terça-feira, 17 de maio de 2016

A notícia

Minha irmã parecia triste. Reclamava que estava gorda e que andava irritada e cansada demais. Minha mãe estava secretamente preocupada com ela. Sutilmente minha mãe, que também é médica, pediu uma pilha de exames para a minha irmã, alegando que fazia tempo que minha irmã não fazia exames, que ela só queria dar uma olhadinha mesmo. Pra mim era tudo muito óbvio: minha irmã tinha sido pedida em casamento há alguns dias e esse era o jeito dela de expressar o nervosismo extremo. Eu sabia que ela estava nervosa, ansiosa e que devia ser só isso. Minha mãe não. Ela pensava no cisto que uma vez um médico achou no ovário da minha irmã, mas que não era nada e que ficou por isso mesmo. Minha mãe sempre cismou com esse cisto. Ela sempre pedia exames, estava sempre de olho, sempre com medo do que aquilo poderia virar. O clima na casa estava ficando chato, porque a minha irmã só queria dormir o tempo todo e quando não dormia ficava reclamando das coisas. Ela só ficava melhor quando via o noivo. Eu estava um pouco cansada. E cansada também da minha mãe cega de preocupação, perguntando todos os dias se os exames tinham chegado. Meu pai ficava blasé na poltrona, ou fingia que estava blasé pra disfarçar que também estava preocupado com a minha irmã. Até o dia que o cara da portaria passou os exames por debaixo da porta, bem na hora do jantar. Meu pai foi o primeiro a perceber. Ele largou o garfo e olhou para minha mãe. Minha irmã nem se deu conta e continuou mexendo no celular, provavelmente falando com o noivo. Eu me levantei e fui buscar o envelope na porta. Minha mãe quase o arrancou da minha mão e já começou a rasgar o envelope. Ela ia lendo os resultados com os olhos e fazia um "ok" com a cabeça para o meu pai até que ela fixou o olho em certo ponto do papel. Ela fez cara de pânico, ficou branca e paralisada, olhando para um ponto fixo qualquer no chão. Nessa hora, num impulso, eu segurei a mão da minha irmã, que levantou os olhos para ver o que estava acontecendo. Quando ela viu o símbolo do laboratório no envelope e a cara da minha mãe, ela entendeu tudo. Meu pai também entendeu tudo. Os dois deixaram uma lágrima cair discretamente e tossiram quase juntos para disfarçar. Minha mãe de repente parece que voltou a realidade e disse, quase engolindo as palavras: "Eu... eu vou ser avó!" e deu uma risada pesada. Meu pai e minha irmã não entenderam nada. Nem eu.

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