha vida,
mas eu sei que 
quando for a hora 
a minha dimensão
vai encontrar 
com a sua.

domingo, 23 de outubro de 2016

Quem

Quem é esse homem
que me quer a vida toda
só pra ele?

Quem ele pensa que é
pra me levar de toda gente
desse mundo tão gigante?

Com esse tempo tão finito
que eu tenho por aqui
me diz, meu deus, agora:
quem é esse homem?

Finally

Now that I am here, 
that I am seeing things from a different perspective, 
that I am free from any jobs that take away all of my energy, 
that I am finding out who I really am, 
that I am finding things out, 
that I am able to see things clearer, 
now that everything is exactly the way everything is, 
I can finally be myself. 

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Definir

Agora, neste exato momento, você é apenas parte - e uma parte enorme - do meu passado. E não é por causa dos oceanos, continentes ou horários. É por causa das nossas almas: no meu tempo presente eu não vejo você, eu não escuto você, eu não sinto você. As nossas almas não estão em contato, e eu repito: não é por causa dos oceanos. O que nos separa eu não posso dizer. Eu não sei dizer o que é. Talvez seja o ar da Califórnia, a água, a forma como o sol reflete no chão e na pele ou a forma como eu consigo usar as palavras nessa língua. Existe algo aqui, meu amor, e eu não sei definir o que é.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Eu sei bem

Eu não sinto a sua falta,
porque falta não me faz
o seu beijo,
o seu cheiro,
nós dois no domingo.
Nós não conversamos mais,
não nos conhecemos mais,
e eu sei bem
a falta que você me faz.

Para Alex

Quem sabe você, dentro da sua concha como um bichinho do mar, consegue olhar um pouco para fora e observar as pedrinhas que as ondas levam. Essas pedrinhas, meu amor, se chamam areia. Se você puder sair um pouco da concha para passear entre elas, você vai perceber que há tantos anos elas são a sua casa.

domingo, 2 de outubro de 2016

Um abismo

Tudo isso para tão pouco, 
talvez pior do que pouco,
talvez pior do que nada. 

Tudo isso para um abismo.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Medo

Existem centenas de tipos de medo - todos eles paralisam.
Medo de falhar, de perder, do escuro.
Medo do desconhecido, da solidão, de inseto.
Medo de morrer, de cair, se cortar. 
O medo breca, sufoca, ensurdece.
O medo é um muro,
que pode impedir um sonho
ou um afogamento.

15 horas

Quinze horas nos separam. Quinze suspiros, quinze ondas quebrando, quinze pássaros voando para o sul. Quinze milhões de quilômetros, quinze batimentos cardíacos, quinze perguntas sem resposta. O que quer dizer o número quinze? O que são as horas? Aqui sempre vai ser dia quando aí for noite. Aqui sempre vai estar escuro quando aí estiver claro. Quando eu voltar para casa você vai estar indo para outro lugar e outro e depois outro. O que são quinze horas diante do infinito?

Moedinhas

Os americanos contam os centavos - até as moedas de um centavo. No Brasil essas moedas entraram em extinção. Para nós era uma mesquinharia e ninguém tinha paciência com elas. Talvez os americanos estejam certos, não foram eles que inventaram o capitalismo?

sábado, 3 de setembro de 2016

Chegada

Cheguei numa casa pequena, com uma fachada suja e cheia de plantas e temperos crescendo desordenadamente. O cheiro era de salsinha ou cebolinha ou alecrim. Bati na porta e esperei. Eu tinha chegado 5 horas antes que o combinado, então não quis insistir. Sentei na soleira da porta e no primeiro barulho que ouvi vindo de dentro eu bati de novo. Ela abriu. Uma garota nos seus trinta e poucos anos completamente descabelada, com uma tiara de orelhas de gatinho, magra vara-pau tipo ex-moradora da cracolândia. Me mostrou o quarto, o único lugar arrumado da casa e pediu perdão pela bagunça - ela não imaginou que eu chegaria tão cedo. Não era só bagunça, era caos. A casa lembrava muito a da minha vó, só que caótica. Móveis coloridos, coisas em todos os cantos. A bagunça era tanta que eu senti uma urgência em sair logo dali. Não me sentia cansada, mesmo depois de tantas horas de vôo. Troquei a roupa pesada de aeroporto por um vestido soltinho, a bota por uma rasteirinha e saí para caminhar e conhecer as redondezas. Parei na 7-eleven, comprei uma água. Ao perceber que não tinha nada nas redondezas, resolvi ir até a escola para aprender a distância e conhecer o lugar, sem saber que eu iria caminhar por mais de uma hora. Ao chegar na escola, pedi pela coordenadora brasileira que estava me ajudando com o processo. Sentei no sofá que me indicaram e esperei. Como ela nunca apareceu, fui pedir ajuda do pessoal do Housing Dpto para achar uma casa. I have to get out of where I am immediatelly, please help. Preenchi um papel e esperei. Desisti da coordenadora que nunca apareceu e fui atrás de conseguir um número de celular americano. Nesse momento o único brasileiro que eu conhecia nessa cidade apareceu para tomarmos um café. No primeiro gole já percebi que se tratava de um narcisista. Eu não o conhecia muito bem. Conversamos, ele me falou da cidade, da loucura, da necessidade de se ter um carro. Depois me deixou em casa, que nesse momento já estava menos caótica, e eu dormi por nove horas seguidas. O fuso bateu.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

This is why I left

At that moment when you told me something important to you - something very sad - you stared at me with your blue eyes and started to cry. I felt as if I was responsible for you. I felt as if I needed to hug you and love you forever. This is why I left.


terça-feira, 26 de julho de 2016

Excel

Tenho vontade de tacar uma bomba nas suas planilhas de excel. Toda sua vida cabe em planilhas e você ainda tira sarro que eu não sei mexer nelas. Por favor, não vá, não me deixe. Será que você não vê que eu não vou saber viver sem as suas planilhas me organizando?

Roupas no chão

As suas roupas separadas em cima do sofá me fizeram chorar profundamente. Chorei por horas a fio enquanto pegava as camisas polo que você usa todos os dias e cheirava. Esse seu cheiro como ele é hoje, eu nunca mais vou sentir. A casa aos poucos vai ficando vazia das nossas coisas. Já tirei os meus livros e sapatos, você já tirou casacos e alguns quadros. Essa casa, esse seu cheiro, essa etapa da nossa vida, tudo isso está sendo deixado para trás. Uma despedida como essa para uma pessoa como eu, é de partir o coração em mil, esmigalhar, dar perda total. Acho engraçado o quanto nossas diferenças se destacam agora. Você encara isso tudo tão tranquilamente, com um pouco de ansiedade até, e eu só choro. Tenho tanto medo de sair dessa imensa zona de conforto que é minha vida agora. Tenho tanto medo de nunca mais encontrar um conforto como esse. Espero que você chegue tarde em casa hoje e não veja que eu espalhei todas suas roupas no chão, como se esse gesto infantil pudesse atrasar de alguma forma a nossa despedida.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Beijo

Sinto falta de um beijo. Um beijo que começa no disparar do coração, na respiração ofegante e em outros sintomas do prazer. Esse beijo que ensaia muito antes de chegar, que passa lentamente pelos olhos, que examina a boca a ser beijada e se surge beijo devagar. Um beijo com um gosto, um gosto que não importa. Um gosto de língua, uma textura de língua, uma língua. Sinto falta de estudar os movimentos da língua que experimenta a minha. De sentir com as minhas mãos o rosto que carrega aquele beijo, sinto falta de um rosto. Um rosto num corpo que amassa o meu, e me beija como se um meteoro estivesse prestes a atingir a Terra. Um beijo de muito tempo, de dar êxtase seguido de uma calmaria alienante. Um beijo antigo como qualquer outro, desde que o primeiro homem vislumbrou os lábios da mulher amada e entendeu.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Madrugada

É madrugada em Budapest, e o homem que tem medo de altura dorme. Aquele homem, que veio do lado esquerdo da Meca, agora sonha. Com o que você sonha, homem-pássaro? Será com a mente humana, com os seus pecados, será com a morte? Sabe, beija-flor, você não precisa se preocupar tanto com o que pensam de você, são só três ou quatro pessoas que realmente sabem de você. Só elas podem te ajudar de alguma forma. O resto, todo o resto, só serve para te julgar, igual você julga o que lê no Guardian de manhã.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Talento

Será que é verdade que cada um de nós tem algum tipo de talento? Ou será que algumas pessoas não tem talento nenhum, apenas acham que tem? Como é que vou um dia saber se tenho talento ou não em alguma coisa? Como faço para saber que, entre as coisas que gosto de fazer, é naquela determinada que eu tenho talento? Se eu não tiver nenhum talento em nada, como faço para saber? E para me esconder? Como faço para não continuar fazendo o que eu gosto e enchendo o ouvido das pessoas de algo que eu não tenho talento? É possível viver uma vida inteira sem descobrir um talento?

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Recado

Eu não sei o quanto se pode ser direto em uma poesia, e se por acaso não puder ser nem um pouco, vou falar baixinho, discreto, direto a você: devo te esperar? E se eu, sem querer, deixar a minha vida passar esperando? Acho que os perseguidores de pessoas diretas em poesias estão chegando, preciso ir, mas guarde o meu recado e pense, meu amor. Devo te esperar?

Adeus, agora

Meu bem, será que você não vê 
que o agora está acabando?
Indo embora, dizendo adeus?
Entrando no avião com todas as suas coisas e decolando?
Você não vê, meu bem, que você ficará aqui no chão,
acenando para a sombra de um avião 
que você viu passar?
"Adeus, agora!" você poderia gritar.  

Já comecei vários romances com pessoas que pensei que nunca amaria mas acabei amando.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Enquanto

O que quero dizer, meu bem
é que enquanto eu estiver aqui,
não saberei dizer jamais
onde é que eu preferia estar.

sábado, 2 de julho de 2016

trecho

Ontem à noite, enquanto você dizia que não tinha certeza, que não via propósito, eu senti algo estranho dentro de mim. Senti um veludo lúgubre cobrir o meu coração. Precisava tanto chorar, mas no cuidado de tentar ser forte, não chorei. Minhas lágrimas estão aqui nesse trecho que escrevo enquanto você segue em frente fazendo as suas coisas.

Isso

Você me ligou hoje para dizer que fazia sol,
"vem aqui comigo!" - você disse.
Eu não fui.
Eu fiquei em casa, arrumando a cama,
fazendo os meus rituais.
O dia foi passando, hora por hora.
O sol lá do alto foi descendo,
descendo e indo embora.
Você também vai embora,
entenda.
Eu preciso aprender a me acostumar 
com isso. 

No fim

Quando eu chegar no fim da vida,
e estiver velhinha na minha cadeira,
fazendo tricô,
será que eu vou conseguir finalmente
entender a sua decisão?

Rasgos

A gente costumava rasgar os lençóis. Escondíamos os lençóis no meio da roupa pra lavar, constrangidos. Orgulhosos, nos olhávamos e ríamos um para o outro da nossa conquista.

terça-feira, 28 de junho de 2016

plim

Há um momento
um exato momento
um instante
um segundo
um milésimo
um click
um plim
pequeno
minúsculo
quase invisível
imperceptível
assim desse tamanho.
Nesse momento, instante, segundo,
um olhar pode virar
a mesa.


Eu nunca saberei

Quando eu decidi pela estrada de terra,
ninguém entendeu
que tanto faz:
se eu escolher um lado
- e não o outro,
não importa o que acontecer,
eu nunca saberei como seria
se eu tivesse escolhido
o outro lado.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Tarja preta

Era uma noite fria, mas não tinha nada para comer em casa então a Ana e o Lucas decidiram sair para comer. Até dava pra fritar um ovo e fazer um viradão com o arroz de ontem, mas eles iam precisar lavar as panelas e fazia muito frio para lidar com água. Lavar na máquina? Nem pensar, a Ana era muito cheia de frescura e dizia que a máquina não lavava direito. Pedir comida? Ia demorar muito. Os dois pegaram os casacos mais quentinhos, cachecóis, luvas e foram a pé. As ruas estavam quase vazias e todas as janelas das casas pareciam quentinhas por dentro. Os dois sentiam uma pontinha de arrependimento de terem saído de casa, mas precisavam comer. A fome só aumentava. Para a sorte deles, quando chegaram no restaurante não tinha mais ninguém e eles puderam sentar na mesa preferida deles: uma bem no cantinho de onde dava para ver a cozinha. Acharam estranho o silêncio e o vazio, mas faltava pouco para o restaurante fechar, então fizeram logo o pedido e esperaram. 
O cozinheiro, um homem depressivo de 42 anos, estava trabalhando desde às 9h da manhã sem parar porque toda a equipe do restaurante tinha pegado um vírus e faltado naquele dia. Era só ele e a garçonete, Maria. Antes de sair de casa ele deveria ter tomado o remédio tarja preta que lhe aliviaria a vontade de morrer, só que como ele foi pego no susto com a ligação da Maria, não tomou e saiu de casa correndo. Tudo deu certo até lá pelas três da tarde, quando a vontade que Marco, o cozinheiro, sentia de morrer começou a crescer e ficar maior que ele. O jeito era beber. Bebeu o suficiente para continuar fazendo o seu trabalho sem pensar. Ele conseguiu levar o dia, metade bêbado, metade concentrado no trabalho. Fez todos os pratos, errou uma coisa ou outra, eles não estavam tão caprichados como num dia normal, mas nenhum cliente reclamou por escrito, nada que prejudicasse o restaurante. O dono, quando voltasse de viagem, não ia notar nada diferente. Agora à noite, às vésperas de ir embora, a concentração era quase nenhuma, o cansaço era muito e faltava pouco para acabar. Então ele relaxou. Quando viu um rato atravessar a cozinha, ele já estava terminando o último prato e estava de saco cheio. Não teve dúvidas: com o facão de cortar carne foi em direção ao bicho e num golpe só dividiu o bichinho ao meio. Pegou um saco preto e tacou em cima do bicho pra não ter que ficar olhando para ele. Foi até a pia, deixou a faca na água corrente e pegou outra para continuar cozinhando. Quando ele virou para tirar o arroz do fogo, reparou no vidro que dá para o salão do restaurante e os seus olhos cruzaram com os olhos dos dois clientes boquiabertos. 

terça-feira, 7 de junho de 2016

Nada

Eu não sei por que eu respondo isso. Não sei mesmo. Já pensei que pudesse ser por insegurança, mas não pode ser. Já pensei em preguiça, em dúvida, em algum medo. Não, não, não. Nada disso. Sempre que o meu marido me diz: "amo você" (nunca "eu te amo" porque ele acha brega), eu digo: "ama nada". Por que diabos eu respondo isso? Eu acredito no amor dele, eu sei que ele está lá, eu não tenho medo ou qualquer coisa. Hoje, enquanto eu descia as escadas rolantes do shopping depois do almoço com meu pai, ele - o meu pai - me deu a resposta. Durante o almoço eu e ele havíamos conversado sobre o quanto somos parecidos e nossa conversa havia sido ótima, mas naquele momento, enquanto descíamos as escadas, eu disse a ele: "eu tava com saudades, pai." ele respondeu: "tava nada".

domingo, 5 de junho de 2016

Sem separar-se

Como se faz uma separação sem separar-se?
Porque existem vários tipos de separação. A separação física, a separação física e mental, a separação só de um lado, a separação dos dois lados e mais algumas outras separações.
Quero saber sobre a separação física apenas. Dois seres que queriam estar juntos. Acontece que o mar, o continente, o sonho, o tempo, o timing, a demora, a espera, o cansaço, a descoberta, a curiosidade, o Universo e mais algumas outras coisas entraram bem no meio do caminho. Como se faz uma separação dessa natureza? Sei que com cimento não é, com talco talvez? Ou então um pouco de mel? Como se nasce um abraço que antecede uma separação desse tipo? As lágrimas que vem conseguem ter tempo de se formar entre a despedida e o aperto? E quando não conseguem? Existe alívio depois do aperto? Quanto tempo demora? Como se sobrevive aos primeiros dez dias? Se sobrevive? Se morre? Uma separação sem separar-se, dessa natureza, é possível entre quaisquer seres humanos? Mesmo os mais felizes?

Desconhecido

Eu quero deixar claro ao mundo que eu não sou corajosa. Estou saindo de um lugar que ia acabar me matando, estou indo porque as circunstâncias me obrigaram a tomar decisões imediatas, estou indo porque o destino arrancou as minhas mãos do modo automático e me levou.

Escapatória

Talvez eu tenha um pouco de medo dessa minha casa à noite, sem você. Eu às vezes tenho medo de estar exposta demais ao mundo aqui nessa pequena casa, com essa escuridão que faz lá fora, no Universo à noite. Milhares de coisas podem acontecer, como um sonho invadir a minha casa armado, me obrigando a seguí-lo, como já aconteceu comigo antes. Eu posso gritar, espernear, mas eu vou seguí-lo, não importa quão tarde seja ou quão perigoso possa parecer.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Não estarei aqui

E se eu falhar,
se nada der certo,
se eu quase morrer,
de tanto sofrer
por um erro qualquer,
um erro de matar,
o que poderia acontecer?
Eu não vou morrer,
e se por acaso acontecer,
Não estarei aqui para ver.

Ana B. - Parte 1

Uma mulher de quarenta e poucos anos. Magra, altura mediana, boas roupas. Alguém a encontrou caída no chão de um apartamento, morta. Não tinha ninguém no mundo e morreu de câncer, aparentemente nunca diagnosticado. De acordo com as leis do meu trabalho, eu tinha setenta e duas horas para anotar absolutamente tudo que eu via ali dentro. Tapete de boas-vindas bem-humorado, flores mortas, peças de madeira. Maçaneta de porcelana. Casa com cheiro de flores e mofo. O primeiro porta-retratos que encontro é ela na foto. Com as costas nuas, de perfil, cabelo do rosto. A mulher mais linda que eu já tinha visto na vida. Livros, discos, quadros. Rede de balanço, geladeira, tapetes. Uma solidão infinita. Nem um sinal de namorado, amigo, parente. Comecei a pensar se era solitária porque era linda demais. Se era linda demais porque só dormia, ao estilo Bela Adormecida. Entrei no quarto. Luminárias, criado-mudo, comprimidos. Espelho, espelho, penteadeira. Jóias, bijuterias, presilhas de cabelo. Solidão. Batom, rímel, esmaltes. Quem seria ela? Quem seria a mulher mais bonita que eu já havia visto? Teria se apaixonado, namorado, trabalhado? Encontrei uma gaveta cheia de cadernos, lotada. Passei setenta e uma horas lendo a história de Ana B.

Global goodbye

I am sorry to let you down,
but I am going to let you go.
- Goodbye.
I do not love you anymore.
It has been a while, actually.
Thank you for letting me stay for so long
and you are welcome that I have worked so hard.
You have taught me many lessons,
and you made me used them with you.
Now I have to be somewhere else,
doing very silly things such as:
following dreams.

Segunda noite

Coloquei dois travesseiros no seu lugar da cama. 
Eles estão ocupando totalmente o seu espaço,
e você já nem faz falta. 
Esta é a segunda noite e eu já superei você. 

sexta-feira, 27 de maio de 2016

O postal

Em Paris existe um museu absolutamente encantador chamado Centre Pompideu. Sou fascinada por ele e pela loja dele também. Na loja eles vendem caderninhos de todos os tipos, invenções, coisas de madeira, postais, livros, pinturas, artes, bugigangas de todos os tipos, milhares de coisinhas. Mas é na sessão de postais que eu passo mais tempo. Quero comprar todos os postais e fazer quadrinhos com eles. Passo horas olhando para cada um e pensando para quem eu daria qual postal, nas histórias de cada artista que fez cada postal, na minha vida, na arte, em Deus, me perco em cada um deles. São infinitos. Um dia eu estava na parte dos postais de fotografia, quando eu fixei os olhos em um e me apaixonei completamente. Era uma fotografia em branco e preto de uma cama simples com um casal sentadinho na ponta. A garota vestia uma blusa preta, encarava a máquina com um sorriso quase imperceptível e abraçava o menino de costas. Ele vestia um terno e sorria profundamente. Na parte de baixo da borda da foto havia um texto à mão assinado por um rapaz dizendo: “Esta fotografia é minha prova. Teve aquela tarde quando as coisas ainda estavam bem entre nós, ela me abraçava e nós éramos tão felizes. Isso aconteceu. Ela me amou. Veja por você mesmo.” Meu coração disparou e eu comprei o postal imediatamente. Ele me emocionava tanto que de repente já fazia parte de mim. Uns meses depois era natal. Eu mandei fazer um quadrinho com o postal para dar para o meu namorado. Ele não era sensível, mas algumas coisas ele entendia bem e aquele quadrinho era doce demais para passar despercebido. Mostrei para minha mãe com a certeza de que ela ia gostar. Ela olhou para o postal, fez cara de susto e foi para o armário mexer com caixas antigas. Voltou um tempo depois e disse: “Veja filha, em 1981 o seu pai foi viajar para os Estados Unidos e mandou esse mesmo postal para mim.” Eu não pude acreditar. Peguei o postal na mão e atrás dizia “saudade” com a assinatura do meu pai.

Presos na nossa garganta

Hoje eu conversei com alguém sobre você, sobre te amar e estar perdida, sobre te amar e ter dúvidas e não saber, e te amar. Enquanto eu falava, tive vontade de chorar. Precisei levantar da mesa, engolir e fingir que queria beber água. Quando senti que minhas lágrimas não estavam mais presas na minha garganta, recuperei a fala e disse que tudo ficaria bem. A gente sempre fala para os outros que tudo ficará bem, os outros são outros, eles não estão presos na nossa garganta.

domingo, 22 de maio de 2016

Um instante

Era um dia muito quente. Meio de semana, horário de pico, ônibus lotado. Um pai de meia idade voltava para casa levando a filhinha de uns seis anos pela mão. Ele estava exausto. Tinha passado o dia procurando trabalho no centro da cidade, batendo em todas as portas com a filha ao lado ouvindo sempre "não". Os dois finalmente iam voltar para casa. Então, quando já estavam no terceiro e último ônibus, a menininha passou a puxar a camisa do pai. O pai limpava o suor na testa e não queria encarar a filha depois de tanta derrota, por isso ignorava os puxões. Quando a menininha gritou alto: "papai!", ele precisou olhar para ela. Ela então sorriu, apontou para o adesivo indicando para quem eram reservados os assentos preferenciais, e disse: "Qual desses quatro bonequinhos você quer ser? O sentado nessa cadeira com rodas, a mamãe com a filhinha, o velhinho de bengala ou a gordinha? Eu quero ser a mamãe com filhinha!"

Ele

Eu decidi partir num dia de calor qualquer do mês de março. Eu tinha voltado de férias e estava deslumbrada com a vida que existia lá fora. Então resolvi explorar melhor o resto do mundo. Ele também estava partindo, ia estudar fora. Ele parecia não se dar conta, ou não se importar, ou não perceber o que estava por vir. Eu percebia e pensava nisso a cada segundo, a cada milésimo de segundo da minha vida naquele momento. Não tinha outro assunto na minha cabeça. Eu, que sou uma pessoa que adora fazer uma faxina, não conseguia pensar em outra coisa nem na hora de fazer faxina. Como seria a vida sem ele? Como seria dormir, acordar, almoçar, ver tv, jantar sem ele por perto? Achava engraçado como todo mundo fingia que estava tudo bem naquela separação. "Tudo bem, vocês vão se reencontrar." Bom, eu fui, ele foi, e passamos a viver separados por um tempo. Eu morava em uma casinha modesta no sexto andar. Dividia a casa com outras pessoas que não entendiam por que eu havia me separado depois de tanto tempo namorando. Naquela época, naquele país, eu estudava cinema. Eu não tinha dinheiro para fazer muita coisa, então saia da escola e ia direto para casa. Um certo dia eu resolvi comer alguma coisa fora com a turma da sala. Um homem sentou-se do meu lado. Esse homem é o seu avô, querida.

terça-feira, 17 de maio de 2016

A Caixa


Meu pai levantou da mesa e sumiu no corredor.
Teria se entediado da conversa? Não sei. Esperei.
Papai voltou com um sorriso malicioso no rosto.
Ele segurava uma caixa.
Abriu a caixa e tirou de dentro uma arma pesada.
"É de chumbinho. Vamos brincar de atirar nas folhas?"


A notícia

Minha irmã parecia triste. Reclamava que estava gorda e que andava irritada e cansada demais. Minha mãe estava secretamente preocupada com ela. Sutilmente minha mãe, que também é médica, pediu uma pilha de exames para a minha irmã, alegando que fazia tempo que minha irmã não fazia exames, que ela só queria dar uma olhadinha mesmo. Pra mim era tudo muito óbvio: minha irmã tinha sido pedida em casamento há alguns dias e esse era o jeito dela de expressar o nervosismo extremo. Eu sabia que ela estava nervosa, ansiosa e que devia ser só isso. Minha mãe não. Ela pensava no cisto que uma vez um médico achou no ovário da minha irmã, mas que não era nada e que ficou por isso mesmo. Minha mãe sempre cismou com esse cisto. Ela sempre pedia exames, estava sempre de olho, sempre com medo do que aquilo poderia virar. O clima na casa estava ficando chato, porque a minha irmã só queria dormir o tempo todo e quando não dormia ficava reclamando das coisas. Ela só ficava melhor quando via o noivo. Eu estava um pouco cansada. E cansada também da minha mãe cega de preocupação, perguntando todos os dias se os exames tinham chegado. Meu pai ficava blasé na poltrona, ou fingia que estava blasé pra disfarçar que também estava preocupado com a minha irmã. Até o dia que o cara da portaria passou os exames por debaixo da porta, bem na hora do jantar. Meu pai foi o primeiro a perceber. Ele largou o garfo e olhou para minha mãe. Minha irmã nem se deu conta e continuou mexendo no celular, provavelmente falando com o noivo. Eu me levantei e fui buscar o envelope na porta. Minha mãe quase o arrancou da minha mão e já começou a rasgar o envelope. Ela ia lendo os resultados com os olhos e fazia um "ok" com a cabeça para o meu pai até que ela fixou o olho em certo ponto do papel. Ela fez cara de pânico, ficou branca e paralisada, olhando para um ponto fixo qualquer no chão. Nessa hora, num impulso, eu segurei a mão da minha irmã, que levantou os olhos para ver o que estava acontecendo. Quando ela viu o símbolo do laboratório no envelope e a cara da minha mãe, ela entendeu tudo. Meu pai também entendeu tudo. Os dois deixaram uma lágrima cair discretamente e tossiram quase juntos para disfarçar. Minha mãe de repente parece que voltou a realidade e disse, quase engolindo as palavras: "Eu... eu vou ser avó!" e deu uma risada pesada. Meu pai e minha irmã não entenderam nada. Nem eu.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Passei

Não consigo pensar em você sem uma pontinha de tristeza: sou a mulher que passou, e você deixou passar. Sei que ainda não passei, que estou aqui agora, mas às vezes me parece tarde demais. Às vezes eu sinto que você me deixou passar.
Eu desconsidero 
quando considero
tarde demais.

Sem sorriso

Quando eu te vi passando por mim, eu secretamente sabia que você era triste. Você estava saindo da livraria e eu entrando nela. Você me olhou sem saber quem eu era e eu também te olhei, mas eu sabia. Você, colunista de jornal, herdeiro de livraria, um homem triste. Pensei na mulher que te deixou alegando tristeza demais. Pensei se a sua tristeza seria interessante ou só triste. Se eu conseguiria fazer a minha tristeza se comunicar com a sua. Pensei se você, do seu jeito cabisbaixo, me ensinaria coisas fascinantes que você leu nos livros. Pensei em nós dois excluídos do mundo, lendo nossos livros e escrevendo poesia. Eu pensei em milhares de coisas naqueles segundos que eu te vi me olhando. Gosto de pessoas tristes.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Sobre um sonho

   Eu estava em um carro, o meu talvez, com alguma amiga minha. Estávamos indo para a casa dos meus pais, que talvez naquele sonho fosse a minha casa. Ao chegar na portaria, lembro dos guardas, e lembro de eu, de repente, me dar conta de que estava sem alguma coisa, algo me faltava. Então eu e a amiga fizemos a volta e, bem coisa de sonho, surgimos do nada dentro de um avião. Para onde aquele avião estaria indo, eu me perguntava. Minha amiga também não sabia. Era um avião diferente, eu não precisaria ficar sentada durante o vôo, tinham vários lugares para ir ali dentro. E nessa hora, com uma consciência estranha de alguém que sabe que aquilo é um sonho, eu fiquei tentando calcular aonde estava indo o avião, descartei os Estados Unidos – porque ainda não era hora de ir para os Estados Unidos, mas precisava ser algum lugar perto. Perguntei para a aeromoça para onde íamos e com a maior naturalidade ela respondeu: "Para o Canadá." Para o Canadá? Que diabos eu estava indo fazer no Canadá? Senti uma urgência em ligar para o meu namorado para avisá-lo de que eu tinha entrado por engano em um avião indo para o Canadá. Ele, com a maior naturalidade, disse: "Canadá? Bem sua cara mesmo isso de entrar no avião errado." Eu suspirei aliviada pensando que ele agora sabia que eu ficaria offline por onze horas até o Canadá. E pelo menos a gente estava no mesmo continente. Quando então eu começaria a relaxar no avião-cruzeiro, eu acordei.


quarta-feira, 20 de abril de 2016

Cálculos II

Um dois três,
vezes mil duzentos e oito,
menos nove dez doze mil:
nem sei que números você calcula.

Eu só sei calcular palavra.
Calculei que o meu nome não aparece
em nenhuma das suas tabelas
- nem daqui a cem anos.

Eu calculo bem as palavras agora:
acho que quero ir para casa,
acho que quero fazer planos,
eu acho que quero ser o plano de alguém.

De acordo com os meus cálculos,
acho que eu não posso mais ficar sozinha.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Escrevo seu nome num grão de arroz

Atravessamos a rua eu e ele bem depressa porque ele precisava levar a comida quente para a namorada. Assim que atravessamos, uma mulher surgiu na nossa frente dizendo para o Edu que escreveria o nome da namorada dele, apontando pra mim, em um grão de arroz e transformaria em um colar. Eu dei risada e disse que nós não namorávamos. Nós éramos apenas colegas de trabalho e que acidentalmente nos encontramos na saída do batente. A mulher não aceitou. Disse que o Edu claramente gostava de mim e eu claramente estava interessada. Nessa hora o Edu parece que acordou dos seus pensamentos. Gentilmente empurrou a mulher e disse que não, nós não nos gostávamos, ela estava absolutamente equivocada e que por favor nos desse licença. Ele parecia incomodado com aquela afirmação, como se gostar de mim fosse um absurdo. Talvez fosse mesmo, eu gorda, descabelada e sem nenhuma vaidade era um absurdo de alguém gostar. Ainda mais alguém como o Edu, um cara inteligente, atraente e totalmente fiel. A tristeza que era para mim gostar dele, aquela mulher não podia nem sonhar. Escrever meu nome num grão de arroz, que coisa linda, delicada, poética. Quer saber, moça? Eu quero que você escreva o meu nome no arroz. Quanto custa? A mulher finalmente relaxou. Deu o preço e disse para nós esperarmos meia hora que ela iria na loja da esquina preparar o arroz. E por favor, escreve o seu nome nesse papelzinho. O Edu arrancou o papel da mão dela e disse que escrevia pra mim porque eu estava cheia de sacolas. Ele era de fato um cara gentil. Eu falei pro Edu que ele não precisava me esperar porque ele precisava ir e a comida da namorada dele já devia estar fria. Ele riu, disse que esperava comigo e que a comida não era para a namorada. Eles tinham terminado semana passada. Ele disse que terminou porque estava confiante de outra decisão na vida dele e precisava seguir em frente. Como ele não disse nada, também não perguntei que decisão era aquela. A gente se conhecia há tanto tempo que eu já sabia que o Edu não estava afim de falar sobre aquilo. Fiquei totalmente constrangida de estar ali, de estar me derretendo por dentro e desejando aquele homem pra mim enquanto ele sofria com outras decisões. Quis que a mulher do arroz chegasse logo pra fugir correndo dali. O Edu também claramente estava constrangido. E também claramente nervoso, querendo ir embora. Desisti de esperar pelo arroz. Dei o dinheiro para o Edu pagá-la e saí correndo em direção ao ponto. Entrei no ônibus e no caminho eu fiquei pensando que eu precisava me cuidar mais porque do jeito que eu era ninguém ia gostar de mim mesmo, que eu precisava emagrecer, que nem eu gostaria de mim. Assim que eu desci na minha rua, um taxi parou na rua e o Edu desceu. Ele veio em minha direção e disse "aqui está o seu arroz." E me deu um pacotinho com o pingente de prata e o arrozinho. Agradeci e disse que ele não precisava ter vindo de taxi me entregar, que amanhã eu iria para o trabalho. Ele insistiu que eu visse como ficou o arroz, que meu nome estava escrito errado. Abri o pacotinho. Meu nome não estava escrito errado. "Casa comigo?" estava escrito no arroz.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Devagar, mas levante

Hoje eu acordei de um sonho triste:
sonhei que eu estava parada, vendo a minha vida passar.
Quando levantei assustada, bati a cabeça no encosto da cama.
Voltei a dormir, meio morta talvez por causa da paulada.

Naquele meu estado de alma,
me vi parada na minha cama,
na minha vida, naquele instante.
Respirei fundo e pensei:
"mais devagar, levante."

quinta-feira, 31 de março de 2016

Começos

A. passava a tarde toda vendo o dia passar: via as folhas caindo, pombas entrando e saindo do seu jardim, via seu pássaro a olhando de dentro da gaiola. Às vezes ela olhava para ele de dentro da gaiola dela e pensava qual dos dois era mais triste.

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Fazia tanto frio que ficar do lado de fora em pé doía. Na esquina de uma loja indicada em um panfleto, duas mulheres estavam tão ansiosas que para elas o frio não doía. As duas ficavam imaginando como seria o grupo de pessoas que também iam participar daquela tal de peregrinação de bares pela histórica cidade. 

segunda-feira, 14 de março de 2016

Rascunho

Escrevi sobre minha vontade 
de dançar até o amanhecer 
de todos os dias seguintes.
Ficou tão exato, 
tão completo, 
tão verdadeiro, 
que reverti para rascunho. 

Inverno

Será que você detesta todos os meus pijamas de inverno? Estou preocupada. O inverno está chegando e eu não quero comprar um pijama novo, mas eu sei que você não gosta muito dos que eu tenho. Será que você vai me amar, quando chegar em casa, e eu estiver com algum dos meus pijamas de inverno?

domingo, 6 de março de 2016

Terça-feira

Quando eu era pequena os domingos eram um dia à parte. Meu pai disfarçadamente sumia da sala e ninguém percebia: nem eu, nem minhas irmãs. A minha mãe percebia, mas disfarçava com uma tosse seca. Alguns minutos depois a campainha tocava, e um homem muito esquisito aparecia. Um homem que lembrava um pouco meu pai, mas usava um óculos-nariz-bigode bem esquisitão. Ele dizia que seu nome era Tio de Bigodes e que vinha de longe para nos trazer balinhas. Eu sempre fui muito ligada em recusar doces de estranhos, mas nesse homem minha mãe parecia confiar muito. Então, dele eu aceitava balinhas. Aceitava as histórias, aceitava o colo, aceitava a tarde toda. Eu amava o Tio de Bigodes com todas as minhas forças e o achava quase tão legal quanto o meu pai, era uma pena que os dois nunca estavam ao mesmo tempo no mesmo lugar.
Hoje, muitos anos depois de descobrir que o Tio de Bigodes era o meu pai, eu reservo todas as terças-feiras pra almoçar com ele. Quando eu acordo já fico pensando no que vamos conversar, no que vou contar pra ele. Nessa terça-feira ele atrasou. Eu fiquei esperando por ele pensando que preciso fazer alguma coisa para deixá-lo mais animado. Quando ele chegou, resolvi falar sobre o Tio de Bigodes e os outros personagens que ele fazia. Ele deu risada, ficou leve. No fim do almoço ele estava super animado e cheio de disposição. Voltei para o trabalho, fingi que trabalhei e fui pra casa, pensando que eu queria me transformar num personagem que pudesse fazê-lo tão feliz quanto ele me fez a vida toda.

O meu dia

O meu dia não tem muita coisa:
eu corro de manhã, canto com o meu passarinho,
faço café forte, digo adeus e vou trabalhar.

No meu trabalho eu edito o que eu acho demais,
confiro informações, dou palpite,
e ajudo a construir matérias de televisão.

A pausa pro almoço é sempre uma alegria.
Às vezes almoço numa cantina ao ar livre,
às vezes almoço com minhas colegas no shopping.

Nas terças-feiras não. Nas terças-feiras eu almoço com meu pai.
Conversamos sobre as nossas vidas, nossas questões,
comemos mamão-papaya, tomamos um cafézinho e pedimos a conta.

Quando eu volto pra casa, eu sempre quero conversar.
O meu marido às vezes não, mas nos abraçamos e ficamos no sofá.
O meu dia sempre acaba nesse abraço.



quarta-feira, 2 de março de 2016

Ernest, 1929 (da foto de André Kertész)


Tenho raiva dessa foto. Uma raiva imensa porque eu estava resolvendo um problema de matemática no quadro negro quando um fotógrafo atrevido entrou na sala de aula junto com o diretor. O diretor disse:
 - Crianças, este fotógrafo veio da Hungria só para fotografar vocês. Fiquem quietinhos e façam tudo que ele mandar.
O diretor saiu da sala e esse tal fotógrafo me mandou ficar ao lado da minha carteira, disse que iria começar as fotos comigo. Eu fiquei lá do lado da carteira, fazendo o maior bico é claro, porque o que eu queria era terminar de resolver o único problema de matemática que eu consegui resolver na vida. Mas o fotógrafo húngaro atrapalhou tudo. E ainda por cima não gostou da minha cara e pediu que eu sorrisse. Eu fiz esse sorriso dissimulado aí e pedi para voltar para o quadro. Ele deixou, mas já tinha estragado tudo, porque eu não consegui mais me concentrar e ninguém mais quis olhar pra mim ou para o quadro negro. Só queriam saber desse húngaro de mal gosto. Por que raios ele achou que seria bonito fotografar a minha sala? Com esse tanto de criança feia. Todas meninas da sala com esses cabelos horrorosos presos com essas fivelas caídas, igual a Beth ali no fundo. E a maioria das crianças tinha dente faltando bem na frente. E os meninos então? Só gordo ou viciado em bolinha de gude. Mas acho que de tudo, o que mais me deu raiva nesse fotógrafo amador é que ele ficou arrastando asinha pra todas as meninas da sala, contando histórias da Segunda Guerra, como se fosse super legal tirar foto de gente cheia de sangue.
A verdade é que eu não sei como essa foto veio parar no meu estojo e eu acabei de perceber que, por causa dela, perdi quase vinte minutos da prova pensando nesse dia. Se eu não passar na recuperação de matemática meus pais vão me mandar para um colégio interno. É a segunda vez que eu repito o último ano e tudo por causa desse fotógrafo. Depois que ele atrapalhou o meu problema no quadro negro aquele dia eu nunca mais consegui me concentrar na matemática. É melhor eu picotar essa foto antes que a professora ache que é cola.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Depois da primeira aula

Três versões de um dia perfeito

1.
Acordo num lago frio e silencioso,
me espreguiço como pede meu instinto,
fico parado, olhando para o nada,
contando moscas
cortando moscas
comendo moscas.

Esse é o meu dia perfeito
nesse meu corpo verde e gosmento,
nesse meu eu.

2.
Nem sei se eu saio da cama nesse dia
Se como purê de batatas
Se morro atropelada

Mas sei que nesse dia
eu não tenho nada pra fazer.

3.
Um dia perfeito:

(de forma que caiba
numa página
de uma folha
de papel)

Eu aprendo a escrever,
e
escrevo.





terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Toco de unha

Quando olho para esse toco de unha 
com esmalte preto 
eu imediatamente penso
 no que o fez chegar a aquele tamanho. 
E então eu sou torturada
 pela terceira vez. 

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

No fundo do barco

Será que sentar 
no fundo do barco e observar 
a terra ficar, 
a família acenar, o barco passar, 
só observar,
será que não se infiltrar 
é permitido nesse mundo?

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Diante daquele instante

Ontem à noite, enquanto olhávamos o céu, você encostou a sua mão na minha e assim ficamos por um tempo. Eu estava concentrada nas estrelas, num clichê: pensando no pedido que faria à estrela cadente que passasse e, quando senti a sua mão, me dei conta de que eu estava ali, e o mar fazia barulho, e eu não tinha mais nenhum pedido possível diante daquele instante.

Disfunção

Esses dias eu descobri que tenho uma disfunção no cérebro. Fui diagnosticada por um médico. É mais ou menos assim: enquanto as coisas aconte...