Há dez anos eu largava um anel do sofá de uma casa que não existe mais e dizia "eu não posso." dez anos se passaram e aquela casa não existe mais e hoje eu te vi subindo uma ladeira com a sua filha de 5 ou 6 anos numa cadeirinha. E existem correntes de pensamento que dizem que o tempo é linear e o passado presente e futuro é tudo uma coisa só então você me olhava com os olhos mareados e também carregava a sua filha e eu carregava uma medalha agora ou no sofá porque eu tinha acabado de sair de uma corrida e o anel foi derretido há anos e aqueles diamantes que eu larguei no sofá estão em uma vitrine em outro dedo ou outros dedos. não pude ver sua filha direito, mas sei que ela tem os cabelos da mãe, eu já vi a mãe dez anos atrás quando você e ela estudaram juntos. Enquanto você fazia sua filha e talvez outros filhos também eu vivia um monte de outras coisas e mais outras e fazia escolhas e dizia sim para outros anéis. Com menos diamantes e com menos ouro, eu disse sim no presente que foi passado mas é futuro.
Tudo isso em uma fração de segundo
domingo, 26 de abril de 2026
segunda-feira, 1 de dezembro de 2025
No seu pandeiro
Faça uma música para mim no seu pandeiro
com palavras que não rimam
sem ritmo ou precisão
quero ouvir minha alcunha
entre as notas, tortas
flutuando pela sala
invado o seu vício
disfarçada em sol maior
danço nos seus dedos
marcados de tanto bater
Invente para mim uma música
improvise uma estrofe
mesmo que fora do tom
quero sair da sua boca
entrar no seu ouvido
vibrar
terça-feira, 28 de outubro de 2025
Casamento
Viramos um para o outro
cabeças no travesseiro
rimos do teco de pele que sangrou
rimos da grosseria que foi dita
do pernilongo gordo
rimamos as risadas
viramos os dois para o mesmo lado
corpos colados
dormimos.
quarta-feira, 21 de maio de 2025
até o barulho da porta
No café da manhã te conto um sonho
você finge não entender
te beijo e abraço suas costas
você beija de volta e vai embora
fico com as suas coisas
o seu cheiro em tudo
um grampeador tem seu cheiro
um garfo
coloco as toalhas no sol
abraço sua roupa
fuço sua carteira
procuro por mim em algo seu
até nos livros de lacan
que já estavam ali bem antes
seminários sem graça
sem a gente
ouço o barulho do trânsito
você escuta?
o resto do dia é qualquer coisa
até o barulho da porta
que corro para abrir
juntos, flutuantes
Um tic tac antigo na parede
lembra que estamos parados no tempo
como galhos fixos a uma pedra
num rio que flui violento
o tempo nos desliza
mal sentimos suas garras
estamos juntos, flutuantes
nada nos ocorre
assim será até que o tempo
termine de nos corroer
e nos leve rio abaixo
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025
não ver o tecido
tem qualquer coisa de ex
tem algo de colher também
tento divagar sobre escolhas
a dor todavia me atravessa
no vislumbre de outra vida
reflito sobre poder e sobre ter sido
não encontro indício
e tecer não é isso?
Um agora crescendo no forno
me iludo no entanto
pensando ser esse o resigno
olhar o passado
não ver o tecido.
quinta-feira, 12 de dezembro de 2024
As suas coisas espalhadas
Elas me observam
andar pela casa, chorar
escrever
quando é minha vez
de observá-las
choro um pouco mais
por ficarem tão paradas
sem nenhuma atitude
nem perdão
as suas coisas espalhadas
me observam
não me deixam escrever
domingo, 1 de dezembro de 2024
a grande decisão
Tudo está apenas em cima
encobrindo, disfarçando
a coisa maior, a questão central
a grande decisão
me penetrou um desejo
sorrateiro, no meio da noite
me comeu a razão
não há como remover
evitar, transferir, desviar
tudo está apenas em cima
da grande decisão.
Encruzilhada
Doem as escolhas e doem as renúncias
doem os anos entre cada uma
cada noite mal dormida
cada falta de chão
desde aquele não
doem os dentes apertados
dói pensar naquele não
o que fazer? O que fazer?
Dói tudo
ler o seu nome num livro
a ameaça de um pandeiro
numa música
a escolha que tenho que fazer
a renúncia que se faz:
é tudo dor.
quarta-feira, 20 de novembro de 2024
Quando saio, não volto
Se tenho que sair
[tentei fincar as mãos
no corrimão
da escada de casa]
saio a passos lentos
sem desejo
um pouco de medo
depois da porta eu me desfaço
despedida do que sou
quando saio, não volto
crescem unhas
cabelos, o suor que escorre
minha pele se transforma
a que volta não sou eu
menos tonta
mais cansada
melancólica
Se eu tenho que sair
é melhor que eu não saia
não existe um retorno
é outra a mão que finca
na escada, no corrimão.
terça-feira, 19 de novembro de 2024
vou deixando
Não tem grandes movimentos
eu me esforço
seria um desastre completo?
as transformações
sobreviveríamos?
Por enquanto estou aqui
não tenho medo
vou deixando
o que será de mim
se eu não fizer nada
e se eu fizer
será pior?
segunda-feira, 28 de outubro de 2024
você, um beco
Querosene
explosão
admite a melhora
admite a melhora da casa com as plantas
uma samambaia para cada lado
tirar dois livros da estante
uma begônia
você aguentaria
mais uma separação?
eu vejo um berço
você, um beco
que casamento resiste
tamanha interrogação
no querosene, explosão.
quinta-feira, 4 de julho de 2024
separação
vou ficar com o que é meu
a poltrona
metade do sofá
o frigobar
o resto é seu
a cama, o carro
os quadros
os filhos.
por todos os lados
você assiste o futebol
faz piada sobre o rubens
caminha com seu tênis
toma banho
fala com seu filho
segue a vida
de sempre
eu tento
eu tento desviar
atravessada
da morte espalhada
por todos os lados
Vingança
Quando a gente se separar
vou roubar de você
o livro azul
do fernando lemos
o pessoa pode ficar
é o lemos que eu quero
com aquela assinatura laranja
seu nome e a data
o ano que nos conhecemos
eu sei que é mentira
você encontrou o livro depois
quero guardar essa mentira
roubar de você
o livro que você roubou
quarta-feira, 3 de julho de 2024
Eu não erro mais
Foi quando eu esqueci a ração?
Ou aquela hora na praia?
ou antes?
quanto antes?
qual foi o momento?
o que eu esqueci?
quanto eu deixei de ganhar?
eu ri quando não devia?
demorei demais para sair?
ou para chegar?
foi quando eu pintei o número da casa?
ou quando a pia entupiu?
se não tivesse entupido
se eu tivesse ido mais rápido
se a passagem fosse a certa
se eu não tivesse errado o caminho
eu não erro mais o caminho
eu juro
Rasgar
Rasgar, rasgar
rasgar fotos
diários velhos
cartas antigas
queimar talvez
queimar as lembranças
guardadas no armário
da casa dos pais
brinquedos também
que foram os seus
preferidos
para que guardar
para que, meu amor
para quem?
terça-feira, 28 de maio de 2024
Deu certo
Devo ter sido bem precisa.
Ter visto você no passado
- quando eu tinha 7 e você vinte.
Devo ter te visto passar.
Ficou guardado na memória -
o cabelo que espeta, a sobrancelha desenhada
o degrau que eu gosto de subir.
O seu molde eu já tinha,
foi só eu pedir.
quinta-feira, 9 de maio de 2024
Asas do Desejo
O meu filme preferido da vida mostra uma humanidade desolada no pós-guerra e dois anjos que observam tudo de cima. Eles veem apenas a beleza de estar vivo e consideram a humanidade seres de sorte. Invejam que o homem pode sentir gosto, sentir dor, amar. Invejam que podem sentir o gosto do café e o toque do jornal nas mãos. Penso nesse filme quase todos os dias, mas principalmente quando começo a desanimar. Tento olhar tudo de cima e me lembrar.
domingo, 3 de março de 2024
que virá
me promete
me promete que virá
eu não sei mais ser quem sou
quero ser que eu serei
quando você chegar
não sei se vai ser tarde
se vai dar tempo
se terei o que ensinar
me promete
me promete que virá
não houve
Teve sangue,
teve o fluxo normal das coisas
teve um traço só, eu queria dois
eu queria furacão
eu queria rompimento
a vida nova que viria
meu corpo virando colo
esse mês foi só mais um
que não houve a sua vinda
segunda-feira, 16 de outubro de 2023
Nova York
Tudo lotado
gente por todo lado
ambulância
fumaça
trombada de ombro
de vez em quando um parque
resistindo e disfarçando
a ebulição
ocorrendo por debaixo
das ruínas corroendo
de alma a poste
nada em pé.
segunda-feira, 25 de setembro de 2023
Desde então não te obedeço
Desde então não te obedeço.
Tenho ficado sozinha,
não tenho mais hora para sair.
Meu tapete vazio do seu corpo,
as coisas sem seu cheiro, todo o jardim.
Até o seu prato eu já tirei.
O seu pedido no fim da tarde,
eu sempre obedeci.
Desde então não te obedeço,
mas eu sinto a sua pata, invisível,
me pedindo pra sair.
quarta-feira, 13 de setembro de 2023
O berro
Aquele berro
ecoou, ecoou
vibrou lá dentro
sentia nas vias
semanas depois
nos tubos do corpo
no ouvido
nos dedos
ficou na memória
o berro que eu
furiosa berrei
quicou no seu peito
voltou para o meu
o berro não foi
o berro voltou.
segunda-feira, 14 de agosto de 2023
segunda-feira, 7 de agosto de 2023
Bem-sucedido
A gata pula em cima de moscas
e depois as deixa fugir.
Você deita sempre no meu pé,
para garantir que vai sentir
se eu levantar dali.
Quando você julga que é hora
faz todo tipo de inconveniência para eu te levar
bafo na cara, posar na minha frente,
uma lambidinha sutil
até eu me tocar que é mesmo hora.
Depois do passeio (a gata continua com as moscas)
você deita um pouco mais relaxado
preguiçoso, nem quer mais saber:
mais um dia bem-sucedido.
domingo, 6 de agosto de 2023
Destomados
A farmacêutica está tomada
alimentícia também
a musical, cinematográfica
também a do ramo do lixo
da moda
dos créditos de carbono
dos bancos
dos bancos de reserva
a de fazer taxas, leis
multas
a de fazer barbies:
as indústrias estão tomadas.
Olhemos em volta:
nós é que ainda estamos
destomados.
quarta-feira, 2 de agosto de 2023
Laranja e preta
Uma lágrima já havia rolado
a seguinte na iminência
quando fui agarrar o lenço
o vi
e duas novas pintas
em seu pequeno corpo
laranja e preta
foi durante a noite que ele mudou?
Ele ia de um lado para o outro
feliz com o aquário limpo
olhei no relógio:
a hora de chorar
havia passado
terça-feira, 1 de agosto de 2023
Parte do jardim
No inverno o jardim fica tão morto
a grama seca
os esqueletos de plantas subindo os muros
o silêncio da ausência de pássaros
a falta de cor
Nos resta resistir
lembrar que irão voltar
folhas e cores e a vontade de viver
lembrar que é sempre assim
ano após ano
a morte sonda no inverno
arranca folhas
esvazia a cor, impede o sol
depois parte
levando parte do jardim.
sexta-feira, 21 de julho de 2023
espuma da praia
Ele filmou a espuma da praia
enquanto eu dormia
três anos depois encontrei a imagem
"quem filmou a espuma da praia?"
eu nunca me perguntaria,
só podia ter sido ele.
Não é minha.
Eu sei o que mudou.
São as noites:
agora estão mais curtas.
Passei a noite toda e vi
com os meus dois olhos.
Antes eu escrevia um livro
em uma noite
e dessa vez
o que saiu foi uma frase.
É uma pena,
mas a culpa
não é minha.
a filha dele
a filha dele chama clara
ele nunca conheceu outra
eu só conheci um
que me apresentou
fernando pessoa.
Multidão
Há uma multidão
eu tenho que sair do quarto
descer
desviar, relevar
uma multidão
e eu não tenho
onde me esconder
36 argumentos
"Fala para ele, Clara."
Na hora trinta e seis
argumentos se separam de mim
me largam no canto da estrada
fico
calada.
segunda-feira, 1 de maio de 2023
Jamais saberemos
Nos olhamos sem entender
não sabemos e jamais saberemos
seguimos nosso trabalho e nossas vidas
de vez em quando nos olhamos
desconfiadas, seguimos
sabemos que há interrogações
flutuando em nossas cabeças
nada falamos
falhamos em compreender
de oito bilhões de seres
193 países, 38 mil cidades
viemos juntas
justo as três:
as três irmãs.
sábado, 25 de março de 2023
Folha
Tem vezes que eu viro folha
e a chuva que me molha
e no mato ou na mata
eu me escondo
Quando folha eu viro
o concreto me atravessa
eu me desfaço
faço conta que sou gente
me disfarço, eu me esforço
nada adianta nesse intuito
Eu sou muda
sofrida, cansada
eu sou folha.
sábado, 4 de março de 2023
melancolia
a melancolia que era
uma vez você me disse que eu não era normal
que havia algo especial
mas era uma melancolia ao seu lado
todo domingo eu queria chorar
não adiantava nos mudar de país
era você
Tedioso
Seria um futuro tedioso
e eu gosto de pensar que rejeitei
quando vejo suas listas
em aplicativos aleatórios
mesmo com as viagens
e casas espalhadas pelo mundo
e carros e jantares
suas listas sempre ali:
tedioso
Se tivesse que escolher
Eu sentei na mesa
do nono melhor
restaurante do mundo
bebi o drink
e pensei
eu troco qualquer coisa
do mundo inteiro
se tivesse que escolher
entre qualquer coisa
e você
sexta-feira, 3 de março de 2023
Finalmente é noite
Finalmente é noite
eu posso confessar ao breu
o dia todo foi em vão
paredes vazias me lembram
quadros que poderiam estar ali
unhas compridas são só
unhas roídas iminentes
finalmente é noite
ouço o breu me confessar
o dia todo foi em vão
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023
eu não devia
O medo me faz chorar às vezes
o que será de mim
e as mortes no litoral
o que será daquela gente
semana passada eu fui no Dom
a cada garfada um lembrete
eu não devia chorar
O americano
Escuto calada suas falas
entre uma garfada e outra
você pertence a outra dimensão
outro planeta terra
não sei o que responder
a distância é tanta
a língua é outra
nos entendemos mas
eu não entendo nada
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023
A lua nascendo
Eu gosto assim
a casa vazia
só eu
sem pressa
sem som na escada
a lua nascendo
atrás do prédio
mal dá pra ver
por horas a fio
sem sucesso
eu tento
Carnaval
Um dia eu entendi o carnaval
não mais
duas pessoas me cansam
depois de algumas horas
não posso imaginar
três mil
Alguém pisou
Há encontros a minha espera
finjo não lembrar que os marquei
ignoro o relógio e o celular
da cadeira eu ouço o trânsito
sexta-feira é um formigueiro
depois que alguém pisou
Peneira de aço
Não se limpa um rio com um copo
como no meu sonho
eu nadava no rio imundo
um homem tentava limpá-lo
há um homem fora do sonho
que faz isso com uma peneira grande
de aço
ele passa a peneira nas praias
pega bitucas e pedaços de plástico
o capitalismo nem se move
segunda-feira, 26 de dezembro de 2022
Pode ser que melhorem
ele recitava poesia às vezes para mim
eu parava tudo para escutar
às vezes aos prantos
nunca mais escrevi as minhas também
nunca mais fiz desenhos para ele
esse foi um ano difícil
eu desanimei muitas vezes
tenho saudades das poesias
acho que as coisas vão melhorar
talvez eu volte a desenhar
se ele recitar poesias para mim
pode ser que as coisas melhorem
Sol
não vou tomar sol hoje
o sol deixa a gente mais alegre
hoje eu não quero estar alegre
quero melancolia
quero escrever um pouco
depois eu tomo sol e apago tudo
caracol
tem um caracol comendo a minha planta
e tantas coisas comem as nossas coisas
e a gente come de tudo também
dei um peteleco no caracol
alguém precisa dar um basta.
casa preta
Quando dou meu endereço eu escrevo:
(casa preta)
porque minha casa é toda preta
por dentro não
por dentro é cheia de tijolos e livros
e obras de arte e às vezes eu
três
Três e eu:
três cadeiras na mesa de jantar
e a minha
três pratos de carne
e o meu
tem dias que somos quatro
nos outros são três
e eu.
Faca afiada
Uma vez, aos sete ou oito anos de idade,
eu peguei uma faca de cozinha da minha mãe
bem afiada
levei até a sala, escura, e fiquei atrás do sofá pensando
que eu poderia fazer o que eu quisesse com aquela faca
depois de algumas horas
devolvi a faca para a cozinha e fui dormir.
paixão
a paixão transtorna a vida da gente
faz a gente sair da nossa casa, tão gostosa a casa
cheia de coisas que gostamos, coisas nossas
e ir para a casa do outro
cheia de gente que a gente aceita
coisas que nunca escolheríamos
comidas que não gostamos
depois a paixão passa e deixa a gente ali
sem a nossa casa.
feliz natal
você resolve as coisas
o meu cérebro é tão mal resolvido
dia sim dia não eu sofro
por algo que eu poderia ter feito
ou algo que poderia ter deixado para trás
me faz um favor
escreve outra cartinha
aquela não tinha nada
eu nem sei o que quer dizer
feliz natal
sábado, 8 de outubro de 2022
ficamos de fora
quem ocupa os espaços
de decidir e guiar
não quer proteger ou cuidar
quer armas, garimpo
mansões em dinheiro
vivo
enquanto morrem de fome
de sede, de dor
aos seus pés
humanos
e quem ocupa os espaços
destrói nossa fonte de chuvas
a ciência, a mulher, as escolas
e tudo que há
ficamos de fora desses espaços
pasmos
catando migalhas e ossos
na fila do abismo
indignados
sem força, sem voz
sem chão, sem vez
sem ar.
as nozes, descobri outro dia, fazem bem para o cérebro. é fácil de lembrar pois elas têm formato de cérebro. meu vizinho passou horas limpando o chão do quintal com a mesma água que nos falta mês sim, mês não. me senti péssima por não ter berrado com ele, mas eu prefiro jogar mato na grama dele e outras frutas que estragam das minhas árvores. covarde. outro dia pensei que não escrevo mais poesia porque eu descobri que nunca escrevi poesia. escrevi pensamentos, dei a eles um espaçamento bonito e um lugar numa página em branco. depois, detestei tudo que escrevi, mas eles já não eram mais só meus. acho tão interessante pensar que vivemos agora o começo do fim deste mundo como conhecemos. estamos exterminando tudo e não há o que fazer porque o lado do extermínio é maior do que o lado da consciência. estamos no titanic e somos os violinistas, o próprio iceberg, a falta de botes e o capitão. somos o mar gelado. são tempos interessantes. sinto um misto de alegria de estar vivo com uma pergunta do por que estou viva agora, justo agora. eu e minhas mesquinharias, minha vontade de comprar um tênis novo, meu medo de ser mãe, minha vontade de fugir pro mato. não entendo por que as pessoas não se entopem de nozes, se fazem tão bem para o cérebro.
quarta-feira, 31 de agosto de 2022
só
eu subi no palco
subi o tom de voz
subi num avião até Los Angeles
subi para não ser só
mas foi só
depois que desci
até o fundo de dentro
do fundo do poço
de dentro de mim
percebi:
somos todos
terça-feira, 2 de agosto de 2022
Gabriela
Ela lava a roupa enquanto fala comigo
apesar da voz doce, é mulher firme - às vezes até dura
tem cabelos finos e cheirosos, sempre cheirosos
eu só posso me lembrar: ela vive longe.
Me sinto inchada, cheia de sangue que não desce
o telefone às vezes falha e eu perco uma palavra
anotei outra: "processos"
sobre os rios que são a vida
cheios de margens compressoras
mas também cachoeiras e casas na montanha.
Desabafo sobre os exageros do outro
e ela me receita cuidar da fala:
sou eu que sinto - o outro é alheio.
Alguém ao lado dela diz que vai nadar
reconhecemos a benção que é entrar
numa terça-feira no mar.
Eu olho para os prédios e sonho
- com ela eu sempre sonho.
Sinto desaguar o sangue preso e me lembro:
ela é sempre um cuidado.
terça-feira, 24 de maio de 2022
Sem um amor
Deve ser difícil não poder
apoiar-se no amor
nos dias em que as pernas falham
Deve ser difícil chegar e não ver
o olhar do amor
esperando na escada
O quão difícil deve ser
despertar sem o amor
dar beijos e risada
Não imagino ocupar
neste mundo um lugar
sem ao lado um amor
que veja junto o sol se pôr
terça-feira, 3 de maio de 2022
Covas
Nada mais se faz neste mundo
além de cavar covas
para todo humano que vive
para os próximos que virão
o homem cava sua cova
escova os dentes e vai dormir.
terça-feira, 5 de abril de 2022
não se deixa de ser
Eu até quero ser
mas o medo é maior
está escrito falha e culpa
em tudo quanto é lugar
ser mãe é sempre
o tempo todo
não se deixa de ser
o medo é maior
a gente mal sabe se ser
como é que vai saber
ensinar para outro ser
como é que se é?
Crise
Ansiedade
ânsia de vômito
coração disparado
tantas demandas
pânico, calafrio
desespero do desespero
do mundo
me sinto e sou
impotente inoperante
inadequada
e nada me resta a não ser
o invisível vômito no chão
caneta e caderno na mão
inventar poesia
segunda-feira, 28 de março de 2022
Para o contato
O mecanismo
dos sentidos alheios
é um mistério.
São criptografadas
as falas do outro,
o contato.
É um mistério
como funcionam
relações sem tradução
imediata.
Todo o tempo se empilham
toda sorte de símbolos
mal decifrados
nos fundos dos olhos
e ouvidos desleixados
do outro.
Inventarão algum dia
para o contato
tradução?
sábado, 26 de março de 2022
132 semanas
Nunca inchou minha barriga
o tempo não passou em semanas
não fiz olhos, narizes e nem coração
eu nunca esperei num quarto vazio
meus braços não foram cama
nunca tive nenhuma extensão
No entanto há dias no quarto
tão só quanto uma mãe
recusam a minha comida
não respondem minhas perguntas
desprezam os meus pedidos
os filhos que eu não tive me rejeitam
a mãe que eu não fui não sai de mim.
quinta-feira, 3 de março de 2022
um mundo sem homens
Sozinha na mesa
almocei cheia de medo
da grande extinção em curso
- um mundo sem homens
roí meu restinho de unha
pedi a conta, vim correndo
para o homem que me acolhe
enquanto homens amputam outros homens
enquanto homens guardam tudo para si
há um homem
com uma caixa de ferramentas
conserta paredes e pessoas paradas
logo o mundo vai ficar sem os homens
abraço este homem e fico tão triste
só queria poder avisar
antes do céu cair:
este homem só faz consertar
segunda-feira, 13 de dezembro de 2021
Ele insistiu que "o acaso é feito à nossa semelhança" e repetiu-o diversas vezes. Você nem se importou. Disse qualquer coisa sobre os fatos e os homens e qualquer coisa dos livros. Eu me importei, e me importo que te falte em absoluto alguma vontade de saber sobre os mistérios como o acaso. Mas eu supero. Há dias em que você me mostra, maravilhado, que abelhas visitam as plantas que escorrem no seu consultório - e no instante seguinte sementes caem no chão, como uma chuva baixinha. Você filmou essa cena e me mostrou quase emocionado falando sobre os tempos certos da natureza. Nem me importa se o acaso é feito disso ou daquilo. Acaso ou mistério, eis você aqui, maravilhado com abelhas e sementes, do meu lado.
sábado, 20 de novembro de 2021
Quatro horas da manhã
Essa não é a primeira vez que eu tenho insônia
é possível que seja a mais longa:
já faz duas horas e meia que estou acordada.
É a primeira vez que eu escuto a sua respiração durante uma insônia
você nem reparou que eu saí da cama.
Senti pena da nossa vizinha barulhenta pela primeira vez
é madrugada e ela fez uma tapioca para o aplicativo de entregas.
Será que ela já estava acordada?
Fiz um chá de camomila para ver se me dá sono
esqueci de tomar, esfriou.
A camomila já estava velha também.
O relógio do seu avô me disse que são quatro horas.
Enquanto espero o sono chegar comprei uma peça de teatro virtual
Esperando Godot, do teatro Oficina.
Vou esperar você acordar para assistirmos juntos.
sábado, 25 de setembro de 2021
O tempo todo
é o tempo todo assim
essa vontade de ficar
perto da sua boca
ouvir falar
ou ficar
em silêncio
que vontade de beijar
o tempo todo me dá
Nova York, dentro do ego
Por todos os lados
dá para se viajar
por aqui e lá fora
Nova York, dentro do ego
qualquer lugar
com dinheiro, cápsula
ou remédio
sempre tem para onde ir
embora se saiba
amplamente
por todos os médicos
indivíduos e viajantes
é o peito do outro
o melhor lugar
para se viajar
Eu já sabia
eu já sabia
que iria te encontrar
quando eu larguei tudo
só ficava impaciente
na sala de espera
não sabia, não sabia quando
e aí você apareceu
todo de cerveja, ajoelhado
diante de mim
ouvindo o meu chamado
nas palavras de Joyce
quando eu desci aquelas escadas
eu já sabia
que eu ia morar com você
terça-feira, 14 de setembro de 2021
quinta-feira, 26 de agosto de 2021
Nem reparo o Tietê
Itacaré, Itaparica
Taipu e Algodões
manguezal e Mata Atlântica
coco fresco e cacau
acontece que o seu colo
toque, peito
o seu cheiro
todo dia é tudo cinza
arranha-céu, eu sinto o gosto
de fuligem e esgoto
o tempo seco arde o olho
eu só vejo camelô
acontece que o seu toque
colo, jeito, sua voz
troco tudo, deixo o troco
da nascente até a foz
Maraú ou Camamu
nem reparo o Tietê
seca o tempo, não tem coco
mas o que arde mesmo o olho
é a falta de você
quarta-feira, 11 de agosto de 2021
Dói tudo
Menos o corpo
dói tudo
de dentro
pensar e dizer
e deixar de dizer
dói lembrar
esquecer é pior
o que é de dentro
e não é corpo
às vezes arde
a impunidade
e a dificuldade
de impedir
dói só de olhar
mesmo de longe
ou lá de dentro
o mundo arde
e o pior
é fazer parte.
quarta-feira, 14 de julho de 2021
É você?
verdes ou azuis
lindos os seus olhos
e suas mãos
que seguraram as dela
até o culto e a ciência
a risada sempre ao fundo
ironia ou brincadeira
seriedade só se for
no preparo da lasanha
no momento da história
cada vez com mais detalhe
e sapatinho de cristal
ainda bem que era você
quando eles viajavam
para nos ensinar tricô
contar mentira, dar risada
alimentar e nutrir
mas vovó, tem uma coisa
que a gente sempre quis saber:
o relato tão preciso
cabelos loiros, olhos claros
encantadora de ratinhas
é você a Cinderela?
quarta-feira, 30 de junho de 2021
Última
Fui a última a chegar
trouxe pássaro
planta, horta, altar
Fui a última a chegar
ocupei as gavetas do quarto
enchi a pia de vidros
a parede lá de baixo
quadro, estante
troquei o detergente
pintei flores no azulejo
ocupei o armário vermelho
até na cozinha
tem gaveta só minha
Fui a última a chegar
já ocupo tanto espaço
ainda tem o mamoeiro
que insiste em tentar
já eram três
e pra vocês
eu fui a última a chegar
vou tirar o mamoeiro
já ocupo tanto espaço
nem precisa mais falar
Seu passado
Elas nunca foram grandes
no entanto
em horas específicas
me parecem imensas
os meus dentes me ajudam
roem devagar
cada unha
até acabar
aquele dia na cama
falávamos sobre a falta
você queria mais memória
e eu queria menos
do seu passado
todo o tempo, em cada quadro
na pia, nos quartos
nos tênis que eu visto
minha unha estava tão grande
meus dentes me ajudaram
aquela noite
até sangrar
segunda-feira, 21 de junho de 2021
Entre nós
O que é o tempo pra gente:
treze anos atrás ou pra frente?
Entre nós.
Entramos. Lá se foram:
dois anos.
O meu fevereiro
o seu em setembro
é tempo também
os meses que tem
entre nós?
Apenas mais nós
os meses e anos
quiçá os segundos
que há entre nós.
sexta-feira, 16 de abril de 2021
Instante
As imagens variavam entre girassóis, cachoeiras e montanhas. Eram mesmo lindas, mas contrastavam demais com o barulho da broca e o cheiro de produto químico. Pensei em concentrar nas paisagens e me desligar, mas me lembrei do título do meu livro preferido: "Be here now" ou "Esteja Aqui Agora". Mesmo que o aqui agora seja uma cadeira de dentista e uma pessoa esteja me perfurando com uma pequena broca? Fiquei tentando entender por que estar aqui agora seria bom para mim.
No livro, o autor diz que o exercício é não desejar estar em outro lugar, porque essa é a fonte da dor. O exercício é tentar observar de fora, sem se apegar aos sentimentos e emoções ou aos pensamentos que pudessem vir. Observei os campos de lavanda que agora apareciam na tela do computador do consultório e pensei se ao observar aquelas imagens eu não estaria forjando uma fuga. Uma fuga do aqui e agora.
Fechei os olhos e tentei focar na inspiração e expiração. Percebi meu corpo relaxar. Sentir dor e estar naquela cadeira com uma broca enfiada na boca era melhor do que não sentir nada. Pensei nos anjos do Win Wenders observando os humanos e desejando coisas mundanas como o cheiro do café, sem poder as ter.
A experiência humana nem sempre parece boa, mas ela é como deve ser. Estar presente na hora em que o meu dente é perfurado é onde eu preciso estar e mais ainda: é onde eu quero estar, nesse enorme exercício de agradecer o instante.
terça-feira, 6 de abril de 2021
Na garganta
Tenho uma poesia
entalada na garganta.
Às vezes eu sinto o seu gosto.
Me sobe um refluxo,
dá azia
e a poesia
não sai do lugar.
Tentei pintar
assobiar
subir num palco
disfarçar
mas a poesia entalou.
Fincou as raízes
com a ponta do dedo
ela pinta de rosa
vez ou outra
a visão.
Sai não.
Como pomo de adão
a poesia é de lá:
fincada
engasgada
entalada na garganta.
domingo, 4 de abril de 2021
Insignificância
Manchei a minha mão
com limão
pude ver como ela ficará
quando eu envelhecer
Então fiz o que sempre faço
me entristeci
com minha insignificância
demorei para me lembrar
das pétalas das flores
insignificantes também
sempre caindo
ainda assim me doeu lembrar
eu e a rosa
pouco importamos
terça-feira, 9 de março de 2021
Se o sangue faltar
se o sangue faltar
na minha calcinha
o ar vai faltar
no meu peito
se você for sugar
o meu corpo
roerei minhas unhas
aos poucos
se você for pedir
o meu tempo
pedirei ao banco
perdão
quem vai segurar a outra mão
se eu tiver que te dar
para atravessar?
eu sei que deve ser bom
eu entendo o frisson
mas se o sangue faltar
a barriga crescer
eu tiver que doar
tudo que tenho
é tão pouco
meu filho
tão pouco
que não sei se vai dar
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021
No fundo do lago
Deixei cair meu diamante no fundo do lago
os dias passaram a chover
todos nós nos encharcamos
Eu sinto o meu brilho mas não o vejo mais
nos faltou tempo para buscá-lo
e máscara para ver o fundo
Eu sinto o meu brilho
no fundo do lago.
domingo, 10 de janeiro de 2021
O seu foco
Outro dia foi o avião entrando na nuvem de chuva
normalmente é o vôo do gavião ou do urubu
podem ser também o sabiá e o bem-te-vi
pousados
borboletas e mariposas
distraídas
até árvores gigantes
podem ser o seu alvo.
Você para sua moto e diz:
"repara"
quinta-feira, 7 de janeiro de 2021
Corrosivo e violento
Há caos e violência
nas tempestades que surgem
de céus escuros
levam tudo e se calam
Há brutalidade e força
nas árvores suntuosas sustentando-se
fincadas na terra com garras
nos rios que correm corroendo as margens
nas cobras, aranhas e veneno
Há dificuldade
ignorância
corrosão e morte
na natureza
o tempo todo a morte
inesperada e triste
entretanto
maior do que a morte
mais venenoso
corrosivo e violento
Há o homem.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2021
Fios
Os satélites,
astronautas e extraterrestres
se atentos
quando olham para baixo
são os únicos que podem ver
os fios invisíveis que nos conectam
às luzes acesas nos prédios
aos cães que latem no bairro
aos rios debaixo das cidades
às sirenes
aos vivos e aos nem tanto
aos cães que latem no bairro
aos rios debaixo das cidades
às sirenes
aos vivos e aos nem tanto
emaranhados
como uma bola de lã
terça-feira, 18 de agosto de 2020
quebranto
por um tempo
o anel não coube no dedo
gordo
o cotovelo não aguentou a invertida
o cotovelo não aguentou a invertida
e o toque
as coisas voltaram ao normal depois
não sobrou quebranto
ao lado da lavanderia
na mesa enorme
canetas e livros
três estantes de plantas
não havia mais nada de triste
só eu
sexta-feira, 24 de julho de 2020
Cimento
o cimento, você disse
uma arte complicada
tão difícil de moldar
as medidas e maneiras
no tom e tempo certos
com água e paciência
eu pergunto é pedreiro
um artista?
uma arte complicada
tão difícil de moldar
as medidas e maneiras
no tom e tempo certos
com água e paciência
eu pergunto é pedreiro
um artista?
quinta-feira, 9 de julho de 2020
não existe nada estático
os ponteiros
os pássaros voando
a dor no peito
a violência das ondas
não existe nada estático
com os anos se desbota
pregado
o quadro na parede
as igrejas medievais
em eterna restauração
somem um pouco a cada ano
templos e corais
essa tristeza a me torturar
a alegria que vem depois
todas as coisas
tem um pedaço de vida
sempre a morrer
os pássaros voando
a dor no peito
a violência das ondas
não existe nada estático
com os anos se desbota
pregado
o quadro na parede
as igrejas medievais
em eterna restauração
somem um pouco a cada ano
templos e corais
essa tristeza a me torturar
a alegria que vem depois
todas as coisas
tem um pedaço de vida
sempre a morrer
terça-feira, 30 de junho de 2020
Falta
Falta ritmo
um ritmo qualquer
entre os versos
da sua poesia
falta música
estudo
matemática, disciplina
Que falta a minha
escrever poesia
com tanta arte no mundo
pensei que a poesia
um ritmo qualquer
entre os versos
da sua poesia
falta música
estudo
matemática, disciplina
Que falta a minha
escrever poesia
com tanta arte no mundo
pensei que a poesia
era só transbordar
Babosa
Quero comprar um vaso de babosa
ou também Aloe Vera
uma planta pontuda
cheia de tentáculos e nutrientes
quero acompanhar seu crescimento
ponta por ponta
eu vou arrancar um pedaço
passar na minha pele
outro pedaço vai crescer no lugar
quero comprar um vaso de babosa
passar no meu cabelo
Aloe Vera
uma planta conhecida
todo mundo devia ter um vaso
tem tantas funções
a que mais me interessa
ou também Aloe Vera
uma planta pontuda
cheia de tentáculos e nutrientes
quero acompanhar seu crescimento
ponta por ponta
eu vou arrancar um pedaço
passar na minha pele
outro pedaço vai crescer no lugar
quero comprar um vaso de babosa
passar no meu cabelo
Aloe Vera
uma planta conhecida
todo mundo devia ter um vaso
tem tantas funções
a que mais me interessa
entretanto
é que dizem que ela protege
é que dizem que ela protege
a casa da gente.
terça-feira, 26 de maio de 2020
quinta-feira, 16 de abril de 2020
noção
acordei com a sensação
sabedoria?
de que neste exato momento
eu tenho tudo que eu preciso
para ser eu
sabedoria?
de que neste exato momento
eu tenho tudo que eu preciso
para ser eu
sexta-feira, 10 de abril de 2020
é difícil ver agora
Ele lava a louça, eu medito e quando abro os olhos tudo parece mais branco
Ontem ele me mostrou o amolador de facas do avô
fez questão de tirá-lo da caixa de madeira e passar os dedos pelo grafite
- olha que bonito, sente
um objeto que atravessou os anos
no meio da estante eu achei um livro de poesias hindu
não entendi nada, mas as letras indianas remetem a oração
orei também com o autor
há um vírus circulando pelo mundo
minhas palavras não o alcançam nem faca ou amolador
à noite pessoas saem às janelas para gritar contra o presidente
em outros países elas cantam
Há um vírus, é difícil ver agora
mesmo que ele tenha deixado tudo mais visível
é difícil ver agora que isso é uma travessia.
Ontem ele me mostrou o amolador de facas do avô
fez questão de tirá-lo da caixa de madeira e passar os dedos pelo grafite
- olha que bonito, sente
um objeto que atravessou os anos
no meio da estante eu achei um livro de poesias hindu
não entendi nada, mas as letras indianas remetem a oração
orei também com o autor
há um vírus circulando pelo mundo
minhas palavras não o alcançam nem faca ou amolador
à noite pessoas saem às janelas para gritar contra o presidente
em outros países elas cantam
Há um vírus, é difícil ver agora
mesmo que ele tenha deixado tudo mais visível
é difícil ver agora que isso é uma travessia.
terça-feira, 24 de março de 2020
Invisível
Poucas pessoas sabem
poucas, muito poucas
é invisível
não há ciência nem razão
é da ordem do mistério
indizível
ontem descobri
quando vi mais um morto
no leito do hospital
é proposital
da ordem do castigo
recomeço
da lição
é preciso matar
para chamar a atenção
é preciso morrer
para se fazer ouvir
silêncio
exílio
solidão
ele voltou
sem converter água
sem rosto ou apóstolo
quer que escutemos
devagar
atenção
lembre-se do amor
esqueceu?
poucas, muito poucas
é invisível
não há ciência nem razão
é da ordem do mistério
indizível
ontem descobri
quando vi mais um morto
no leito do hospital
é proposital
da ordem do castigo
recomeço
da lição
é preciso matar
para chamar a atenção
é preciso morrer
para se fazer ouvir
silêncio
exílio
solidão
ele voltou
sem converter água
sem rosto ou apóstolo
quer que escutemos
devagar
atenção
lembre-se do amor
esqueceu?
segunda-feira, 23 de março de 2020
O que eu sinto não é isso
o que eu sinto não é isso
quando você abre aquele quarto
trancado a sete ou oito chaves
passado e pó me fazem espirrar
o que eu sinto é invenção e preenchimento
talvez nem sejam da ordem do sentir
tanto faz
eu invento o seu passado
crio imagens, cenas no jantar
ela sentada no seu colo
o que eu sinto não é isso
eu não sei
talvez seja vontade de apagar
eu também tenho passado
não dentro de um quarto
no mesmo quintal
na mesma casa
numa pasta
em tudo quanto é canto
o meu passado eu já perdi
o que eu sinto é o seu passado
quando você abre aquele quarto
trancado a sete ou oito chaves
passado e pó me fazem espirrar
o que eu sinto é invenção e preenchimento
talvez nem sejam da ordem do sentir
tanto faz
eu invento o seu passado
crio imagens, cenas no jantar
ela sentada no seu colo
o que eu sinto não é isso
eu não sei
talvez seja vontade de apagar
eu também tenho passado
não dentro de um quarto
no mesmo quintal
na mesma casa
numa pasta
em tudo quanto é canto
o meu passado eu já perdi
o que eu sinto é o seu passado
sexta-feira, 6 de março de 2020
se ao menos
Me sinto cansada
minha perna esquerda dói
os olhos querem cerrar
te tocar eu não consigo
é tanto o meu cansaço
nesse fardo de viver
se ao menos eu soubesse
onde é que acende a luz
minha perna esquerda dói
os olhos querem cerrar
te tocar eu não consigo
é tanto o meu cansaço
nesse fardo de viver
se ao menos eu soubesse
onde é que acende a luz
quinta-feira, 5 de março de 2020
Por trás dos olhos
Eu não tinha te notado quando cheguei na plataforma. Mal consegui reparar no seu rosto ou na cor das suas roupas e, mesmo assim, eu nunca mais me esqueci. Aquele olhar vazio, privado de um humano por trás dos olhos. Eu nunca pegava o metrô, mas naquele dia ia me poupar muito tempo. Comprei o bilhete e desci correndo para entrar no vagão. Mesmo assim perdi o primeiro trem e tive que esperar pelo segundo. Tinha pouca gente ali, duas ou três pessoas além de mim. Talvez cinco ou dez. Era o meio da tarde de uma quarta-feira. Três e quatorze da tarde. Eu lembro da hora exata porque tinha acabado de olhar o relógio quando você gritou: "O trem está chegando. Preste atenção que a sua vida vai mudar." Não consegui nem esboçar algum tipo de pergunta porque o trem chegou e você se atirou. Nem um porquê. Um 'e se' ou um 'como'. Nada. Não tem um dia sequer que eu não pense em você, no seu olhar vazio, na dor inexplicável que eu senti aquele dia. Eu não sei dizer se a minha vida mudou como você falou, tudo está sempre mudando. De fato você virou parte de mim, como talvez não teria virado. De uma maneira que eu não gostaria. Me fez ter medo da morte quando ela era só mais um detalhe.
domingo, 16 de fevereiro de 2020
quinze vezes ao dia
ideia, vontade, filosofia
modifico-os o tempo todo
quinze vezes ao dia
entretanto uma vez basta
para você me olhar e saber
precisamente o que é
aquilo que não modifica
modifico-os o tempo todo
quinze vezes ao dia
entretanto uma vez basta
para você me olhar e saber
precisamente o que é
aquilo que não modifica
segunda-feira, 27 de janeiro de 2020
Poesia
Não adiantam palavras bonitas
há de haver um ritmo, um nó, um eu
há de haver beleza
tristeza
rimar não precisa
há de haver uma falta de eu, de tu
uma falta qualquer
uma certeza da morte
medo não precisa
há de haver dor
palavras bonitas ajudam
mistério
uma lembrança que ninguém mais tem
há de haver uma poesia antes
uma escultura embutida na pedra
um ou outro silêncio
antes e depois
há de haver um depois
há de haver um ritmo, um nó, um eu
há de haver beleza
tristeza
rimar não precisa
há de haver uma falta de eu, de tu
uma falta qualquer
uma certeza da morte
medo não precisa
há de haver dor
palavras bonitas ajudam
mistério
uma lembrança que ninguém mais tem
há de haver uma poesia antes
uma escultura embutida na pedra
um ou outro silêncio
antes e depois
há de haver um depois
terça-feira, 14 de janeiro de 2020
quinta-feira, 9 de janeiro de 2020
Quando eu acordo
Existem uns segundos logo que acordo
segundos de dúvida
quem é esse homem
qual cara ele tem
me viro por entre o nó de nossos corpos
você ainda dorme
te olho
te examino
me lembro que homem é
o meu
o que eu escolho amiúde
no instante em que acordo
segundos de dúvida
quem é esse homem
qual cara ele tem
me viro por entre o nó de nossos corpos
você ainda dorme
te olho
te examino
me lembro que homem é
o meu
o que eu escolho amiúde
no instante em que acordo
quarta-feira, 18 de dezembro de 2019
O amor
o amor te ensinou a ter medo
do seu jogo preferido
tirou-o de casa uma vez
fez voltar outra vez
o amor deixou o seu rosto marcado
a postura mais curva
o cabelo mais ralo
o amor te empurrou
da escada
recolocou-o
na poltrona
o amor se mostrou
nos livros com recados
nos quadros da casa
em corações pendurados
o amor ficou de luto
escapou um minuto
disfarçou-se de vulto
no entanto o amor, meu amor,
esse amor malcriado
maldito e encantado
nem por decreto
deixou o seu lado
do seu jogo preferido
tirou-o de casa uma vez
fez voltar outra vez
o amor deixou o seu rosto marcado
a postura mais curva
o cabelo mais ralo
o amor te empurrou
da escada
recolocou-o
na poltrona
o amor se mostrou
nos livros com recados
nos quadros da casa
em corações pendurados
o amor ficou de luto
escapou um minuto
disfarçou-se de vulto
no entanto o amor, meu amor,
esse amor malcriado
maldito e encantado
nem por decreto
deixou o seu lado
segunda-feira, 9 de dezembro de 2019
preso no fio
um dia você ganhou
um coração
preso num fio
o prendeu
no retrovisor
o manteve
balançando
não é mais tudo
símbolo?
terça-feira, 19 de novembro de 2019
Impulso
o céu branco fala diretamente com o meu peito
o seu corpo é sempre tão quente, eu não entendo
em alguns momentos eu me canso
e tenho vontade de voltar pra casa
o impulso humano é o de deitar-se ou de seguir?
às vezes parece que você tem as respostas
eu só não entendo o que elas querem dizer
minhas perguntas aumentam
o céu branco fala diretamente com o meu impulso
de deitar-me no seu peito sempre quente
você não tem resposta nenhuma para as minhas perguntas
o impulso humano deve mudar constantemente
em alguns momentos eu me canso
e tenho vontade de fazer-te minha casa
o seu corpo é sempre tão quente, eu não entendo
em alguns momentos eu me canso
e tenho vontade de voltar pra casa
o impulso humano é o de deitar-se ou de seguir?
às vezes parece que você tem as respostas
eu só não entendo o que elas querem dizer
minhas perguntas aumentam
o céu branco fala diretamente com o meu impulso
de deitar-me no seu peito sempre quente
você não tem resposta nenhuma para as minhas perguntas
o impulso humano deve mudar constantemente
em alguns momentos eu me canso
e tenho vontade de fazer-te minha casa
terça-feira, 5 de novembro de 2019
Fragmentos
espalhados
e parados
nos porta retratos,
nos pires, quadros e recados
micro fragmentos de mim
do meu cheiro, pensamentos, corpo inteiro
transformam minha casa
e tudo à minha volta
em um pouco de mim
e parados
nos porta retratos,
nos pires, quadros e recados
micro fragmentos de mim
do meu cheiro, pensamentos, corpo inteiro
transformam minha casa
e tudo à minha volta
em um pouco de mim
domingo, 3 de novembro de 2019
constatação
As marcas de dedos no vidro da varanda
o pôr do sol entre prédios
são uma espécie de aviso
o astro e eu em algum lugar
ocupamos o mesmo espaço
Há
Há um cão que obedece
flores que nunca desbotam
o pai de um antigo amor
há mãos fortes
pedaços dele espalhados
em dois pedaços menores
há uma força que o move
o tempo todo pra frente
um sorriso que a espera
sempre no topo da escada
Há nela uma enorme vontade
de haver também nele
flores que nunca desbotam
o pai de um antigo amor
há mãos fortes
pedaços dele espalhados
em dois pedaços menores
há uma força que o move
o tempo todo pra frente
um sorriso que a espera
sempre no topo da escada
Há nela uma enorme vontade
de haver também nele
No peito
finalmente eu senti o lado esquerdo
não sei dizer se uma batida
um aperto
algo pesado
algo quente
algo que não sei dizer
se amor, saudade, tristeza
ao mesmo tempo
talvez tudo isso
seja uma coisa só que aperta
no peito
não sei dizer se uma batida
um aperto
algo pesado
algo quente
algo que não sei dizer
se amor, saudade, tristeza
ao mesmo tempo
talvez tudo isso
seja uma coisa só que aperta
no peito
sexta-feira, 1 de novembro de 2019
ser de alguém
mesmo que ser de alguém
esteja fora de moda
não consigo mais ser só minha
agora eu sou sua também
em tudo que eu sou
sinto, vejo, percebo e reflito
sou minha sim eu repito
mas parti minha alma no meio
e a outra metade lhe dou
esteja fora de moda
não consigo mais ser só minha
agora eu sou sua também
em tudo que eu sou
sinto, vejo, percebo e reflito
sou minha sim eu repito
mas parti minha alma no meio
e a outra metade lhe dou
Caso
você sentou no meu braço
imediatamente me esqueci de tudo que era antes
perdi minha casa
a noção de espaço e de tempo
disse sim
enquanto descia a escada eu sabia
seria você a minha casa
imediatamente me esqueci de tudo que era antes
perdi minha casa
a noção de espaço e de tempo
disse sim
enquanto descia a escada eu sabia
seria você a minha casa
quarta-feira, 30 de outubro de 2019
não adianta
tenho vontade de gritar com ela
apertá-la pelo pescoço, chacoalhá-la bem
mas não adianta, não tem jeito
nada disso tem efeito
a poesia é teimosa, mal-criada
só aparece quando quer
e nem sempre eu a entendo
apertá-la pelo pescoço, chacoalhá-la bem
mas não adianta, não tem jeito
nada disso tem efeito
a poesia é teimosa, mal-criada
só aparece quando quer
e nem sempre eu a entendo
terça-feira, 29 de outubro de 2019
Sonhei
Eu olhava nos olhos do Steve Martin e perguntava:
como se faz para criar algo original no campo da atuação?
Ele ia responder, mas era interrompido.
como se faz para criar algo original no campo da atuação?
Ele ia responder, mas era interrompido.
terça-feira, 8 de outubro de 2019
Seminário
Quem é esse homem? Sobre o que ele fala?
quando me beijou na cama mais cedo sua língua era outra
"tratar o real pelo simbólico" do que se trata?
Ele fala, fala, fala grego, árabe, francês
quem é esse homem que dorme em mim?
ele diz datas, anos, um bebê chora lá fora
"no seminário de Roma" parece tão solene
quando me beijou na cama era leve, suave
ele chama o bebê de melodia agradável
e o despreza solenemente
tenta se concentrar de novo, sério
eu penso no bebê, no quanto os bebês choram
esse homem é a minha casa?
"a ruptura das coordenadas simbólicas"
não faz nenhum sentido para mim
mas eu acho bonito, queria colocar num poema
toda ruptura rende um poema
todas as suas
será que algum dia a gente se separa também?
espero que não e espero mais um pouco por ele
Sinto que ainda temos aquela venda nos olhos
aquela que se desfaz com o tempo
quando o amor se acostuma
sobre o que esse homem fala?
Alguém pergunta algo em russo
a mulher ao seu lado diz que é algo muito sério
eu penso se é sério como o aquecimento global ou o câncer
ou sério como ele, que franze a sobrancelha penteada por mim
eu sei quem é um fragmento desse homem
o meu fragmento
quero sentar no seu colo e fazê-lo rir como sempre
Esse fragmento de homem me amaria mais
se eu o entendesse inteiro?
quando me beijou na cama mais cedo sua língua era outra
"tratar o real pelo simbólico" do que se trata?
Ele fala, fala, fala grego, árabe, francês
quem é esse homem que dorme em mim?
ele diz datas, anos, um bebê chora lá fora
"no seminário de Roma" parece tão solene
quando me beijou na cama era leve, suave
ele chama o bebê de melodia agradável
e o despreza solenemente
tenta se concentrar de novo, sério
eu penso no bebê, no quanto os bebês choram
esse homem é a minha casa?
"a ruptura das coordenadas simbólicas"
não faz nenhum sentido para mim
mas eu acho bonito, queria colocar num poema
toda ruptura rende um poema
todas as suas
será que algum dia a gente se separa também?
espero que não e espero mais um pouco por ele
Sinto que ainda temos aquela venda nos olhos
aquela que se desfaz com o tempo
quando o amor se acostuma
sobre o que esse homem fala?
Alguém pergunta algo em russo
a mulher ao seu lado diz que é algo muito sério
eu penso se é sério como o aquecimento global ou o câncer
ou sério como ele, que franze a sobrancelha penteada por mim
eu sei quem é um fragmento desse homem
o meu fragmento
quero sentar no seu colo e fazê-lo rir como sempre
Esse fragmento de homem me amaria mais
se eu o entendesse inteiro?
segunda-feira, 30 de setembro de 2019
fim de semana
você prega dois quadros na minha parede
seu cachorro me fareja chegando
passa um trem na minha janela
prefiro os seus passarinhos
coloco roupas pra lavar na sua cesta
será que um dia a gente se casa no almoço
a calça do seu filho me cabe
você não gosta do churros
a moça que vasculha o lixo nos chama
o velho artista recita poesia no ipad
triste com o frio e as coisas da velhice
um estúdio com vista
pra gente imprimir amor nas paredes
o próximo inquilino vai ter que pintar
naquele monte de livros eu te conto:
uma mulher fez poesia com o movimento dos olhos
o movimento que fazemos me encanta
não gostava desse bairro
mas estou aprendendo a amar cada canto
porque é seu
seu cachorro me fareja chegando
passa um trem na minha janela
prefiro os seus passarinhos
coloco roupas pra lavar na sua cesta
será que um dia a gente se casa no almoço
a calça do seu filho me cabe
você não gosta do churros
a moça que vasculha o lixo nos chama
o velho artista recita poesia no ipad
triste com o frio e as coisas da velhice
um estúdio com vista
pra gente imprimir amor nas paredes
o próximo inquilino vai ter que pintar
naquele monte de livros eu te conto:
uma mulher fez poesia com o movimento dos olhos
o movimento que fazemos me encanta
não gostava desse bairro
mas estou aprendendo a amar cada canto
porque é seu
Contagem das notas
Adio todos os dias a contagem das notas
já sei que não são muitas
todos os dias me fazem pensar
os legumes enrugados na forma
a minha pele
contar notas é o que se faz
essas palavras que eu transbordo
me desenrugam um pouco a pele
mas não colocam legumes na forma
é preciso levantar
e contar notas
segunda-feira, 16 de setembro de 2019
de manhã
Eu sei que não dá tempo pra mais coisa
de manhã:
tem o café, o cão, o rosto para lavar
pernas que te prendem
mas sabe o que é?
precisa regar também pela manhã
faz tanto calor
manjericão gosta de água
o tomilho-limão e aquela azulzinha
sendo assim, deixe comigo
eu irei te enroscar
toda manhã te atrasarei
café, cão, rosto pra lavar
depois
prometo
eu regarei nosso jardim
de manhã:
tem o café, o cão, o rosto para lavar
pernas que te prendem
mas sabe o que é?
precisa regar também pela manhã
faz tanto calor
manjericão gosta de água
o tomilho-limão e aquela azulzinha
sendo assim, deixe comigo
eu irei te enroscar
toda manhã te atrasarei
café, cão, rosto pra lavar
depois
prometo
eu regarei nosso jardim
segunda-feira, 9 de setembro de 2019
Tô falando agora
Fico querendo dizer que eu te amo em momentos que não tem nada a ver como quando estamos deitados vendo filme ou no meio da madrugada quando você está dormindo ou quando estamos no sofá da sala depois de ter passado vários dias sem se ver. Acontece que falar eu te amo me soa sempre tão redundante, óbvio, clichê. Um carrapato dizer que adora sangue. Você já sabe e eu falar parece que vai tirar a graça de todos os gestos que falam por mim. Já falei tantas vezes. Tô falando agora enquanto te olho com essa cara de boba e fico fazendo carinho no seu rosto. Falei também quando criei o hábito de sentar no seu colo no café da manhã. Te amo. Te amo.
domingo, 1 de setembro de 2019
terça-feira, 27 de agosto de 2019
ex-jogador
o tempo não sabe a hora certa
ele diz, e corta a carne no prato
me sento no seu colo para ouvir
não posso reclamar, ele fala, não vivi uma vida morna
observo suas manchas de perto
imagino as suas casas anteriores, o filho que ele não teve
as paixões que arrancaram raízes
o pintor que era sogro e agora é paciente
eu gosto de ouvi-lo contar
as batatas no seu prato parecem aguadas, sem gosto
mas o pedaço de carne brilha
ele dá mais um gole no vinho bem na hora de dizer
que não sabe o que esperar
que não pode mais jogar rugby
ele tem o corpo que eu gosto, de ex-jogador
ele mostra sua taça maior do que a minha
e eu bebo bem na hora que digo
que agora eu faço parte
também não sei o que esperar, mas sei que é muito
não fui a primeira mulher a chegar
mas eu cheguei bem agora, nesse momento preciso
eu trouxe comigo o meu tempo, o meu corpo
o meu órgão que bate
eu não digo nada mas penso
o tempo sabe a hora exata
ele diz, e corta a carne no prato
me sento no seu colo para ouvir
não posso reclamar, ele fala, não vivi uma vida morna
observo suas manchas de perto
imagino as suas casas anteriores, o filho que ele não teve
as paixões que arrancaram raízes
o pintor que era sogro e agora é paciente
eu gosto de ouvi-lo contar
as batatas no seu prato parecem aguadas, sem gosto
mas o pedaço de carne brilha
ele dá mais um gole no vinho bem na hora de dizer
que não sabe o que esperar
que não pode mais jogar rugby
ele tem o corpo que eu gosto, de ex-jogador
ele mostra sua taça maior do que a minha
e eu bebo bem na hora que digo
que agora eu faço parte
também não sei o que esperar, mas sei que é muito
não fui a primeira mulher a chegar
mas eu cheguei bem agora, nesse momento preciso
eu trouxe comigo o meu tempo, o meu corpo
o meu órgão que bate
eu não digo nada mas penso
o tempo sabe a hora exata
sábado, 24 de agosto de 2019
Noite em claro
A primeira vez que eu passei a noite em claro
eu estava no acampamento de férias
eu e o menino ruivo que tinha a voz rouca
ficamos mexendo na fogueira semi apagada,
olhando o céu ficar claro
espantando espíritos com gravetos
no dia seguinte eu lembro de olhar no espelho
e ver aqueles sulcos roxos debaixo dos olhos
depois eu dormi e elas foram embora, as olheiras
agora não é mais assim
as olheiras estão sempre aqui,
mesmo que eu durma o dia todo
me lembram que os anos estão passando
não adianta espantar espíritos com gravetos
eles vem de qualquer jeito
levam um pouco da nossa vida
e deixam os nossos olhos marcados
eu estava no acampamento de férias
eu e o menino ruivo que tinha a voz rouca
ficamos mexendo na fogueira semi apagada,
olhando o céu ficar claro
espantando espíritos com gravetos
no dia seguinte eu lembro de olhar no espelho
e ver aqueles sulcos roxos debaixo dos olhos
depois eu dormi e elas foram embora, as olheiras
agora não é mais assim
as olheiras estão sempre aqui,
mesmo que eu durma o dia todo
me lembram que os anos estão passando
não adianta espantar espíritos com gravetos
eles vem de qualquer jeito
levam um pouco da nossa vida
e deixam os nossos olhos marcados
quinta-feira, 22 de agosto de 2019
Sonhos
Uma vez eu sonhei que você me dizia
amar é trocar o vazio
pelo transbordar
você tocou uma música pra mim
no violão
e no final me disse
que os seus olhos saíram de órbita
eu não sei o que isso quer dizer
estou sempre cheia de sonhos
com mensagens secretas
você decifra e não me conta
mas é tão fácil de ver
que estou transbordando
amar é trocar o vazio
pelo transbordar
você tocou uma música pra mim
no violão
e no final me disse
que os seus olhos saíram de órbita
eu não sei o que isso quer dizer
estou sempre cheia de sonhos
com mensagens secretas
você decifra e não me conta
mas é tão fácil de ver
que estou transbordando
segunda-feira, 19 de agosto de 2019
Procuro uma casa
eu olho as ruas no mapa e elas não são muito perto da sua
nem do metrô
nem do meu salário
penso em desistir mas minha mãe me chama da cozinha
eu preciso de espaço
de silêncio
as ruas tem nomes de mulheres tristes
Linda Ferreira da Rosa, aposto que não era linda
nem de nenhuma rosa
eu nunca paguei aluguel
só o supermercado
e as plantas
a sua voz se dá bem com qualquer poesia
sua risada com a minha
as ruas com árvores não são mais caras
elas já vem com passarinhos
mas o aluguel não muda por isso
de repente eu percebo que procuro uma casa
bem dentro da sua gaveta
nem do metrô
nem do meu salário
penso em desistir mas minha mãe me chama da cozinha
eu preciso de espaço
de silêncio
as ruas tem nomes de mulheres tristes
Linda Ferreira da Rosa, aposto que não era linda
nem de nenhuma rosa
eu nunca paguei aluguel
só o supermercado
e as plantas
a sua voz se dá bem com qualquer poesia
sua risada com a minha
as ruas com árvores não são mais caras
elas já vem com passarinhos
mas o aluguel não muda por isso
de repente eu percebo que procuro uma casa
bem dentro da sua gaveta
segunda-feira, 12 de agosto de 2019
Chanel número 5
Eu abri a gaveta e encontrei no canto, ao lado de alguns livros, um Chanel igual ao meu. Mas não era o meu. Era de alguém que esteve ali antes de mim. Uma mulher que não conheço, nunca vi. Fechei a gaveta com vontade de ir embora. Tinha um pouco da mulher na gaveta. No cômodo, no lado direito da cama, em todos os seus lençóis. Em tudo seu tinha um pouco da mulher que não era eu. Quanto dela teria em você, nos seus pensamentos, no seu jeito de sorrir? Sentei na cama e você falou comigo, mas eu não ouvi. Só queria ir para casa. A minha casa. Abrir a minha gaveta e encontrar as minhas coisas, os meus livros, o meu cheiro. Acordei. Aquilo foi só um sonho: a mulher, a gaveta, o perfume. Um sonho que podia ser real, mas não tinha nenhum perfume na gaveta. Te contei do meu sonho no café da manhã. Desci as escadas rumo ao portão e você sussurrou: psiu, a gaveta é toda sua. Sorri. E a mulher dissolveu-se de tudo quanto é canto.
segunda-feira, 5 de agosto de 2019
A chegada
Meu pai, romântico, sempre me falou dos sinos que tocariam
anunciando a chegada do amor.
Ele é um dos poucos homens que viu o amor a olho nu.
Andou por aí, teve muitas mulheres,
mas sempre foi só da minha mãe.
Quando eu digo que estou apaixonada, ele rebate: "ouviu os sinos?"
Exagerado.
Sinos que tocam sem que ninguém ouça é esquizofrenia.
Tem remédio pra isso.
Quando eu te vi, encurvado no braço da cadeira
o rosto cansado, o cheiro de cerveja,
é claro que não houve sinos, eu nem esperava
mesmo que o beijo encaixasse, o abraço, a conversa.
Ontem você leu poesia para mim
sua voz cuidadosa respeitava os versos,
o tom que pede cada palavra, a calma
um ruído interrompeu a leitura, mas você não parou
me olhou sorrindo como se nem percebesse
o ensurdecedor badalar.
anunciando a chegada do amor.
Ele é um dos poucos homens que viu o amor a olho nu.
Andou por aí, teve muitas mulheres,
mas sempre foi só da minha mãe.
Quando eu digo que estou apaixonada, ele rebate: "ouviu os sinos?"
Exagerado.
Sinos que tocam sem que ninguém ouça é esquizofrenia.
Tem remédio pra isso.
Quando eu te vi, encurvado no braço da cadeira
o rosto cansado, o cheiro de cerveja,
é claro que não houve sinos, eu nem esperava
mesmo que o beijo encaixasse, o abraço, a conversa.
Ontem você leu poesia para mim
sua voz cuidadosa respeitava os versos,
o tom que pede cada palavra, a calma
um ruído interrompeu a leitura, mas você não parou
me olhou sorrindo como se nem percebesse
o ensurdecedor badalar.
quarta-feira, 17 de julho de 2019
Poesia
meus amigos não entendem
a solidão que é gostar de poesia
esmiuçar palavras, solitária
organizá-las por cor
vê-las dançando, gritando coisas
quando rabisco algumas frases
exponho as minhas tripas e eu gosto
acho lindo
mas é pura solidão.
sexta-feira, 5 de julho de 2019
Embaixo da cama
Eu sei que é preciso olhar
mas é tanto o meu receio
já encontrei de tudo
embaixo da cama alheia
sacos de ossos, escuridão
perda de tempo, não
o olhar nem sempre atento
deixa passar tanta coisa
quando eu precisar olhar
embaixo da sua
o medo é do que vou achar
quinta-feira, 4 de julho de 2019
terça-feira, 2 de julho de 2019
destino cravado
Ele nem sabe
mas era para ela ter ido embora há 20 minutos
no dia que eles se conheceram
[ela chegou a descer as escadas]
acontece que ele
não acredita em destino cravado
[e talvez seja mesmo bobagem]
então ela nem fala nada
mas era para ela ter ido embora há 20 minutos
no dia que eles se conheceram
[ela chegou a descer as escadas]
acontece que ele
não acredita em destino cravado
[e talvez seja mesmo bobagem]
então ela nem fala nada
quarta-feira, 19 de junho de 2019
boca do outro
você repetiu o que eu disse
fiquei assustada
quando ouvi da sua boca
quis ficar em silêncio
esquecer sua presença
pensar no que eu disse
tudo parece tão distorcido
quando sai da boca do outro
fiquei assustada
quando ouvi da sua boca
quis ficar em silêncio
esquecer sua presença
pensar no que eu disse
tudo parece tão distorcido
quando sai da boca do outro
vontade
me acostumar com os seus lençóis
fazer parte de alguma rotina
sentir o seu cheiro de manhã
ouvir o som que você ouve
antes do café
saber as suas histórias
até as que você não conta
lembrar a cor dos passarinhos
que cantam na sua janela
não ver pôr do sol da varanda
por causa das árvores
conhecer os sapatos dos seus filhos
embaixo das pequenas camas
trocar os meus pés
pelos seus
fazer parte de alguma rotina
sentir o seu cheiro de manhã
ouvir o som que você ouve
antes do café
saber as suas histórias
até as que você não conta
lembrar a cor dos passarinhos
que cantam na sua janela
não ver pôr do sol da varanda
por causa das árvores
conhecer os sapatos dos seus filhos
embaixo das pequenas camas
trocar os meus pés
pelos seus
segunda-feira, 10 de junho de 2019
processo criativo
eu aprendi num curso que eu fiz que a maneira mais eficaz de se aprender alguma coisa é ensinando.
você me disse que eu te ensinei muita coisa. queria saber o quê
estou com dor de dente e todos os dias eu torço para que passe sozinha
muitas dores passam sozinhas e sempre levam alguma coisa junto
às vezes um dente
a gente falou de processo criativo
vou precisar pensar qual é o meu
fico olhando as pessoas, cavucando amores antigos
[eu poderia estar casada agora, sem nem saber quem eu sou]
fisguei a minha alma lá no fundo do oceano
quase afogada, sozinha
abandono de incapaz
o cabeleireiro me perguntou qual é o meu defeito preferido
físico ou de personalidade?
respondi "olheiras" e pensei na minha enorme dispersão
eu não consigo me concentrar
o que foi mesmo que você falou sobre a sua mãe?
ainda bem que você cancelou nosso jantar
faz tanto frio e você quase não me entende
você me acha um bicho esquisito que te faz rir
um bicho bonito
eu queria mesmo era achar um bicho da minha espécie
um bicho pra me ensinar a ser gente
um bicho que eu pudesse aprender.
você me disse que eu te ensinei muita coisa. queria saber o quê
estou com dor de dente e todos os dias eu torço para que passe sozinha
muitas dores passam sozinhas e sempre levam alguma coisa junto
às vezes um dente
a gente falou de processo criativo
vou precisar pensar qual é o meu
fico olhando as pessoas, cavucando amores antigos
[eu poderia estar casada agora, sem nem saber quem eu sou]
fisguei a minha alma lá no fundo do oceano
quase afogada, sozinha
abandono de incapaz
o cabeleireiro me perguntou qual é o meu defeito preferido
físico ou de personalidade?
respondi "olheiras" e pensei na minha enorme dispersão
eu não consigo me concentrar
o que foi mesmo que você falou sobre a sua mãe?
ainda bem que você cancelou nosso jantar
faz tanto frio e você quase não me entende
você me acha um bicho esquisito que te faz rir
um bicho bonito
eu queria mesmo era achar um bicho da minha espécie
um bicho pra me ensinar a ser gente
um bicho que eu pudesse aprender.
Não sei dizer o que foi
Não sei dizer o que foi
o café da manhã era bom
a massagem também
a conversa
o encaixe
não quis ficar em silêncio
só um pouco
ele também
o som da rua não atrapalhou
o tempo curto
o monólogo
me dá mais um abraço:
não foi
o café da manhã era bom
a massagem também
a conversa
o encaixe
não quis ficar em silêncio
só um pouco
ele também
o som da rua não atrapalhou
o tempo curto
o monólogo
me dá mais um abraço:
não foi
templo
me sinto tão bem agora
que me falta poesia
eu gosto de homens que me tratam como um templo
eu sou mesmo um templo, nós mulheres
gosto de ver as minhas cascas caindo no chão
dia após dia
gostei de te ver no bar, o mesmo de sempre
sem um pingo de empatia
desesperado por amor verdadeiro
você foi o último que eu deixei entrar
você me ensinou a esperar pra ver
eu só agradeço, tanta calma agora
minha poesia sempre veio da tristeza
agora eu sei mais
mas me falta poesia
que me falta poesia
eu gosto de homens que me tratam como um templo
eu sou mesmo um templo, nós mulheres
gosto de ver as minhas cascas caindo no chão
dia após dia
gostei de te ver no bar, o mesmo de sempre
sem um pingo de empatia
desesperado por amor verdadeiro
você foi o último que eu deixei entrar
você me ensinou a esperar pra ver
eu só agradeço, tanta calma agora
minha poesia sempre veio da tristeza
agora eu sei mais
mas me falta poesia
quarta-feira, 29 de maio de 2019
Mancha
veja como é pequena
e engraçada
a minha alma
veja como brilha
e ri da tentativa
de prendê-la neste pote
já não está mais aqui ela
deixou uma grande mancha
de algo que não sei
amor, será?
e engraçada
a minha alma
veja como brilha
e ri da tentativa
de prendê-la neste pote
já não está mais aqui ela
deixou uma grande mancha
de algo que não sei
amor, será?
segunda-feira, 27 de maio de 2019
Ele não sabe
Será que ele não sabe
que ela tem fios de cabelo
caindo no rosto
no pescoço, na nuca?
dedos que mexem nas coisas
com elegância e unhas
que parecem sempre feitas?
será que ele não sabe
que ela faz poesia com as palavras
dá risada do engraçado
opina sobre tudo
- tantas vezes com razão?
ela tem olhos azuis
corpo de bailarina
velas, incensos e anéis,
será que ele não vê?
as coisas que ela escreve
podiam estar emolduradas
mas estão no livro
que ele insiste em devolver
o coração dela
devia estar num altar cheio de flores
mas acho que ele não sabe
ela tem fios de cabelo
que caem no rosto enquanto fala
mas acho que ele não vê.
segunda-feira, 20 de maio de 2019
única
quando lembro de você indo para o quarto
vestindo aquela camiseta branca
enorme
não lembro por que fui embora
imagino o silêncio que ficou na sala
sem plantas
você me fazia rir
mas eu chorei uma vez
- e bastou.
vestindo aquela camiseta branca
enorme
não lembro por que fui embora
imagino o silêncio que ficou na sala
sem plantas
você me fazia rir
mas eu chorei uma vez
- e bastou.
sábado, 27 de abril de 2019
sorrio
Gosto de imaginar
você me procurando na festa
sorrio quando penso que você
nunca vai me encontrar
você me procurando na festa
sorrio quando penso que você
nunca vai me encontrar
quinta-feira, 25 de abril de 2019
Quando acendo a luz que carrego no peito
Quando acendo a luz que carrego no peito
eu entendo:
tem sempre alguém por perto
Luz brilha, ilumina
é ímã de companhia
Quando acendo a luz que carrego no peito
eu vejo melhor os meus defeitos
não dá pra esconder
a luz revela a quem não quer ver
Quando apago a luz que carrego no peito
que percebo
dor entalada e solidão
ninguém fica com a luz apagada
não vale nada a escuridão
eu entendo:
tem sempre alguém por perto
Luz brilha, ilumina
é ímã de companhia
Quando acendo a luz que carrego no peito
eu vejo melhor os meus defeitos
não dá pra esconder
a luz revela a quem não quer ver
Quando apago a luz que carrego no peito
que percebo
dor entalada e solidão
ninguém fica com a luz apagada
não vale nada a escuridão
terça-feira, 23 de abril de 2019
Foto sua
A sua fotografia no meu computador
não me dá mais saudade
aceitaria apenas saber de você
ver o que mudou
tão difícil ter mudado
mas eu queria ver
Eu lembro daquele dia
que eu passei um perfume da Índia
um cheiro que me encantava
você disse que eu cheirava yoga
não gostou que ficou no seu travesseiro
aquela foi a última vez que eu te vi
você parecia o mesmo de sempre
guardado dentro de si
Agora eu olho a sua foto
aquele sorriso cheio de segredos
algumas mentiras
Eu não tenho mais saudade
do seu abraço e cama
você deitava sempre tão longe
Agora eu vejo na foto sua
alguém que eu nunca conheci
não me dá mais saudade
aceitaria apenas saber de você
ver o que mudou
tão difícil ter mudado
mas eu queria ver
Eu lembro daquele dia
que eu passei um perfume da Índia
um cheiro que me encantava
você disse que eu cheirava yoga
não gostou que ficou no seu travesseiro
aquela foi a última vez que eu te vi
você parecia o mesmo de sempre
guardado dentro de si
Agora eu olho a sua foto
aquele sorriso cheio de segredos
algumas mentiras
Eu não tenho mais saudade
do seu abraço e cama
você deitava sempre tão longe
Agora eu vejo na foto sua
alguém que eu nunca conheci
eu teria ido
Nosso amor nunca fez sentido
a gente não era pra ser
nosso amor estava impedido
muito antes de acontecer
Mesmo que sorrateiro
ir embora às vezes faz bem
você foi o primeiro
mas eu teria ido também
a gente não era pra ser
nosso amor estava impedido
muito antes de acontecer
Mesmo que sorrateiro
ir embora às vezes faz bem
você foi o primeiro
mas eu teria ido também
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