quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

E a dor também

Grande mesmo é essa vontade de fugir, sempre
mas fugir não leva a nada
porque os pensamentos vão junto
- e a dor também.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Quando o sol desce

Quando chega o verão, meu pai parece que derrete no chão.
Papai não aguenta o calor, ele fica estranho, sabe? É assustador.
Quando sai o sol papai parece um lobisomem
mas no caso dele é às avessas: era lobo e vira homem.
Papai, me diz o que acontece
quando faz calor e o sol desce?

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Meu amor,

Hoje eu resolvi finalmente escrever pra você, diretamente pra você, assumidamente pra você. Já escrevi outras vezes, mas dessa vez é diferente: não tem nenhuma ocasião especial. É que eu fui extremamente grossa com você e não consigo parar de pensar nisso. Eu demorei pra perceber o quanto eu tinha sido rude e nem cheguei a pedir desculpas, só fiquei expondo o meu lado. Assim que eu me dei conta eu pedi desculpas, mas você já tinha me desculpado - e tudo ficou por aquilo mesmo. Mas não! Giu, acho que você já leu a quantidade de textos que escrevi para outras pessoas. Você viu que conheci muita gente, tive muitos amores e desamores. Mas já faz quase quatro anos que é só você que faz parte da minha vida, da minha história, do meu coração. Desde quando a gente se conheceu você tem sido paciente com os meus deslizes, as minhas falhas, as minhas coisas meio loucas. Você sempre me dá a mão, sempre tenta me entender, sempre fica ao meu lado. Eu fico até espantada com a sua capacidade de esperar a tormenta passar, quando há uma tormenta, a capacidade de sempre me agradar, mesmo quando nada parece me agradar mais. Já pensei em desistir de nós dois, já me irritei, já quis ir embora. Mas eu volto, eu volto sempre pra você. Você, sempre tão paciente, parece já saber da minha volta e fica ali sorrindo, me vendo rodar como uma barata tonta. Olha, eu nunca deveria ter sido grossa daquele jeito com você, porque você é a pessoa mais doce, mais carinhosa e mais companheira que eu conheci. Você não merece nenhuma grosseria minha, jamais. Eu sou tão grata por tudo que você me ensinou e continua me ensinando, eu só tenho o que te agradecer, sempre. Eu nunca amei ninguém como eu amo você e eu sei que eu parei por aqui. É com você que eu quero seguir em frente: atrás dos meus sonhos, da minha felicidade, atrás do resto de vida que eu tenho pela frente. Desculpa, tá?

Dia-adia

O cotidiano me parece uma interminável sucessão de pequenos assuntos que contrariam o grande objetivo.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Só aquela

Eu nunca guardei o nome dele
e acho que ele nunca guardou o meu rosto
mas ele deve lembrar da minha voz
eu gritava, eu ria, eu falava bem alto
misturando as palavras e as linguas
a dele e a minha
Ele respondia falando baixinho
que tava todo mundo olhando
Quem se importa, eu gritava
QUEM SE IMPORTA
A gente dançou a noite toda
ele suava e os meus pés urravam de dor
mas a gente não parou de pular
pensando que dançava.
Eu não sabia, mas ele não tinha mais ninguém
eu nem imaginava, mas era só aquela noite
e mais nunca mais.
Andei distante, andei triste e andei bastante
só que eu voltei pra cá, o lugar que dizem ser meu.
Qual é esse lugar que eu ainda não vi:
será aqui, será um lugar, será você?

Talvez passe

Quando eu pus o dedo na ferida,
o dedo doeu mais do que a ferida
mas eu não chorei, fui corajosa
porque é isso que é ser corajosa:
não chorar.]
Eu tinha um segredo pra contar pra alguém,
só que não tinha pra quem contar
e o segredo se desfez
- na água ou no vento, tanto faz.
Guardei pra mim o que eu tinha pra mostrar,
porque talvez não fosse interessante
(e tem tanta coisa interessante nesse mundo,
pra que desperdiçar?)
O que passa mais rápido: o amor, o tempo ou a idade?
O amor não passa não, alguns dirão.
Não sei, talvez passe,
talvez não.



Astronauta

Me sinto um astronauta no meu corpo. Não conheço direito nem o meu nariz, principalmente o meu nariz. As minhas mãos eu até conheço porque rôo todas as minhas unhas. Os olhos, conheço só de vista. Minhas pernas às vezes surgem enquanto corro, mas só assim que eu as vejo. É uma pena que eu me conheça tão pouco depois de tanto tempo. Mal sei do que eu gosto, só sei do que eu corro. E eu corro de mim mesma. 

Ralo

Quando eu chego em casa e quero tudo
eu me esqueço o que é que eu queria,
e não quero mais nada.
É assim que funciona:
não amar mais, cinco minutos depois de ter amado.
Pra onde foi todo aquele amor?
Pra onde foi o que eu queria?
Devem estar lá na piscina,
quando eu mergulhei devo ter deixado lá embaixo.
Se tiver ralo, o ralo levou o meu amor.

Final

Um ponto final
final
final
fim.

Podia ser vírgula,
mas acabou
(e ponto).

Dois pontos:
foi um final.


terça-feira, 21 de janeiro de 2014

O seu nome

Qual seria o seu nome,
se não fosse o que eu chamo?
Mesmo que às vezes eu confunda,
esse seu nome, qual seria,
se eu deixasse de chamar?

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Quadrilha

Não sei até onde a gente pode chegar com esse negócio de amor, mas eu acho que parte disso deve ter algum fundamento. Por que a gente fica com vontade de algumas pessoas e rejeita outras? É um jeito que Deus viu de segurar as pessoas? Pura taxa de natalidade? E daí, às vezes, uma pessoa não se interessa por outra que deveria ser seu par porque ela está distraída com outra pessoa. É uma loucura, Deus.

O que foi amor?

Por quê, de repente, você me perguntou:
-O que foi amor?
Quando você sabia que nada amor,
não havia nada que pudesse ser?

Meu amor

Você exige esforço nenhum.
você exige paz, você exige silêncio
você chegou em silêncio, como se não fosse nada
mas exige silêncio, exige paz, exige estar vivo.

Cadáver

Hoje eu sou apenas um cadáver com órgãos funcionando bem. Quero encostar num banco de praça e me deixar morrer. Só que até isso exige um...