quinta-feira, 30 de julho de 2026

minha memória questionável

 Se eu esqueço é discutível
minha memória questionável 
quantas histórias 
cabem em você?
se eu te escuto repetir
aquela da sua avó 
que perdeu a rivalidade
a vontade de viver
novamente eu reflito
mês que vem conta de novo 
amiúde eu escuto 
tem sempre algo novo
suas histórias repetidas
minha vontade de viver


quarta-feira, 8 de julho de 2026

eu subi um degrau

 Você roubou meu cartão postal e publicou três livros
eu continuo aqui se deixando roubar
continuo aqui, material não publicável
falando das mesmas coisas: amor desamor e morte
na vida no entanto eu subi um degrau
ando roendo as unhas de sempre mas
não tenho mais vergonha de ser transparente

a cara da mãe

 Eu conto até dez para não me cansar
da voz do menino mais velho 
que me irrita dez vezes por dia
quando chega no oito 
eu viro de lado e rezo 
o menino só fala chatice
é a cara da mãe

segunda-feira, 27 de abril de 2026

o encontro

 tenho certeza que você trabalha agora mesmo
compenetrado batendo teclas e metas
de terno no ar condicionado a ser sério 
tudo tão segunda-feira
tenho certeza que você trabalha tão sempre
tudo normal mas eu tenho certeza
o encontro ainda bate uma vez por segundo 
como se fosse agora te desconcentra
e amanhã ainda é terça

setecentos mil

Não tenho setecentos mil de bate-pronto
mas eu aceito que me arranques 
o filho não-nascido
resignada
Eu tenho uma mesa comprida 
bibelôs e plantas
você tem os setecentos mil
dois filhos
te faltam as plantas
eu sei que te faltam samambaias
begônias
e todas as flores da montanha

domingo, 26 de abril de 2026

com menos ouro

Há dez anos eu largava um anel do sofá de uma casa que não existe mais e dizia "eu não posso." dez anos se passaram e aquela casa não existe mais e hoje eu te vi subindo uma ladeira de bicicleta com a sua filha de 5 ou 6 anos numa cadeirinha. Existem correntes de pensamento que dizem que o tempo é linear e o passado presente e futuro é tudo uma coisa só então você me olhava com os olhos mareados e também carregava a sua filha e eu carregava uma medalha agora ou naquele sofá porque eu tinha acabado de sair de uma corrida e o anel foi derretido há anos e aqueles diamantes que eu larguei no sofá estão em uma vitrine em outro dedo ou outros dedos. não pude ver sua filha direito, mas sei que ela tem os cabelos da mãe, eu já vi a mãe dez anos atrás quando você e ela estudaram juntos. Enquanto você fazia sua filha e talvez outros filhos também eu vivia um monte de outras coisas e mais outras e fazia escolhas e dizia sim para outro anel. Com menos diamantes e menos ouro, eu disse sim no presente que foi passado mas é futuro. 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

No seu pandeiro

Faça uma música para mim no seu pandeiro
com palavras que não rimam
sem ritmo ou precisão
quero ouvir minha alcunha
entre as notas, tortas
flutuando pela sala
invado o seu vício
disfarçada em sol maior
danço nos seus dedos
marcados de tanto bater
Invente para mim uma música
improvise uma estrofe
mesmo que fora do tom
quero sair da sua boca
entrar no seu ouvido 
vibrar em você


terça-feira, 28 de outubro de 2025

Casamento

Viramos um para o outro
cabeças no travesseiro
rimos do teco de pele que sangrou
rimos da grosseria que foi dita
do pernilongo gordo
rimamos as risadas
viramos os dois para o mesmo lado
corpos colados
dormimos.

quarta-feira, 21 de maio de 2025

até o barulho da porta

No café da manhã te conto um sonho
você finge não entender 
te beijo e abraço suas costas
você beija de volta e vai embora
fico com as suas coisas
o seu cheiro em tudo 
um grampeador tem seu cheiro
um garfo
coloco as toalhas no sol 
abraço sua roupa
fuço sua carteira
procuro por mim em algo seu 
até nos livros de lacan
que já estavam ali bem antes
seminários sem graça
sem a gente 
ouço o barulho do trânsito
você escuta?
o resto do dia é qualquer coisa
até o barulho da porta
que corro para abrir

juntos, flutuantes

Um tic tac antigo na parede 
lembra que estamos parados no tempo 
como galhos fixos a uma pedra 
num rio que flui violento 
o tempo nos desliza 
mal sentimos suas garras
estamos juntos, flutuantes
nada nos ocorre 
assim será até que o tempo 
termine de nos corroer 
e nos leve rio abaixo

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

uma mordida na perna
um veneno de lagarta no dedo
uma conta negativa no banco
uma franja que eu não gosto
um bloqueio criativo
um medo que não passa
é janeiro ainda

não ver o tecido

 tem qualquer coisa de ex 
tem algo de colher também
tento divagar sobre escolhas
a dor todavia me atravessa
no vislumbre de outra vida
reflito sobre poder e sobre ter sido 
não encontro indício
e tecer não é isso? 
Um agora crescendo no forno
me iludo no entanto 
pensando ser esse o resigno
olhar o passado 
não ver o tecido.





Não há manhã

 Falo sobre filhos 
como sobre o café da manhã
exceto que não há 
manhã para o café


quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

As suas coisas espalhadas

Elas me observam
andar pela casa, chorar
escrever 
quando é minha vez
de observá-las
choro um pouco mais
por ficarem tão paradas
sem nenhuma atitude
nem perdão
as suas coisas espalhadas
me observam 
não me deixam escrever

domingo, 1 de dezembro de 2024

a grande decisão

Tudo está apenas em cima
encobrindo, disfarçando 
a coisa maior, a questão central
a grande decisão
me penetrou um desejo
sorrateiro, no meio da noite
me comeu a razão
não há como remover
evitar, transferir, desviar
tudo está apenas em cima
da grande decisão.

Encruzilhada

Doem as escolhas e doem as renúncias 
doem os anos entre cada uma
cada noite mal dormida
cada falta de chão 
desde aquele não 
doem os dentes apertados
dói pensar naquele não
o que fazer? O que fazer?
Dói tudo 
ler o seu nome num livro 
a ameaça de um pandeiro
numa música
a escolha que tenho que fazer
a renúncia que se faz:
é tudo dor.



quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Quando saio, não volto

 Se tenho que sair
[tentei fincar as mãos 
no corrimão 
da escada de casa]
saio a passos lentos
sem desejo
um pouco de medo
depois da porta eu me desfaço
despedida do que sou
quando saio, não volto 
crescem unhas
cabelos, o suor que escorre
minha pele se transforma
a que volta não sou eu 
menos tonta 
mais cansada
melancólica
Se eu tenho que sair
é melhor que eu não saia
não existe um retorno
é outra a mão que finca 
na escada, no corrimão.

terça-feira, 19 de novembro de 2024

vou deixando

Não tem grandes movimentos
eu me esforço 
seria um desastre completo?
as transformações
sobreviveríamos?
Por enquanto estou aqui
não tenho medo
vou deixando 
o que será de mim
se eu não fizer nada
e se eu fizer
será pior?

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

você, um beco

Querosene
explosão 
admite a melhora
admite a melhora da casa com as plantas
uma samambaia para cada lado
tirar dois livros da estante
uma begônia
você aguentaria
mais uma separação?
eu vejo um berço 
você, um beco
que casamento resiste
tamanha interrogação
no querosene, explosão.



quinta-feira, 4 de julho de 2024

separação

 vou ficar com o que é meu
a poltrona
metade do sofá
o frigobar
o resto é seu 
a cama, o carro
os quadros
os filhos.

minha memória questionável

 Se eu esqueço é discutível minha memória questionável  quantas histórias  cabem em você? se eu te escuto repetir aquela da sua avó  que per...