quinta-feira, 27 de abril de 2017

O pijama azul, que eu nem sei se era azul

Ele me contou de um pijama que ele adorava usar quando criança. Eu imaginei um pijama azul de feltro desses que cobrem os pés, tipo um macacão com meias, e com pequenos foguetes desenhados. Imaginei ele pequeno, com cara de sapeca, dizendo para a mãe que queria ir ao shopping vestindo aquilo. Será que a mãe dele, lá no seu íntimo, quis dar risada e apertar aquela figurinha? Será que levou aquilo a sério? O que será que ela fez? Os cabelos dele, na minha criação, estavam bem bagunçados e os olhos brilhavam cheios de bondade, a mesma que ele ainda leva nos olhos. Adoro imaginar as pessoas quando eram crianças e achei engraçado ele me dar assim, quase de graça, tanto substrato para o meu deleite.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Só assim

Todos os dias olho no espelho
e vejo o reflexo de mim.
Minha vista deve estar cansada de me ver,
todos os dias a mesma eu.
Tem vezes que aparece uma montanha
- no meio da testa, no nariz ou no queixo -
mas em geral a paisagem é sempre a mesma.
Essa velha eu.
Se um dia eu cansar de me ver,
(e talvez esse dia esteja chegando),
o que eu faço, meu deus?
Eu que não tenho outro rosto,
que não tenho outro jeito,
que não sei ser outra,
eu que sou só assim,
o que vou fazer?


terça-feira, 18 de abril de 2017

Sentidos

Eu vejo olhos me olhando à noite enquanto passo,
esperem que eu olhe de volta, que eu pare, que eu volte.
Eu não.

Prefiro ser parada pelo ouvido.
Fernando Pessoa me fez dar meia volta
quando eu saía de uma casa uma vez.

Meus olhos saem sempre tristes à noite,
já sabem que vou gastá-los em vão.
Enquanto meus ouvidos não forem saciados,
nem meus olhos, nem meus lábios
se satisfarão.


segunda-feira, 17 de abril de 2017

Pela primeira vez

Ontem eu vi algo pela primeira vez.
Estávamos todos na sala quando minha mãe disse que precisava trocar o bebê. Ela perguntou se eu sabia como se trocava um bebê. Eu disse que sabia, tinha visto minha irmã trocar a Manu, mas mesmo assim eu queria vê-la trocar e aprender mais uma vez. Subimos para o quarto, minha mãe pegou o protetor de cama, os apetrechos e lencinhos e as fraldas ecológicas da minha irmã. Puxamos os bracinhos da Manu, mexemos o bumbunzinho dela, limpamos toda a caca, mamãe me ensinou a checar todas as dobrinhas. A Manu deu risada, foi super boazinha e linda. Trocamos a blusa dela e a mamãe levou ela embora no colo. Aquele momento, ver minha mãe sendo avó com aquela delicadeza, aquele jeitinho dela, aquilo mexeu comigo como se eu visse o mar pela primeira vez.

Empresto de Hilda Hilst

Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite 
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água 
Desejasse

Escapar da sua casa que é o rio,
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo 
Entendo que sou terra. Há tanto tempo 
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento. 


(do "Dez chamamentos ao amigo")

sábado, 8 de abril de 2017

Despreocupados

Eu lembro direitinho da primeira vez que eu quis casar com você. A gente estava no Camboja, bem no meio da viagem, e o guia turístico esqueceu de nos avisar que ficaríamos dois dias sem banho. Aquela noite a gente ia dormir numa vila de palafita com uma família local. Eu vestia um macacão curto e uma regata laranja e você uma bermuda cáqui e uma camisa da seleção. Durante o dia, totalmente despreocupados, fizemos tudo que tinha para fazer: andamos de charrete de madrugada para ver o nascer do sol, comemos um escorpião e partes de uma tarântula, atravessamos uma ponte mística e suamos toda a água do nosso corpo. Meu cabelo, que era super comprido, estava duro por causa do suor. O sol já estava se pondo quando o guia lembrou de nos avisar sobre o banho. A gente já devia ter imaginado que isso fosse acontecer porque aquela vila ficava no meio do nada e não tinha eletricidade, internet ou álcool gel. Eles nem sequer conheciam essas coisas. A seleção brasileira de futebol eles conheciam. Logo que o guia terminou de falar eu imediatamente senti o meu próprio cheiro e quis chorar um pouquinho. Olhei para o lado e você não estava mais ali: estava jogando futebol com as crianças da vila.

A minha árvore

Olhando para aquelas árvores altas ali balançando em cima de mim, eu fiquei pensando que de repente o meu grande objetivo aqui na Terra seja apenas balançar minhas folhas conforme o vento. Minha passagem por aqui será tão inútil quanto a daquela árvore. Todo o oxigênio que ela produzir eu mesma vou respirar e quando eu morrer, ela vai continuar produzindo oxigênio para outra Clara qualquer e quando ela morrer, a Terra vai continuar girando como se nada tivesse acontecido.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Sobre a velhice

Ando descobrindo muito sobre mim mesma nas coisas que escrevia sobre os outros nos meus diários. Outro dia eu li que estava de saco cheio de um certo namorado "velho de 29 anos" porque ele não gostava de guloseimas de supermercado. Eu escrevi que sempre amaria chocolates e salgadinhos de supermercado e que aquilo era velhice dele. Que triste. Hoje eu tenho 30 anos e detesto guloseimas de supermercado.

Nota sobre um namorado

Ele não soube me amar como um homem ama uma mulher, ele me amou como se ama um quadro na parede.

domingo, 2 de abril de 2017

Cacos (um poema antigo)

Três vidros quebraram na minha mão essa semana:
uma taça,
um pote,
uma janela.
Queria quebrar o vidro que te envolve.
- Ei, você me escuta agora?
E você, então, passaria a me ouvir.


Um homem partido ao meio

Você é agora feito de esforço para se manter firme cansado mas forte com o som de pratos, talheres cheiro de alecrim sua presença tem d...